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10.06.16

 

Olha, uma visita turística está bem, mas não te iludas: não quereria percorrer todas as tuas divisões, cerra as antecâmaras antes que veja demais. Nada sei do teu sorriso, mas sei de um segredo nos teus olhos, a única parte de ti que exibes à exaustão, como se ter pestanas longas atestasse qualquer coisa de bom em ti. Já eu, queimei as minhas a prescrutar os teus olhos, pelo que pelos meus, não vais lá. Depois, o meu marido chega, eu faço o jantar e finjo que tenho uma pestana tua na minha sopa, que afasto gentilmente para o canto do prato. Mentira: como-a, juntamente com as ervilhas. Sempre fugiste, pelo que é uma forma de te sentir o sabor. Porque não podes sair cedo do trabalho, porque a namorada tem ciúmes, porque não convém ultrapassar as inconveniências da proximidade. Mas não faz mal: imagino que o teu toque seja o contrário do de midas e não falo de moedas de ouro. Até agora, foste mero prenúncio de desastre natural, mas apenas uma daquelas trovoadas secas que antecedem as monções e que se limitam a criar altas espirais de fogo apontadas para o céu, poupando o verde que existe em volta. Não deves ser compatível nem com alguém do teu género, quanto mais com o teu oposto: consta que estes se atrem, mas só por breves momentos, como sabemos; depressa nos desinteressamos, porque olhar para o espelho cansa a não ser que sejas o oscar wilde. A tua escrita, às vezes inspirada, tem no entanto um quê de piroso, como uma loura bonita vestida de prada que deixa as raízes negras do cabelo à mostra. Queres classe com perversão, mas não existem ladies na mesa e putas na cama, isso é o tema de um livro mau, ou um ideal pimba, que confundes com algo transgressivo. Somos todas putas em todo o lado, até na mesa, mas fingimos bem, basta comer de boca fechada e não errarmos o talher. Mesmo assim, se gargalharmos como a julia roberts podemos errar no das caracoletas. Desconfio que tens alguma da aridez ingénua do homem comum de steinbeck, mas fazes por encarnar a ébria urbanidade de um bukowski estilizado. Embora se desprenda um pudor quase retrógado na tua escrita que te leva a conter o calão, talvez para não desagradar as massas, ou apenas porque não consegues, ficam-te presos os dedos. Achas-te atrevido na cama, mas aposto que qualquer coisa mais do que umas algemas fofinhas e a promoção do dia na sexshop mais fina da cidade, já te repugna. Não estamos destinados um ao outro porque estaríamos feitos um com o outro. Quando chegasse o momento de jogarmos ao rei manda, temo que, se te ordenasse três passos à caranguejo, assim cautelosos e de ladecos, investisses contra mim em rodopio, dez passos à bailarina, convencido de que me estavas a levar a abrir as pernas com o teu encanto natural, um passo à tesoura, menina, vá, que aqui mando eu. Olha, uma visita turística está bem, fiquemos assim: ouvirei atenta as palavras monocórdicas do guia e guardarei o folheto da entrada com o mapa confuso dos teus visitáveis recantos. Assim, cumprem-se ambos os nossos desejos: manténs a distância que sempre quiseste e eu fico a olhar a espiral de fogo até que se extinga no centro da relva verde que piso, a salvo nas orlas, assim não me queimo sem que valha mesmo, mesmo, a pena.

el secretodesusojos.jpg

 

(el secreto de sus ojos) 

 

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escrito por sofia vieira às 18:41

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17.02.16

Um texto de amor é um texto de amor. Nem sempre remendado com metáforas entrepernasedesejosmolhados. Um texto de amor é saudades furibundas contigo ainda ao lado. É pés morenos enfiados em chanatas que escorregam em pedras molhadas só para vermos os confins enovoados de uma praia. São tardes na varanda a olhar para as cegonhas e intercalar tratados de eloquência com silêncios de abissais, como quimeras. É encobrir segredos, confrontar ofensas, seguir em frente, não perdoar porque nada há a perdoar, apenas disparates que fizemos porque sim e porque tudo foi ontem. É tocarmo-nos onde mais ninguém tocaria se não fosse a sério, é dizer o que mais ninguém diria se não nos soubéssemos ouvidas, é usar o pressentimento para correr para a outra ou viver a nossa vidinha aparte quando pensamos que tudo está bem. O nosso amor é amoral, esquecido, translúcido e presciente. Não duvida nem desconfia. Não faz cerimónia e tanto anda ao estalo como aos beijos. Mas não levanta a voz, não se ressente e é alegremente ordinário, destravado como um filme cómico para maiores de vinte e cinco. É vernacular, sempre a desmembrar o cinismo alheio, filho da puta canibal, mas também clemente como uma freira bondosa, daquelas que pesam quarenta quilos e vão para áfrica. Raras são as vezes em que não estamos de acordo, mas quando acontece, discutimos à exaustão até não mudarmos de ideias. Depois, seguimos em frente para outra coisa qualquer. Nada em nós se parte nem se reconstrói, não é preciso. Somos intactas. Não nos fazemos favores nem nos agradecemos, basta pedir; nem isso: basta dizer ou calar. Às vezes, um átomo revolto desperta em nós um ciúme azedo e súbito, mas volátil, e quase nunca uma com a outra, o que nos facilita a vida: podemos sempre infernizar a dos outros. A nossa amizade é antiga, somo almas velhas reencarnadas que se encontram até já não se poderem aturar, fartas das tantas vidas bizarras em que foram obrigadas a cruzar-se. Brincamos de ser livres mas, às vezes, mirramos em celas contíguas, duas prisioneiras a comunicar pelo sistema de ventilação e a engendrar irreais planos de fuga. A tua força perante a adversidade, que insisto em confundir com optimismo, irrita-me. Mas calo-me porque tu sabes. Vejo sempre o pior cenário em tudo e nem disso me tentas demover, o que me irrita ainda mais. Muito é preguiça em nós, daí se calhar não precisarmos de conversas de café e preferirmos beber e fumar e comer de boca cheia - mas com os talheres certos. Esta última parte é tua. A telepatia não é um dom, mas uma artimanha de quem não lhe apetece esforçar-se muito, o que é o caso. Quero que te lembres da piscina insuflada no meio das ervas daninhas, da paz perfeita naquele bar longínquo com os homens mais bonitos do mundo, da tua gata aninhada no meu colo (aguenta-te), dos gins improvisados com as sobras de fruta, das minhas costas no teu horrível sofá, dos nossos cães a fugir pela areia, e do inferno que passei junto a um mar onde só contigo consegui regressar. Sabes que irei logo a correr, quero lá saber se para o outro lado do mundo, irei.

euemad2016.jpg

 

(...) 

 

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escrito por sofia vieira às 13:29

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19.12.15

Não que sejas um monstro, nem mesmo um traste, és apenas a metade de um homem cuja outra metade um dia quereria ter sido boa. És meia torrada com pouca manteiga, os primeiros capítulos de um livro gordo, um vinil riscado por alturas do refrão. És arraçado de maldade, embora não sejas propriamente mau: só vês o mundo zarolho. És a parte importante de um projecto que falhou, porque a parte que o fez falhar.  És a metade, não de um todo (nem sequer de um todo), mas para aí de dois quartos. A metade da metade. És o bólide que abranda a meio mesmo que nada se atravesse na reta iluminada; a parte que não recua nem pede perdão, que chafurda na pena e se excede na raiva, que atira com o desgosto ao ar para quem o apanhar, que marra contra comboios de chelas, ignorando o desvio a tempo. A metade que tu és agarrou-se ao meu eu inteiro. Fui mais matéria, mas menos espírito. Agora vou apanhar-me as pontas soltas,  colar-me os cacos, serzir-me por dentro e deitar-te fora, como bagagem, tem que ser. Não deixarei mais que que trepes por mim como um pai natal de varanda, pendurado num qualquer apêndice meu até ao carnaval. És pintura inacabada. Não a adoração dos magos,  mas mero esboço de um estranho, à venda na zona turística do centro histórico.  Não és o escravo incompleto, não descendes de um escultor maior. És a metade que falta, mas não a metade que conta. Escolhe a vida, não escolhas a vida. Espera!, escolhe a vida, mas dá-lhe com tudo:  não arrepies caminho , nem vás por atalhos, capuchinho, não cortes nos cigarros nem no perdão;  aguenta-te à bronca, que o teu fim está longe, para lá do horizonte que segura o mar. Mais depressa vês a américa.

21 grams2.jpg

 

                                                                                                                                 (21 Grams)

 

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escrito por sofia vieira às 21:03

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16.06.15

Tem dias  em que me falta a solidão do nosso silêncio, vá lá a saber porquê. Era um silêncio infeliz mas a tristeza também enche, quando o resto falta. É uma carência que me bate a dias incertos, sem aviso nem razão. Passa sem deixar vestígios, como um ataque de ansiedade no meio do trânsito ou uma dor de barriga antes de um exame de matemática. Aguento-me quieta porque sei o desfecho de ir ao teu encontro, impulsiva, como de costume sem nada para dizer,  só para te ver, que tenho saudades. Não tenho. Estou apenas num daqueles dias em que não aguento sozinha os murmúrios da cidade.

Sâo repentes em que preciso de ver a tua miséria para minorar a minha, relativiza-la, perceber que o teu poço é mais fundo do que o meu, que nem o eco da tua voz cá acima chega. Tomo dois Rivotril, e espero. Escondo a chave do carro para não me apanhar sonâmbula à tua porta, a olhar-te a janela, aberta ou fechada, será que estás, que me vais deixar entrar? Que vou poder escarafunchar na ferida mais um bocadinho? Ou já cicatrizaste? É o mais provável, e é o medo de ver que ganhaste  que me impede na verdade de me meter ao caminho. Rezo sempre para que me ignores e me desprezes, pois estarmos juntos é como dois sem abrigo que têm de se encaixar no mesmo saco cama sebento para sobreviverem à noite fria nas escadas de um prédio fino. Limitam-se a lutar por espaço e vêm no outro o seu próprio desamparo.

Tenho o coração aos pulos como se de repente me apaixonasse, porque sei que neste momento corro perigo. Eu, não tu. Tenho pouco em mim, mas corre-me nas veias força vital e alegria, gente, coisas, poesia, cafés, génio e música; e, se eu deixar, sugas-me esse pouco que tenho, num vórtice de tornado, deixando-me oca, às cabeçadas pela noite da cidade, a aceitar shots de velhos endinheirados de esgar lascivo, dos quais fujo quando finjo ir à casa de banho.

O Sr. Gil, guarda reformado e segurança da minha rua, cuja mulher, porteira do prédio em frente, se põe à janela a ajeitar-lhe o capachinho antes de ele sair para o trabalho,  já sabe, quando me vê chegar bamba, a falhar a fechadura da entrada, que andei a fugir de ti. Trata-me por menina, mas penso que no fundo me acha velha, apesar de ele andar já perto dos setenta. Nessas noites, quando percorro todas as ruas de Lisboa menos a tua, parece que adivinha, abre-me a porta do carro e encaminha-me gentilmente para a entrada do prédio. Depois, fica a olhar para a minha janela, como que para ter a certeza de que o perigo já passou e que as mãos já não me tremem. Em tempos, costumava ver-me a chegar de tua casa de madugrada e era como, se na sua sabedoria transmontana, adivinhasse que vinha seca por dentro, como um graveto morto. Tratava-me com uma gentileza desmesurada para que não me partisse e dizia com ar solene (apesar de me achar velha) menina, tem que se afastar de pessoas que lhe fazem mal, como se me estivesse a ler a sina. Acho que o menina  é de dó, porque não tenho um homem, o que é uma espécie de orfandade, ou então como se fosse uma tia solteira de útero mirrado que passasse os dias a olhar a fotografia gasta  do cabo raso que lhe fizera promessas fecundas no momento em que os pretos lhe rebentaram os miolos no assalto à caserna. A carta ficou a meio e tem nas pontas vestígios de sangue, mas ela ainda a guarda, numa caixinha de música que só cospe uma nota. Eu sou essa tia da carta incompleta, que enlouqueceu porque sabia o que viria a seguir, apesar de não estar escrito.

Sim, a seguir venho eu e, por milagre ou obra do diabo;  encontro a porta verde cá de baixo aberta e subo as escadas estreitas e mal cheirosas até ao primeiro andar, sem tocar para que não me possas deixar na rua. Quando vês quem sou, hesitas, quase que te ouço gritar, mudo; pode ser que abras, pode ser que não. Se abrires, encontro-te invariavelmente nu, calado, despudorado, a cama desfeita, e assim continuas apesar da minha presença, a ver tudo em ti descaído, sem força, desossado. Um dias destes, encontrar-te-ei acompanhado na cama e nessa nudez inválida, quase de certeza, o que não seria de todo embaraçoso. Ou me fazia convidada para um café, apresentando-me gentilmente, ou me despedia sorridente, ou partia-te a casa toda, companhia incluída. Se calhar, fazia as três coisas, não necessariamente por esta ordem. E continuaria a não te querer para nada.

Na próxima sessão de terapia, falarei  sobre os bichos da madeira que corroem o soalho da tua casa velha, que subiam a parede e me percorriam durante a noite, mordendo-me, e fazendo-se notar mais na minha pele do que as tuas mãos geladas.  Que só aqueciam pela manhã quando acordavas teso e te friccionavas violenta e cadentemente, como se à beira de descobrires o fogo na idade da pedra. E eu, na outra ponta da cama, a apreciar-te a eficiência extrema, num rancor resignado, a fumar o décimo cigarro. Afaste-se de quem não presta, menina. Mais dois comprimidos e um uísque puro, e só daqui a três semanas me volto a lembrar dos café au lait com que me obsequiavas ao longo da noite por não me conseguires foder.

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 (who´s afraid of virginia woolf?)

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escrito por sofia vieira às 00:14

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29.01.15

Apagar e escrever de novo. Mandar a presunção das palavras caras para o raio que as parta; porque não foram escritas com as vísceras de fora, nem com o coração a bombar enquanto sobe pelo esófago com a flexibilidade invetebrada de um polvo. O calculismo de um ataque cirúrgico de palavras cuspidas resulta na vida real, mas é um nado morto na escrita. Quando não existe uma raiva verdadeira, uma devoção honesta, ou a urgência de um desespero, mas apenas um esforço para ocultar a verdade figadal que nos dá vómitos, a que não se ousa sequer pensar. Agora, é olhar para a página em branco e tentar fazer sentido das emoções que, de tão agora sim agora não, impedem qualquer lógica semântica, rematada com a habitual petulância. Tu só me afectas quando me convocas emoções, de preferência negativas. Porque, com as boas, posso eu bem: incorporo-as e esqueço-as assim que se tornam passado, como um bitoque que me vai para as coxas.  As más, iluminam-me por dentro, como um fogo de santelmo, aceso com o lixo que deixaste fora dos contentores para que eu tropeçasse nele. Às vezes, sinto que comemoras os meus fracassos, o que me confunde. Nunca o ódio me foi próximo do amor, como apregoa o ditado,  mas a raiva consegue estar perto do desentendimento que existe no amor. Exaspera-me quando me tentas convencer da tua lógica sentimental, como uma equação  amorosa. Insistes em descrever o que sentes através de algoritmos e raízes quadradas. E eu, que não percebo nada disso, nem com um love for dummies,  ignoro-te a maior parte do tempo, como a previsão meteorológica, porque, tal como contigo, sabê-la não significa que a possamos alterar. Tens uma estranha característica: a de não deixares que a tua dor de mude, embora nem por isso te faça mais forte. Mas estás convencido de que é isso que te  mantém de pé. Talvez exista uma equação para tal paradoxo, um dia explicas-me, quando perceberes que a não és a tua própria solução. Já a minha dor, muda-me várias vezes ao dia, quando decide visitar-me (mesmo que lhe diga que não estou). Eu sou o desconforto do inesperado, o exaspero do aleatório, a maldade acriançada do saiu-me sem pensar. Nunca poderás contar comigo para te fazer feliz, mas, quando deixo as vísceras falar, elas gritam cá dentro que te amo. E agora descalça lá esta bota.

math.jpg

 

(rites of love and math) 

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escrito por sofia vieira às 00:19

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11.12.14

Está-se bem, sem ti. Morno, com a sopa dos velhos. Tanto se me dás como se me deste. Sei-te por perto, não me assome a vontade de cortar o tédio em dois. Trazes sorrisos atordoados e frases feitas, e revelas-te na directa proporção de um capricho súbito ou um pensamento ao calhas. Há então em mim um tremor ligeiro, um rumor volátil, quase só um boato nas bocas do mundo, inconsequente e tardio como um bilhete suicida: um breve espasmo em quem o lê, agora é tarde já não adianta. Sofres do mal de seres pouco, és pescador de corrico, de chumbo leve e de mar sem enchios; rasas-me a superfície a ver se mordo, mas desistes rapidamente, porque me sabes bicho de águas profundas. Às vezes, consegues-me. Quando a tua melancolia se sobrepõe à vontade de teres graça e se desprende na minha direcção, num vislumbre oblíquo. Tem dias em que me assentas razoavelmente bem, como um cachecol num dia frio e eu saio de casa de gola alta: um acessório que aconchega sem ser preciso. Está-se bem, sem ti. Mas, pelo sim pelo não, vai ficando. Deixa-me saber do tempo para amanhã e sondar os soluços da Terra, que eu nunca me fio na brandura dos elementos. 

belle de jour.jpg~c200

 (belle de jour)

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escrito por sofia vieira às 19:47

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28.02.14

Falas-me num linguajar distante e eu aceno, fingindo perceber o ininteligível. Argumentas seguro e a direito, como tu mesmo: uma linha reta, com um propósito teimoso e autista, que une um ponto a outro sem passar por lado nenhum, sem passar por mim. E eu, aos ziguezagues,  aos recuos e avanços, ao arrepio e em investidas, consoante o tempo ou o tom com que o rui da tabacaria me deu os bons dias, de acordo com o alinhamento dos astros, o dia do mês ou a folhagem das árvores. Eu, a apanhar bonés, à toa e à deriva, no inverso do teu verso, GPS avariado, aguardando instruções, de entrada ou de saída. Guardo as palavras com que não te respondo porque não as quero desbastar em vão, contra essa parede que és tu, atordoada de incompreensão. Não falas a minha língua, e eu que nunca aprendi outra e agora já sou burro velho. Suplicas-me com esse teu olhar aguado, como um paralítico amarrado a uma cama, se piscas um olho é sim, se o fechas é não, e nem mesmo assim te decifro, perdida com tanto bater de pestana. Ris-te de coisas que me são estranhas, algumas que até me repugnam, de tão pueris ou medíocres,  e não me achas piada, o que me enfurece mais do que se fosses com outra, ou  do que se me roubasses o anel barato de zircões baços que a minha avó me deixou. É uma raiva que cresce como um urso que se põe em pé,  que se levanta na tua direcção, desembainhada, feroz, apontada ao teu coração desprevenido. Não to admito. Não admito que me fales ardentemente, com a convicção desesperada de uma mulher neurótica, para que eu nada perceba, para que sejas ruído de fundo, música de elevador, a estática enervante de um rádio mal sintonizado. Não te admito que não gargalhes quando sou maravilhosamente  hilariante, que não me sejas cúmplice quando sou irónica ou maldosa, e que me obrigues às tuas patéticas investidas. Não me obrigas a nada, dirás. Mas basta quereres para eu me sentir obrigada, porque um amor puro como o teu tem muita força numa alma penada como a minha, que só desama e descarta, despeitada por não o sentir assim, na pele morta que já não se arrepia. Deve ser tão bom!, esse querer bem, esse propósito de fazer feliz, desinteressado e simples, deve ser tão bom o amar. Por inveja, obrigo-me a ouvir-te e a tentar fazer-me perceber, colada a ti a respirar o mesmo ar,  à espera que o teu amor se me pegue como um virus. Devo ser imune porque, quando falas e falas e falas,  e me apontas os olhos aguados de esforço, só o silêncio me invade, como o de uma igreja vazia onde dormem os ecos dos santos.

 

 

(dodsworth)

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escrito por sofia vieira às 22:59

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05.11.13

Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares. Nunca passaste do meio termo, da fugacidade matinal, da visita tardia de médico. Vinhas anunciado, com urgência de entrar e pressa de sair, tic tac tic tac. O fato ainda vincado ou já amarrotado, o alívio momentâneo do dia de trabalho, poucas palavras, umas queixas, beijos, o resto, e já estava. É tão bom não foi. Bonito, sempre, mesmo com a barriga a fugir ao cinto de marca, a camisa branca de funcionário a horas, os óculos a postos, a preocupação adulta na cara de miúdo, a bochecha a pedir beijos de consolo. E eu, despreocupada e alheia, cerveja fresca, descontrai, o alívio da tarde antes do porvir da noite, nunca te pedi que ficasses, nem mais um bocadinho, uns segundos apenas. Era assim, e chegava-nos. A palavra amor repetida no orgasmo, o léxico enganado pelo gozo rápido, nada de mais. Depois, semanas sem uma palavra, eu a meter-me contigo, tu a perceberes tudo mal, ela quer mais de mim, mas não era nada disso. Era eu a dizer-te que sabia, sabia da tua aridez e indiferença, do teu amor de segundos, e a mostrar-te que não servias para lágrimas, apenas para a redonda ironia de quem realmente não se importa. Era eu a imprimir-te a distância, a sufragá-la, menos é mais, a rir-me da tua ilusão de achares que eras preciso. Tudo em ti é inofensivo, és o contrário do abismo, do perigo, da adrenalina da traição; és a hora certa e eu, mais uns minutos que roubas generosamente à tua vida, tic tac tic tac,  como uma reunião ou um jogo de futebol. Nunca foste histeria nem o reboliço da espera, borboletas na barriga ou antecipação húmida do toque. Nem eu. Fomos pausas e intervalos, suspensão e brevidade. A ausência de tudo o que mata e faz mal fez com que durássemos tanto. Isso, e as inúmeras vezes que te disse não. Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares, como a cerveja que bebias antes de me enfiares a língua, tic tac tic tac, e o relógio começar a contar.

 

(one hour with you)

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escrito por sofia vieira às 14:08

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02.09.13

to keep the fire burning

 

https://www.facebook.com/sofiavieiraworkinprogress?ref=hl

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escrito por sofia vieira às 22:37

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24.08.13

Não sei o que fazer ao Amor, quando o tenho na mão. Só o sei deitar fora, como um perigo biológico, arma química pulsante na explosão iminente de ogiva nuclear. Arde-me nos dedos como bola em fogo e eu, trôpega e desajeitada, mariquinhas de dores e receios, anseio por me livrar dele, pousá-lo em qualquer lado para que outros o peguem e lhe façam melhor proveito. O Amor em mim é um nado-morto, uma excrescência, um tumor errático que vai doendo em sítios diferentes, uma ânsia de ser distante, uma fuga anunciada. Não sou eu, quando me chega. O meu Amor não é soneto nem sinfonia; é silêncio de pedra, paralisia,  mágoas contadas, águas passadas. Não é um rio; é um charco lodoso e raso, estagnado desde o início dos tempos, um micro cosmos de parasitas, de silêncio e terrores nocturnos, que não reflete o sol nem a lua. Não sei o que fazer ao Amor, sempre um  fantasma de um outro Amor, incorpóreo e vingativo, memórias velhas e enrugadas em forma volátil que escorrega pelo vão da escada, encaracolando-se, desalinhando as molduras na parede, atirando pratos ao ar, arrastando correntes de ar gélidas que me desconfortam de medo. É um cigarro esquecido que se consumiu num cinzeiro esbeiçado, um livro aberto em capítulo nenhum, um ferrão de abelha cravado na pele: pequeno, doloroso e inútil;  é  mais um dia de chuva em pleno inverno, o eterno refrão de uma canção pimba, um miúdo aflito que partiu os óculos e tacteia o chão. É o pesadelo recorrente em que passeio descalça numa viela suja, ou aquele em que o elevador cai e eu lá dentro,  numa descida sem fim. O Amor não é amo-te é detesto-me; é fragilidade e secura, aridez e desmaio, punção lombar, paragem cardíaca; é um mau dia de praia, um revés, uma fatalidade que me interrompe a fina sequência dos dias; é uma mensagem críptica encerrada numa garrafa velha polida por oceanos inteiros, eternamente à deriva,  que ninguém lê nem decifra. É falta de harmonia e de rima, falho de cadência e de propósito. O seu fim, é o fim em si mesmo. Não sei o que fazer ao Amor, quando o tenho na mão. Só o sei deitar fora.   

     

(wuthering heights)

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escrito por sofia vieira às 12:32

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09.07.13

Tantos anos, e o que nos resta?, senão esta intimidade de mucos e fluidos, de cócegas no lugar da tesão, e este riso dissonante em vez da adrenalina bruta da paixão?  Que nos resta?, senão as noites no computador, as costas dadas ao outro, colmatadas com pequenos cuidados, o que queres comer, o que eu quero beber, que fazer amanhã? Que nos resta?, senão o silêncio no carro, os carinhos esquivos que entremeiam o sexo, repetido e inócuo, as escolhas do dia, a rotina que nos sustenta, hoje passeio o cão e tu, despejas o lixo,  eu ao supermercado e tu, compras cigarros? Senão um aperto cá dentro que nos abafa a pele, esta falta de ar indizível, o conforto morno das coisas conhecidas, a mansidão da carne apaziguada no previsível, porque nada vai mudar nunca, tu e eu seguros, seguro de vida, seguros para a vida? Que nos resta?, senão  ceias de tabuleiro em frente à tevê, palavras sem surpresa na linha derradeira do tempo, a conta que temos em comum, a loiça por lavar, a roupa por pendurar, as despesas por pagar, um copo a mais a horas mortas, quando já estás a dormir? Para onde foi?, aquela monção dilúvio, o frémito, a tontura, o sobressalto antes da queda, a voragem indecente dos corpos a pique, o cheiro a verão que antecipávamos no outro? Para onde fomos quando nos fugimos?

 

 (the last time I saw paris)

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escrito por sofia vieira às 22:31

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28.05.13

Vejo-te de outra maneira, mudaste de cor e de aura. Não sei em que momento os meus olhos sorriram gulosos para o teu rabo e para o teu peito ravina ou quando, simplesmente, convergiram para os teus, indiferentes à diferença que vi em ti. Nem imagino, de onde surgiu a tua pele de repente tocável, como um instrumento de veludo ou um  animal macio e irresistível, que apetece cobrir de abraços e estrafegos, dos quais se debate porque estranho ao excesso do afago humano. Nem calculo, quando dei por mim a cheirar dissimulada o teu cabelo solto e escuro de breu, a passar por mim num esvoaço, desatento e desprevenido, como se eu inofensiva. Não faço ideia, sequer, de quando deixei de ver a tua boca, que fala  e bebe  sem cerimónia,  como o sítio de onde quero beber, enquanto tu calada, solenemente sôfrega, ligeiramente espantada. De quando a conversa passou a escuta e o riso passou a canção; as gargalhadas, a sinfonia; os passos, a compassos; e os teus dedos compridos,  a solilóquios de inteligência, que escondes, enrolados em si mesmos, quando não estás a fumar. Nem de onde vem esta saudade que o tempo não justifica, mais de corpo que de companhia;  e, muito menos, este ciúme simplório das tuas outras mulheres, que nem ganância é de te de ter só para mim, pois tal coisa não a sei.  Sou novata,  uma caloira na tua escola, com medo da praxe que me espera. Intuo em ti o conhecimento antigo das amazonas, uma linhagem real de mulheres que borbulham de sangue azul, que é a mais quente das cores. Vejo-te resultado de gerações cumpridas e batalhas ganhas. Vejo-te dor e esforço,  segredos e paradoxos, aventura e abandono.  Ou  então, apenas te imagino,  e tudo isto não passa de curiosidade pelo que de ti ignoro, ou por cheiros que não conheço  e geometrias que não explorei (pretendo poupar-te ao embaraço de saberes que te quero, por isso recorro ao lugar mais comum). A verdade é que não sei, de todo, em que exacto momento cada parte maiúscula de ti se transformou num pormenor esmiuçado por mim.

 

(blue is the warmest colour)

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escrito por sofia vieira às 03:57

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12.02.13

Há momentos assim, de guarda baixa, nos quais a imprudência explode em duas línguas que se enrolam em público, quando todos à volta se desvanecem em pó, como múmias remexidas sem cuidado. Há momentos assim, em que se fazem promessas falsas mas que de tão pungentes são por um segundo verdadeiras, em que morrem os sorrisos de circunstância e as palavras banais ficam presas na garganta, porque as cobras enrodilhadas nas bocas não as deixam sair, ameaçadoras como víboras. Há beijos de cinema mas de verdade, iguais ao daquele grande plano no final, que nos ilude com a expectativa de felicidade eterna, antes de nos levantarmos da cadeira e seguirmos as luzes no chão que nos indicam a saída para a vida, ignorando os créditos finais. Um beijo perfeito, às vezes seguido de outro, mas, antes, inspirar e olhos nos olhos, tentar parar, racionalizar o prazer, subestimar o momento, tentá-lo risível, fortuito, embaraçoso. E num ápice, porque nada resulta, as mãos atrevem-se mais que o beijo, o corpo acorda num esplendor acelerado e a alma adormece, inerte e sem sonhos, isenta de culpa. Não há antes nem depois numa fusão de tal calibre. A técnica exige-se perfeita, um beijo assim é uma forma subtil de sexo, de tão obsceno na sua ostentação pública, e não é para todos. São precisos dois dotados para a perfeição do amor instantâneo, para criar aquele instante que suga a realidade no seu vortex para no dia seguinte ser só mais uma letra na caligrafia dos dias. Sussurram-se palavras cortadas, quando se vem à tona inspirar e as bocas se separam, para sustentar a magia, presa por um fio de saliva, porque vai não vai e somos de novo abóboras com alma, gordas e inchadas com a súbita consciência dos outros, os níveis de oxigénio repostos, noções espacio-temporais, relógios no pulso e chaves no bolso, a caminho de casa, no embalo morno da domesticidade confortável.

 

(Human Desire)

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escrito por sofia vieira às 03:19

(post reeencontrado)

07.12.12

 

Olá tenho saudades. Hoje lembrei-me de ti, não tenho feito outra coisa não imagino porquê. Que tal almoçarmos agora um dia destes? Apetece-me corromper-te com beijos conversar contigo. Lanchar, se te der mais jeito e desvirginar o teu silêncio com a minha língua ouvir-te falar. Preciso de saber que ainda me queres o que tens andado a ler. Já nem sei o que te costumava dizer, mas ainda soletro de cor as palavras com que me vestiste que não seja por isso: o exercício do amor da amizade é como andar de bicicleta, nunca nos esquecemos. Sei que tens muito trabalho quero lá saber e que mal te lembras de mim atreve-te a esquecer-me. Mas, para um amor amigo, arranjamos sempre um bocadinho. Uma vida hora, é só o que te peço. Naquele hotel da baixa, o que tem o quarto a esplanada de frente para o rio, lembras-te? Em não podendo ser, morro deixa estar. Talvez para a próxima reencarnação. Fica mal e apodrece sem mim bem. Um beijinho à estúpida da tua mulher e outro aos teus fedelhos ranhosos miúdos. O meu paciente marido manda-te à merda cumprimentos e pergunta quando sais de vez da nossa cama aparecem. A ver se combinamos um churrasco de domingo com todos eles de preferência noutra mesa. Até jà Adeus.

 

(September)

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escrito por sofia vieira às 00:34

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29.11.12

O que me afasta de ti não é o medo de querer que fiques. Sou futilmente sensível à beleza e tu és belo como um deus ocidental, o que te valeu as minhas pernas abertas, alguns suspiros infantis e uma angústia breve que achei saudade mas que não passava da pedinchice de um corpo em falta, de mera leviandade hormonal. Digo-te não porque és apenas refrão, monólogo, um livro de mil páginas que apetece abandonar a meio do primeiro capítulo. Não me leves a mal: és uma boa alma, correcta e meiga. Apetece ter-te para o puro prazer da vista e do toque, como uma escultura ou um quadro, que admiramos e revemos do ângulo que nos apetece. Só que nunca descubro coisas novas a cada vez que te vejo, mesmo mudando de perspectiva. És uma recta sem desvios, do ponto A ao ponto B, tão determinado quanto previsível. A tua conversa é monótona como uma tarefa administrativa e o sexo é bom, às vezes mediano: o que é bem pior do que ser mau, porque neste caso poderíamos transformá-lo noutra coisa qualquer, como fazermo-nos cócegas vingativas, brincar às lutas ou alarvarmo-nos em comida, sublimando assim a mediania. Tento algum cuidado semântico para não te ofender, porque não gostar de ti é impossível. Acho que não estou a conseguir, desculpa. No entanto, é meu dever dizer-te que tudo isto seria despiciendo não fora uma lacuna imperdoável. Se eu quisesse mesmo, mesmo muito, dar-te-ia a conhecer um mundo novo: a minha cabeça superhipersónica. Confundir-te-ia, banzado, com as minhas piruetas mentais, as exasperantes contradições e o excesso emocional; perder-te-ias no meu labirinto interior, de tantas voltas que te deixaria tonto e incongruente, incapaz de rotinas e obrigado a reacções inesperadas, livre da dormência do tédio. Mas não quero. Sabes Porquê? Pelo que mais releva no universo amoroso: não entendes as minhas piadas.

 

(L'eclisse)

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escrito por sofia vieira às 21:15

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20.11.12

Sabes que finjo, mas na realidade entendo. Que o Amor é destrutivo, que o sexo pode ser agressão, parte incerta, alienação, bem perecível que se esgota no corpo do outro, mesmo que com  prazo alargado de validade. Que as palavras são uma arma que por vezes atinge mais fundo quando arremessadas à distância, do que quando ditas nos olhos e chocam na máscara que cada um coloca para sua protecção no combate corpo a corpo. Com a pele à solta, o instinto clama protecção: então somos cavaleiros medievais, esgueiramo-nos das investidas alheias, usamos armaduras polidas sobre a carne amedrontada enquanto o cérebro selado a aço flui por dentro, a explodir de adrenalina, desejo e morte. Nunca nos poderemos ver. Quarto escuro, venda nos olhos, cegueira de luz, fotobia, visão insuportável, excisão. Somos um abismo comum; o espelho onde vemos o que já sabíamos do outro e o que suspeitávamos de nós. Ficaríamos nus, indefesos. Afastemo-nos, então, ímanes de pólos opostos, bastardos do mesmo pai, incesto, pecado, devassidão. Nunca nos poderemos ter. Lobo de noite, falcão de dia. Seríamos reactor avariado, fusão dos mesmos males, piratas sanguinários, vilões deformados, vampiros translúcidos, assassinos em série com traumas de infância. À solta um no outro, enquanto o resto do mundo um imenso festim para mútuo comprazimento. Um desastre natural de proporções épicas, um filme catástrofe de efeitos aprimorados, explosões múltiplas em surround, Bum! Splash!, Bang!, o medo do fim a arrepanhar entranhas, a realidade a entrar sem licença.  Ondas gigantes devorar-nos-iam, terramotos empurrar-nos-iam para os centros de todas as terras, avalanches enterrar-nos-iam no nosso próprio estupor. Aviões contra torres, a voragem dos tornados, o retorno aos dinossauros, à era pré glaciar. Ambos perderíamos. A arte da manipulação pede que um se deixe manipular; a do amor, que um se deixe amar. Nenhum de nós permitiria nem daria nada ao outro: não gostamos de nós, não nos achamos credores do Bem. Mas o pior seria os outros, alheios a esta guerra sibilina, fratricida, borgiana: transformá-los-íamos  em cinzas, numa forma de nada, abaixo de pó. Tu serias Eu, portanto, repara, não se trataria de ciúmes: comigo só fazem o que eu deixo. Ponto. (assim, ponto: porque não existe onomatopeia que exprima adequadamente o silêncio mortal de uma explosão atómica).

 

(ladyhawke)

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escrito por sofia vieira às 16:56

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13.11.12

Os amigos e amantes não são feitos de palavras, são gente de carne e osso que se encontra a meio de pontes curtas e sólidas, daquelas que os romanos faziam no tempo do viriato e que ligavam terras cercanas que, de outro modo, nem se saberiam vizinhas. As palavras são enchentes que galgam as margens e separam povoações sós e sedentas de outras. Tu e eu fomos só escrita, margens alagadas, ribeiros intransponíveis. As palavras criam breves calores, mas gelam-nos quando lhes acrescentamos um ponto final, adeus até amanhã fica bem. Tu foste uma distracção, um sopro de fé, um breve fogo cá em baixo quando o indizível ficava por escrever mas se intuía. Não imagino o que fui para ti. Sei que nunca estiveste disponível para amar e que amigos há muitos, como os chapéus. Trazes contigo uma bagagem tão pesada que nem mil escravos a carregariam áfrica acima de costas curvadas. Soçobrariam logo, ali no sopé de um kilimanjaro qualquer. Isto sou eu a adivinhar. Quanto à minha, não caberia no porão de um avião comercial, tanto extra a pagar no momento do check in que mais valeria ficar em terra. O amor  quer-se fresco: é um salto no escuro, um nada do qual se faz luz, uma onda que irrompe de um mar flat, flatline que repica no monitor quieto do hospital onde um lençol branco já cobre o corpo; é renascença, boticelli ao vivo, o reverso da teoria. Encontro é borboletas na barriga, mãos suadas, sorrisos envergonhados, mistérios a descobrir, indiana jones num ninho cobras, harry potter e o mapa dos segredos. Viver é alento, surpresa, desapontamento, admiração, amor à primeira vista, desapontamento à última, não te quero ver mais, como pude alguma vez?. É a constação dos factos.  São meias brancas em sapatos campor, é um telefono-te um dia destes e ala que se faz tarde; é saltos agulha e jóias em demasia, olhos escondidos na maquiagem, anéis e sorrisos perfeitos, quando se quer ir ver ursos de binóculos para as montanhas, então até depois, gostei do sushi in. Não é um estou aqui para o que for preciso. Aqui, onde? do lado de lá do ecrã as palavras de conforto não apanham lágrimas com as pontas dos dedos. Torço por ti, em vez de um torço-te aqui, de um pequeno-almoço sereno na pastelaria da esquina, um vagar vagarento. Viver é a química imediata, ou a diferida quando já lá vão uns copos a mais, ou não haver química nenhuma e então é  uma enchente que galga de novo a margem. É o degelo da palavra escrita, o silêncio que tudo diz, o que se ganha e o que se perde, ali na hora; não é um olá pela manhã nem um adeus pela noite, mas antes tudo o que existe de permeio: são as ruas, a chuva, as gargalhadas, os abraços que desfazem a aflição, como se a drenassem. É olhar nos olhos e resignarmo-nos à mágoa que deles se despega, embraçando-a, ou fugirmos dela como o diabo da cruz, a sete pés. Viver não é a net, os chats, os mails, as palavras feitas que por segundos nos comovem, os clichés, nem a rudeza crua para magoar, chatear, irritar, quem nunca vimos. Se alguma vez nos tivessemos zangado pregava-te um par de estalos, não te mandava educadamente para o caralho por escrito e à distância. Escrever é sempre tão educado, mesmo quando usamos calão, porque a intenção se perde nos caminhos enviesados que percorre até chegar ao destinatário. Falta-lhe a raiva física, as feições ferventes, os olhos arremelgados de fúria e aquele cheiro a enxofre que se desprende do que odeia e amofinha o que se pôs a jeito. Entre nós não houve vida. Houve dois leitores ávidos numa relação simbiótica, quase parasita, que acabou de tão vazia de pele. E assim continua cada um para seu lado, a arrastar bagagens e a forçar afectos a ver se nos aligeiram o fardo e quiçá nos permitam perder algumas malas pelo caminho. Malas que se abram e espalhem pesadelos pelo vento, como esqueletos saídos  do baú de um assassino em série: e as almas dos nossos mortos finalmente livres num bailario céu afora.

 

 

(in the mood for love)

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escrito por sofia vieira às 23:52

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30.10.12

Fui a bruxas, médiuns e feiticeiros; rezei ateia e descrente em igrejas e outros templos; avé marias e pais nossos, rogai por nós pecadores; acendi velas, espalhei incensos, soletrei mantras, tomei comprimidos, fui a médicos e a curandeiros; mudei de vida, de cidade, de país, de cor de cabelo e de canções favoritas. Evito a tua aldeia na linha do meu horizonte porque olho sempre para baixo, para a terra onde assenta o casario e onde te escondes cobarde, e não para cima, onde a paisagem urbana se define e o céu começa. Desfiz-me do carro, do apartamento, das roupas onde um dia te roçaste de amor e no fim despejaste o ódio. Esfreguei-te da pele até quase sangrar, desisti de saber as respostas que não me deixaste; arranjei outros, outras, gente perdida como eu, ouvintes forçados da tragédia que tentei em vão banalizar de tanto e tanto a contar, passa a palavra, passa a outro e não ao mesmo, espalha por aí, espalha brasas, espalhafato. Carrego esta culpa como um nado morto ao colo; não tenho onde a largar, despejar ou enterrar, não consigo separar-me dela, e o tempo - Ah, o tempo! - que não desfaz em pó este cordão umbilical. Estás comigo a toda a hora. Amoral, assexuado; nem feio nem bonito, nem bom e afável nem ávido e cruel; não te desejo nem me arrepias: estás, apenas. Segues-me para onde vou; não és sombra nem espectro, impressão ou sopro breve, mas carne viva num sorriso corpóreo, aflito. Não te julgo, não me faltas, não te afasto nem te agarro; serias uma excrescência suportável, não fora definires aquilo em que me tornei por dentro. És um átomo de dor, imortal e imbatível, és o toque subtil do tormento, o embalo desajeitado do choro, a saturação dos fins de dia, o sono inquieto das noites. És. Mas vou a bruxas e curandeiros, acendo velas e papo missas, mudo de vida e de homens, de roupas e de horizonte, para que um dia sejas Foste.

 

 Bleu

 

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escrito por sofia vieira às 16:42

the end of the affair

17.09.12

Não ligues para falar do tempo ou me actualizares sobre o teu estado, como o sítio onde te encontras ou de como estás atrasado. Não me digas que hoje não podes, que sais tarde a correr para casa, picar o ponto, ver o jogo, comer sopa e dormir. Desiste de encaixar os teus escassos minutos nos meus assoberbados dias, o rossio na rua da betesga, um camelo pelo buraco de uma agulha. Baixa os braços e rende-te. Sem chuviscos de promessas miudinhas, molha-tolos e passageiras. Não me ponhas a seguir a minha cauda, babando em círculos, mordiscando o ar, arfando frustrada; nem eu de gato-sapato, a boba da corte, o bombo da festa, cortesã, cortejada. Não me tomes por loura parva, aberta disponível, nem de pernas nem de conversa. Porque seria preciso mais, muito mais, do que os teus segundos contados, moleculares, quase só a expressão de um átomo, para tomar-te em definitivo o gosto, fazer-te vício, remédio santo, necessidade básica. E para então o cio, a autoridade competente na matéria, me dar ordens legítimas de cumprimento imediato.

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escrito por sofia vieira às 02:44

all that jazz

17.09.12

Este blogue foi apagado do blogspot por alguém que não gostou do que nele leu ou viu. Foi preciso tempo e paciência para o reconstruir, post a post. E memória selectiva para o reler e não doer muito: há feridas que saram devagar e outras que nunca fecham. Não repus as fotografias que ilustravam os posts porque dava imenso trabalho. Ao invés, dei-lhes como título os filmes respectivos, alterando alguns aqui e ali. O mail é outro (infelizmente perdi todas as mensagens - algumas inesquecíveis e comoventes - que me enviaram ao longo dos anos) e agora estamos a salvo - o mail, o blogue e eu - no SAPO, a quem agradeço o alojamento e a disponibilidade, em especial ao Pedro. Portanto, corações ao alto e sigamos para bingo que o Amor é sempre eterno enquanto dura, como dizia o Poeta. Bem-vindos a casa.

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escrito por sofia vieira às 01:22

the graduate

20.11.11

A primeira vez. Na areia fria da praia, à sombra de um barco de pescadores que dormia de borco sob o luar quente de Julho, um encosto velho e cansado com a tinta a descascar na quilha e um cheiro agudo a peixe seco que, no lirismo infantil do momento, confundimos com maresia. A humidade da sílica a abrasar-me as costas que, ora se arqueavam, ora se distendiam, como cordas de uma guitarra onde tocavas a tua música, feita de dós sustenidos por sobre o meu arfar sincopado. A mesma paixão histriónica vivida a ritmos diferentes, os nossos dois corpos a capella: tu, a começares e a acabares primeiro e eu, sozinha, empenhando-me nos vocalizos finais. Cedo nos afinaríamos as vozes da pele numa consonância perfeita, mas foi aí que comecei a perceber que o Amor é, por vezes, vivido em canon: ora um se adianta, ora o outro se atrasa, e que, como a música de câmara com os seus disparismos sonoros, também ele pode viver e alimentar-se daquela estranha sincronia que nasce dos desencontros que se sucedem.

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escrito por sofia vieira às 21:49

in a lonely place

11.02.11

O meu amor é esquisito. É uma máquina avariada, que dá rateres como válvulas entupidas ou artérias desaguizadas. Mais do que esquisito é esquisitóide, esquizofrénico, esquizóide. Tão depressa foge de ti como te encosta à parede. O meu amor nada tem de feliz: arranha, impede, deseduca; e quer coisas, muitas coisas: é novo-rico e deslumbrado, não lhe basta uma cabana. O meu amor não quer saber de sexo, do teu sexo, por vezes nem quer saber de nada: é desdenhoso e egoísta, sofre de dores só suas, dói-lhe tudo e coisa nenhuma. Quando te come e te engole inteiro, precisa digerir-te e giboiar pela cama, suar-te pelos poros, pelos intestinos. Não mergulha logo a seguir de novo em ti, que é dado a congestões e pode morrer. Aliás, o meu amor já morreu, acontece-lhe de vez em quando: segue o caminho da luz, para onde tudo é paz e depois ressuscita. Mas está sempre moribundo, enterrado no sofá coçado, precisado de um abanão, de se desbaldar pelo soalho quando estás longe. O meu amor é oportunista e pouco ou nada romântico: agride quando o acarinhas, faz-te refém e não negoceia, não pede aviões nem salvo-condutos, apenas te morde e não larga, a não ser quando te deita fora. O meu amor é feio e com dedos em forma de lâminas, vem e mata-te em sonhos, por isso não dormes; mas às vezes também cheira a prados verdes e enche-te de música no coração, pulsante de coros celestiais. O meu amor bebe os ares por ti quando estás e esquece-te quando vais embora, fica dormente e distraído, não te espera na volta mas quando voltas desperta e cresce num ápice, transgénico. O meu amor é esquisito.

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escrito por sofia vieira às 21:45

frida

11.12.10

Falas-me de amor platónico mas perguntas-me a que horas abrem as minhas pernas. E eu respondo-te que sou como aquele barbeiro de província que tinha um papel sebento no vidro a dizer que abria a horas indeterminadas. Ah! e ser feliz: pois, também me falas disso. Cada umas das criaturas nesta esplanada envelhece ao segundo, mais um vestígio de rugas, uma vontade de desistir. O tempo passa por todos menos por nós mas é preciso que nos fitemos para além do que aparentamos, furar a pele. Entretanto olhamos a alforreca que dispersa as tainhas, translúcida como os teus olhos, e achamos que ainda ontem estávamos por aqui, iguais, as minhas pernas platónicas, o teu andar gingão. O nosso passado está presente em nós porque é o nosso presente: temos direito a pouco mais, há muito que o comboio saiu da estação, embora na verdade às vezes ainda me pergunte se já chegou ao destino. Sei lá quanto de ti não se imagina a tentacular-me enquanto molho o pão no molho. Quanto de ti é resistir a não fazer ou não fazer por não quereres fazer, apenas. Decifro-te em mim e o que dizes é como meu, deve ser das encruzilhadas da idade: ambos sem rumo, somos aquela alforreca que foi parar ao lodo e que agora não sabe como sair do cais, presa no meio das tainhas, que são muitas e vorazes. Além disso ainda não decidi se isso do platónico é um elogio ou uma ofensa. Mas contradiz sem dúvida o interesse demonstrado no meu horário de abertura.

 

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escrito por sofia vieira às 21:43

on the edge of love

23.11.10

Escrevi-te. Apaguei. Voltei a escrever. Que preciso de estar contigo, ao teu lado por umas horas. Num dos textos pus "de mãos dadas". Achei ridículo, não combina nada connosco, só se fosse para um braço de ferro. Noutro, invoquei o teu silêncio e a parcimónia de palavras que tanto me exaspera como me agrada, bem como a falta de juízo, de juízo nenhum, na verdadeira acepção da palavra: as coisas são como são e tu nunca me julgas. Se dá, dá. Se não, boa noite e um queijo. Que não durávamos mais de um dia de cama e mesa, dizes tu. Tens razão e no entanto as mãos dadas, os olhos fechados e um silêncio mútuo que não julga e não cobra, que induz ao descanso como uma almofada, uma boa almofada de penas de ganso da mongólia, revestida a seda da pérsia e trazida em mãos por reluzentes escravos núbios. Um silêncio de luxo, egípcio, raríssimo entre duas criaturas de deus. Insisto na parvoíce, "Preciso de ti agora", mas sem te querer assustar, acrescento que não quero nada de sexo, nem sequer te toco. Se quiseres, nem as mãos dadas. Procuro em mim todas as palavras que possam significar exactamente o seu contrário para não me delatar e corro-me de fio a pavio, como um programa de computador, que vai rejeitando os sinónimos de tudo aquilo que não me é permitido dizer. Explico-te que não almejo qualquer traição mas sei que não me acreditas e que sabes que será sempre mais um ardil para te enfiar a mão na braguilha e ta desapertar enquanto te finges de morto, como um cão bem ensinado. Tens razão, como sempre. Vais esticar os braços pra trás , bocejar e fingir que não te interesso porque tens sono e uma vida algures, que te espera enquanto eu te empato. Escrevo mais um lugar-comum que apago de imediato, por vergonha. Não temo o efeito do calão nem da rudeza das palavras, mas envergonho-me dos lugares-comuns tipo só te quero como amigo ou prometo que vamos só conversar, oferece-me um café. Na verdade, detesto café e detesto essa pedinchice novelesca que soa a manipulação bacoca e carente: sei-te mais esperto do que isso e eu, bem melhor do que isso. Não te peço como amigo porque já o és. E os amigos conversam, mesmo quando estão calados na sua introspecção de ouro, a tal das penas de pavão vindas do tesouro de mitridates ou lá o que foi que eu disse. Então porque te chamo calada e indago por onde andas? Não que vá atrás de ti, nunca fui: sabes isso. Mas percorro todos os caminhos dentro da minha cabeça para chegar a ti. Só vou quando me chamas e é este o santo e senha entre nós. quando fazes parecer que sou eu que me ofereço, mas na verdade sou eu que te obrigo a escolher, a teres a última palavra. Porque é essa que importa, a última palavra: a que decide se vou ou fico. Se corro para ti apenas dentro de mim ou se corro para ti para que entres em mim, ainda que quase sempre num futuro adiado. Por isso não acredites quando digo que de ti só quero amizade. Um almoço numa tasca manhosa e eu a jurar por entre o prato do dia e o vinho a martelo que um dia te provarei o contrário: tu sabes bem o quê. Tendo sempre para as figuras tristes, quando me olhas de certo ângulo, mas penso que essa questão seria ultrapassável. Ainda bem que apaguei tudo, que nem um rascunho guardei do que acabei de escrever e que tu nunca lerás nada disto. Delete, delete, shut down and go to sleep.

 

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escrito por sofia vieira às 21:41

blade runner

13.09.10

Não se pode dizer que tenhas estado sempre perto, à mão de semear, ao virar da esquina, mas finalmente encontrei-te. Não que te procurasse: foste-me tão natural como o vizinho da porta ao lado quando se cruza comigo no corredor e pigarreia, medindo-me a barriga das pernas, trémulas de subir as escadas. Atravessámo-nos um no outro com a inevitabilidade de dois troncos à deriva e represámo-nos alegremente: o entulho ficou para trás. Não me salvaste a vida, que até estava bem obrigada, mas tens essa distinta qualidade de me saberes, o que te cai na perfeição, como uma camisa de marca ou um casaco novo. Não romanceamos o presente porque nós somos o presente: partilhamos uma cama, um cigarro, um futuro e temos o pragmatismo das causas ganhas, o que, parecendo que não, alivia. Somos velhos amigos, companheiros de guerra e brincamos muito, porque temos alguma pressa: enquanto equilibramos orgasmos na ponta do nariz, fazemos a toca e construímos o ninho. Mas o mal de tanta beleza junta é que nunca nos habituamos à ausência, esse buraco no peito, de rebordos cauterizados, onde cabe um punho fechado. E, agora, o teu cheiro agarrou-se às minhas coisas como uma película fina de pó e eu não quero a empregada cá em casa, não vá ela, sei lá, sempre tão pressurosa. A melhor maneira de afastar o diabo é ir brincando à felicidade dentro destas quatro paredes, quem está livre livre está. É um facto que tudo era bem mais fácil quando apenas te adivinhava; hoje, mal reconheço os cantos à casa e, quando partires, tenho a certeza de que mudarei de côr como um polvo acossado. Folgo em saber, no entanto, que não nos somos fundamentais: afinal, toda a gente vive sem um braço, só é chato para os trocos.

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escrito por sofia vieira às 22:59

the fisher king

13.09.10

Preciso de saber de ti, mais do que preciso de ti. Não aguento, sabes?, não saber por onde andas, o que te move, a quem te dás e por onde te deixas. Imagino que por vezes te movas bambo, trémulo, por entre o desgosto e a bulimia, por entre o jacto e a euforia, mas nem disso tenho a certeza: suponho-te, quase tanto quanto te amo. No dias ímpares, duvido-te. Sei que por aí já se sente o degelo e que a Primavera amolece os corpos e tinge de turquesa o mar, embora pressinta que não repares nisso, ocupado que estás em amesquinhar as coisas. Dói-me o corpo e estranho-me, como se eu cravada em mim; és uma transfusão do tipo errado de sangue, ou do tipo de sangue certo mas a circular pelo avesso: entras-me por artérias e sais-me por veias, pirateando-me as intenções e deixando-me num desnorte de náufrago, porém centrífugo: em deixando, vou rapidamente ao fundo e a pique. Há um travo cómico-trágico na desmesura com que não estamos, uma dimensão teatral que polui a realidade e exacerba a distância (de continentes afinal, apesar de tão poucos, os quilómetros). Ardo por ora numa combustão sem propósito, investindo o ressaibo húmido contra as almofadas de penas, empurrando com raiva o lençol para os fundilhos da cama. Há um rancor que me rói a pele e me estraga os planos, a cada vez que me lembro do limbo sulfuroso em que te moves, da insegurança pantanosa onde às vezes te afundas, e de como num ápice fazes tábua rasa de tudo o que ficou para trás, ainda ontem eramos felizes. Dá-me medo de que não mudes nunca, de que um dia sejas só frases de guerra e de que, ao invés, me mudes a mim cada vez mais. Enquanto isso eu aqui, líquida desfeita, a gerir a saudade e o rancor em partes iguais, expectante e mal-resolvida. Não aguento, sabes?, não saber por onde andas, trémulo bambo, mendigo eufórico, trágico inseguro, destruidor de mundos.

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escrito por sofia vieira às 21:40

the witches of eastwick

13.06.10

Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). É certo que andávamos a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio, como polvos assustados, mas foi ela e não tu, com as suas saias curtas, os trejeitos ordinários e aquelas raízes escuras que fogem ao descolorante barato, blonde claire número oito (que eu sei). Pois se até nem estávamos mal, tu à larga na cama vazia, eu à vontade no sofá da sala; pois se até te sentias mais livre, instalado no meu desinteresse pelas tuas passeatas tardias; e se eu, aliviada, por já nem dares pela gula do Carlos debruçada no meu decote quando cá vinha ver a bola. Foi ela, que te tirou do sério e te virou do avesso, que quase renegas os teus filhos. Tu que nunca lhes faltaste com nada, embora de dia fosse o trabalho e à noite, o computador; embora aos sábados de manhã, o ginásio, à tarde, os beberetes, e aos domingos, o futebol. E agora, o tribunal, os descontos no vencimento, a nossa casa em nome dela, que eu sei (foi ela). Que te viciou no seu sexo tépido perfumado de temperos exóticos, coitado, que não tens culpa, do prazer a que ela te obriga, do gozo que à força te impõe. Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.

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escrito por sofia vieira às 22:08

phone call from a stranger

10.06.10

Ligas-me, e eu não acredito, deve ser engano, as linhas que se trocaram, o teu dedo que escorregou para o meu contacto já esquecido. Ligas-me, e eu penso que não, que não vou atender, que devo estar a ver mal, que só podes estar a brincar, que é primeiro de abril, dia das bruxas, a sentir-me tola, idiota paralisada, emparedada no tom de toque, à espera que desistas, que percebas o erro e que o telefone se cale. Ligas-me, e eu a olhar para o nada, pasmada, transida, está nos apanhados. Ligas-me, e eu a cismar no que poderás crer: um livro teu que ficou na estante, um cedê enfiado na aparelhagem da sala, umas calças perdidas no cesto da roupa, um relógio escondido na gaveta da cómoda (uns beijos teus no meu corpo, guardados, esquecidos, vestidos de pó), uma assinatura necessária num papel oficial. Ligas-me, dever-te-ei dinheiro?, dever-me-ás desculpas?; se calhar vais casar, ter um filho (vais ter gémeos); quem sabe um acidente, alguém que morreu, um escândalo, uma revolução, um cataclismo atómico à escala mundial. Ligas-me, e eu a pensar que apostaste com um amigo que eu atenderia logo, que assim empatas o tédio, que sorris com maldade para outra, deitada ao teu lado, enquanto enches o peito fútil à espera que eu atenda e fale, a parva, vais ver. Ligas-me, e eu por segundos imagino a conversa e treino a compostura, recolho um soluço que me empata o ar, carrego um canino sobre o lábio inferior, quase sangro nem noto, e fecho a boca para que por ela não me saia, disparado, o coração aflito. Ligas-me, e eu não atendo, poupo-te ao embaraço e ao inferno das explicações, aos olás de circunstância, deixo que toques e toques e que vás por fim parar às mensagens. Ligas-me, e eu espero, desejo e espero, que despejes para um gravador o teu erro, o teu tédio, o teu gozo, os pedidos, as desculpas, as incríveis novidades do mundo ou, quem sabe, a precisão dos beijos empoeirados que esqueceste e deixaste em mim.

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escrito por sofia vieira às 22:09

lost in translation

10.06.10

Sabes que é só quereres. Que, entre os silêncios e as palavras meias, basta uma destas, calibrada para a rendição e o assentimento. Que é mais do que suficiente, o exagerares o riso ou o alargares o passo na minha direcção. Uma carta à maneira antiga com um selo empertigado; um telefonema, uma mensagem abreviada em que os polegares se te fugiram e foste longe de mais. Sabes que me chega e sobra, um abraço que evites apertado ou um beijo na cara a resvalar para a boca, embalando-me os sentidos atentos com promessas cumpríveis. É só quereres, e eu caio-te nos braços com amplitude teatral, deixando que me dissolvas a pele com a língua e que a tua vontade impere por fim em mim numa fúria totalitária, mas doce. Sabes que uma palavra, apenas, me serve, ainda que desgarrada, truncada, encriptada e incorrecta; ou mesmo fugitiva e vagabunda, solta num grito de alforria. Espero um dia ser um alegre capricho teu e o objecto da tua preferência irresponsável, sujeita a critérios desmedidos. O meu desejo é circular e redundante: acaba sempre por voltar a casa e tem saudades, como um soldado ferido. É só quereres, e deixarei que me confundas com o rebentar das ondas e que contabilizes e anotes, com astúcia de merceeiro e intuitos de salva-vidas, os rodopios do meu corpo em despejo sobre o teu. Eu, vinda e ida na sétima, às vezes na quadragésima, encharcando-te, desprevenido. É só quereres (sabes). E eu quero que tu o queiras (sabê-lo-ás?).

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escrito por sofia vieira às 20:48

legends of the fall

25.05.10

Fica sabendo que não tenho medo. Que não tenho pudor nem moral e que não é a religião que me salva. Mais do que agnóstica, sou ateia, pernóstica, sou copérnica: circundo-te heliocêntrica, e que se lixem os outros. As outras. A outra. Aquela com quem estás agora. Doemos o seu corpo à ciência, abandonemo-la à sua sorte. Sou imatura e irresponsável, não vou à missa, mostro as pernas (abro-te as pernas) e faço beicinho para que sejas meu. Para de ti dispôr como quiser, vens ou ficas, vais ou vens-te. Mortifica-te, estás à vontade, o remorso a jorrar de ti madrugada fora, porque o que é teu está irremediavelmente em mim e se calhar vice-versa, nem mil duches te salvam, nem esfregado a pedra pomes, a pele numa chaga viva. Fica sabendo que não hesito; que espezinho e que comando; que faço fitas e abandono, e que não sou de fiar. És-me tão difícil quanto inesperado; és a incoerência, a incongruência, a vida vista de baixo para cima. És o dueto entre a raiva e a meiguice, entre o medo que tens do medo e a investida cega do herói solitário. Às vezes de noite quando finjo que sossego, amo-te. Também te amo em certos momentos do dia e chega a haver alturas em que te adoro, isso nos intervalos em que te esqueço. Quero apoderar-me de ti e falar com esse sotaque que enfiarás sem querer na minha boca, empurrando-o com a tua língua. Terás um dilema moral por resolver, que coisa despir-lhe primeiro?, e eu o diabo no corpo, toma lá que é para aprenderes. Quero-te perto, nas imediações, não me interessa se agora não dá, faz a trouxa e vem de malas aviadas que a estada pode prolongar-se. Sou egoísta, esporádica, imódica, e às vezes até asmática. Falta-me o ar quando me ignoras, arremelgo os olhos e arquejo, não tenho culpa, é uma doença, uma condição que me definha, tragam-me a bomba por favor. Morro se me viras as costas, vou deixar de respirar, aviso-te.

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escrito por sofia vieira às 21:11

the proposal

23.01.10

Gosto muito de muito em ti: que não saibas onde se guardam as coisas, que finjas saber a resposta quando te pergunto se o azul se o verde; gosto da abrasão gentil da tua barba e do modo como sorves o cigarro e soltas o fumo de lado, para que não me acerte na cara. De dizer o teu nome em voz alta. Gosto. De quando me telefonas e me cantas um sucesso gasto do cançonetismo pimba, concentrado nas doze cordas, a esfumaçares saudades em espiral pelo canto da boca. Gosto da meiguice desmedida, desse jorro de ternura que não me dá tréguas, e que todos os teus poros façam por me agradar, embora me agrades tanto com tão pouco esforço, naturalmente, assim como se respirasses. Gosto das toalhas molhadas que te esqueces de pôr a secar, do botão do forno que afinal não ligaste, da carne que só está pronta no dia seguinte; e que me descubras a um domingo uma garrafa de licor de café, quando o corso na rua, com as crianças geladas de frio nas suas asinhas douradas, escudadas por matrafonas gordas, tanto me aperta o coração como me mata de riso. Gosto de quando te perdes na linguagem crua do prazer e dizes que me fazes e me aconteces e que eu isto e aquilo, enquanto as tuas mãos substituem algures em ti a minha boca; e gosto da voz grossa e arrastada, desse elã melancólico feito de poesia, uisqui velho, infância feliz e sons da rádio. Da canção de intervenção sempre na ponta da língua, dos ideais socialistas que fraquejam na incongruência do sotaque beto, e do elitismo bairrista que por vezes te sacaneia as convicções de esquerda. Gosto que não precises de olhar pra trás quando passa uma mulher bonita, que nunca me largues da mão quando andamos na rua e que me agarres e me puxes quando um carro se aproxima da berma. Gosto da coragem com que entraste na minha vida, da inconsciência juvenil com que abriste caminho em mim e do espírito de aventura com que me desbravaste tristeza fora; e gosto dessa insegurança tão masculina de quem que não tem a veleidade sequer de sondar a parafernália esquizóide que são os mistérios femininos. Gosto de te ser muitas coisas: a tua deusa, o teu dormir, a tua dona, o teu pleito; um aviso pela manhã, um rebate de consciência, um aperto no coração, um consolo, um eco, pontas soltas, arritmias, formigueiro. E gosto dessa tesão a desoras, quando me adivinhas de costas no escuro (o meu corpo desprevenido enquanto o resto à solta, em sonhos indecifráveis).

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escrito por sofia vieira às 21:36

it´s a wonderful life

21.01.10

Parvos, andamos parvos (já ninguém nos aguenta). Esfregamos a felicidade na cara dos outros, esborratamo-los de impaciência, piedade e escárnio. Ele é meu querido para aqui meu amor pracoli e todos à nossa volta esbracejam e se afogam neste mar delicodoce, como se uma novela brasileira em que elas são fáceis e dengosas, ou como se um casalinho da Rinchoa que se abraça aos solavancos na carruagem da linha de Sintra, ela pra mais um dia de nariz enfiado nos calos das doutoras e ele, sem ocupação definida, mas acompanhando-a com esmero à porta do cabeleireiro, onde por fim e a custo a desenlaça. Amor, meu amor, bebé, minha princesa, e as pessoas à volta riem baixinho, que falta de senso, de decoro, a bem dizer já não são miúdos, pais de filhos ainda por cima, e nós aos beijos, melosos, molhados, babados, as línguas expostas que se enroscam desabridas, temos pena se têm nojo, se sentem inveja ou pudor (já ninguém nos atura). Alegres e amantíssimos, lastramos o carnaval pelos lugares por onde passamos e desfiamos um ror de carinho imenso, nas ruas, nos restaurantes, na cama, estarrecidos, aparvalhados com isto que nos aconteceu, quem sou eu que já não sou eu? Para onde foi o que me amargava os dias, já agora deixa-me ver se se esconde entre as tuas pernas ou no fim das tuas costas. Somos sem os demais e sem-vergonha, ignoramos quem nos interpela e fitamo-nos aparvalhados, desconfiados e à espreita: o que me dizem hoje os teus olhos que ontem não me disseram? (já ninguém pode connosco). Andamos de mãos dadas, prerrogativa de crianças e velhos, com dedos que se esfregam e apertam, não vá a gente perder-se, afastados por meio metro. Ou então abraçados, agarrados como lapas, tu a cobrires-me com os braços, os ombros, contigo todo, como se a monção estivesse pra vir e me fosse levar, para lá do pontão, para além do mar. Fazemos um grupinho à parte, desdizendo-os e mal-dizendo-os, a minha mão em concha na tua orelha e a minha boca escondida, que tanto te lambe o after-shave como arrasa as personalidades presentes, aquela ali é mesmo parva, não é? e aquele? um imbecil! (já ninguém nos suporta). Enjoativos e incómodos, num deleite infantil, respondemos torto e a más horas e achamo-nos o máximo, ancorando-nos na protecção do outro. Somos bons, somos os melhores, e estamos plenamente concentrados na arrogância superlativa e deselegante do Amor Respiramos um outro oxigénio, digerimos de maneira diferente, os nossos ossos têm diversa composição, a nossa pele desenvolve uma textura única e os nossos cabelos fomentam toques subversivos, revolucionários, invisíveis ao olho humano. O mundo é o nosso recreio (já ninguém nos convida para as festas).

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escrito por sofia vieira às 21:33

el lado oscuro del corazón

14.01.10

Preciso que estejas aqui e me salves dos fantasmas que atacam em bando aos primeiros alvores do dia. Espanta-os. Redime-me de alguma forma, como se me absolvesses em confissão, ou como um pai que perdoasse os desmandos do filho pródigo. Eu não sou só eu: sou também isto, este excesso de bagagem que dá multa, os gritos que não ouves quando falo muito, quando falo demais, com o intuito nervoso de espantar o bando de corvos que me cerca e me enegrece em voos rasantes de agoiro. Tenho sempre medo a esta hora da madrugada: sinto-me fraca, na vazante, no soçobro, um fio de gente, um engano cósmico qualquer. Os primeiros autocarros aceleram pela rua ainda vazia, esforçando os motores barulhentos, a televisão repete séries e concursos requentados e há uma preocupação indefinida que paira no ar, como quando tememos que um filho adoeça por ouvirmo-lo tossir no quarto. Já a culpa, essa, é uma luz acesa no meio da sala, que me incandesce e me cega. Há coisas que não te contei só porque não as quiseste saber, mas isto, ao menos, regista para memória futura: quando não estamos juntos, forças adversas aproveitam o eu estar sozinha para me acoitarem à covardia, no silêncio do dia que nasce, indiferente. Vêm lestas, como os autocarros na rua, e eu sou a sua última paragem.

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escrito por sofia vieira às 21:30

when a man loves a woman

11.01.10

Como é que se escreve a felicidade? Como é que digo sobre as minhas pernas enrodilhadas nas tuas, os meus dedos agentes inflitrados nos teus cabelos, a tua língua a pintar-me a boca a traços grossos? Para quê?, partilhar aqui que a minha pele se ri ao teu toque quente, como se estivesses sempre com febre, sentes-te bem? Quem quer saber?, do meu corpo armadilhado nos teus braços e dos meus olhos, que rebolam pelo quarto sem saberem para que parede devo atirar e deixar explodir o gozo, que não me cabe mais cá dentro. Como é que descrevo?, a impossibilidade teórica desta prática feroz de aprendizes, e as probabilidades disto tudo, que eram de um milhão para um, e que constavam do meu mapa astral, feito por uma colega de trabalho, da página dos signos na revista cor-de-rosa, que me aconselhava a ficar em casa, ou das previsões da dona são, a empregada doméstica que das duas às seis me agoirava o futuro, olhando de soslaio as minhas olheiras pisadas e achando, coitada, que eu já não tinha remédio. Como é que transmito?, que me apetece recato e cama, mãos agarradas e vozes baixas, por favor não me apertes tanto!, que a verdade é raquidiana e não apenas um acessório, e que escrevo melhor quando dói, desculpem-me a pobreza da sintaxe e a vontade de me ir embora, mas não posso fazer nada. Sim, como explicar?, que foste sorte, acaso, tiro às cegas, pim pam pum, a álea da vida em todo o seu esplendor, a desdenhar das incompatibilidades cósmicas, dos conselhos de dinheiro, amor e saúde aos nativos de cancer, das minhas olheiras mastigadas e do agoiro triste da dona são, que sabia tanto da vida mas nada do amor, a não ser do amor pelos filhos e por isso das duas às seis, a passar a roupa e a olhar-me com pena, as pernas negras garroteadas e as tonturas da diabetes. Como explicar?, que as coisas são simples, afinal, e que a dor não passa de um caminho de sentido obrigatório que não dá para atalhar, até um dia chegarmos a quem nos espera desde sempre?

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escrito por sofia vieira às 21:25

love actually

26.12.09

As passas engelhadas no côncavo da minha mão, e todos os desejos se concentram na tua ausência, tridimensional e luminosa como um cristo dos chineses. Percebo o chocalho alegre dos que mais amo, alheia, enquanto tu me acotovelas o coração, ultrapassando-os à má fila e sem vergonha, um esfomeado na fila para o pão. Amontôo os frutos secos num recanto vago da boca, do qual afasto a língua, levemente enjoada. O primeiro desejo é o de que baixes a guarda, para que eu te faça meu prisioneiro de guerra, após o que te obrigarei a derrubares todas as pontes entre nós, como naquele filme do assobio. O outro, o terceiro ou quarto, nem sei (como se não fossem todos o mesmo) é o de que não me esqueças, não me esqueças, e também, sim, pois claro, que eu tenha muita saúde e boa forma, para te amar num corrupio atlético noite dentro, quando o momento chegar. E dinheiro, também, para comprar rejuvenescimentos, penteados, sapatos que me ponham alta e roupa reduzida que te fará derrapar quando travares a fundo nos meus decotes (porque há sempre uma esquina onde nos poderemos cruzar, quem sabe, sexto, sétimo desejo). Com uma bochecha de esquilo guloso, esgotados os abraços, o recanto da boca, o delírio e o espumante no copo, fecho os olhos e peço noção, meu deus!, um bocadinho de noção do decoro, de bom-senso, do real. Porque esta estranheza que sinto por ti me tornou fútil, levitante, vácua e inconsequente. Previsível. E sem um outro objectivo que não o de chamar a tua atenção onde calha: aqui, ali; esperando-te à saída do trabalho, domando a boca para que não se me abra sobre as tuas rugas cansadas; ou rasando de manhã a casa onde vives, como uma gaivota fugida ao mau tempo; ou então fotossintética, alimentando-me do fio de luz que escorre pela frincha da janela do teu quarto, por onde te vigio com o desvelo das noivas nuas na cama.

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escrito por sofia vieira às 20:45

cold mountain

25.12.09

É Natal, e tu não estás. Dos cânticos que ecoam pelas ruas engalanadas, desprende-se uma melancolia que me embala e aconchega os passos. Aperto melhor o cachecol e agasalho-te contra mim. Rasando as montras, imagino os presentes que te compraria se aqui estivesses: esta caneta, para que assinasses o sim, quero, ou aquele relógio, para que nunca te atrasasses quando viesses ao meu encontro. Entro numa papelaria e pego num cartão de boas festas, daqueles pirosos e estridentes, com azevinhos garridos e os votos escritos em relevo, numa letra encaracolada de copista, fina e pretensiosa. Imagino-me a desejar-te mundos e fundos e tu, a afugentares o fantasma dos natais futuros com um sorriso de agraciado, quando o lesses. Prevejo como, de seguida, me agarrarias a nuca e a cintura por detrás, debruçando-me sobre o tampo por estrear da mesa marmoreada, levantando-me o avental e baixando tudo o resto. E de como o açúcar ao lume se agarraria para sempre às paredes do tacho, inutilizando-o, as minhas mãos espalmando-se de gozo contra o azulejo recém-colocado, o ainda cheiro a betume nas nossas narinas coladas. Uma falha na calçada faz-me frente súbita e um velho de trinta anos, sem dentes nem alma à vista, espreita-me de relance o voo, absorto na contagem de algumas moedas pretas. Componho os ossos em sobressalto e largo-lhe na mão suja o troco do cartão piroso, que inclui um envelope de fímbria dourada, olha que sorte. Do outro lado da cidade, na cozinha renovada, repousam silenciosos os utensílios do Amor. É Natal, e tu não estás.

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escrito por sofia vieira às 20:47

othello

25.10.09

Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho), queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção que distribuis pelos outros em rateio ao longo do dia. Tenho ciúmes da mulher com que te cruzas na rua pela manhã, que passa apressada e sombria sem te atentar no perfume. Tenho ciúmes da vizinha que partilha contigo o metro quadrado do elevador, respirando ambos o mesmo ar; da tua secretária, que chega por trás e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha, para te mostrar um documento qualquer; e da empregada do restaurante, que recebe o teu pedido, sugerindo-te as especialidades do dia, e a quem sorris alheio enquanto encomendas o melhor vinho da lista para impressionares quem se senta ao teu lado. Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado e usufrui de toda a tua atenção; e da loura que vai no trânsito, a quem dás prioridade e deixas passar à frente com um aceno de cabeça e um olhar de raspão, desfocado mas atrevido. Tenho ciúmes da rapariga da bomba onde enches o depósito, a quem pedes um maço de cigarros e por quem aguardas enquanto conta os trocos com dificuldade; da hospedeira que te serve o bloody mary mal o avião levanta vôo, e das que olham para ti na rua e te prescrutam o dedo anelar, tentando perceber se és casado, se estás disponível ou se ambas as coisas. Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar de rompante num bar e te beijam na boca como se fosses delas (e por momentos até és), te arrastam para um quarto, te viram do avesso e te deixam; das vendedeiras da praça que te tratam por menino com impudência desabrida; e da doutora da farmácia onde avias as receitas, do tempo que demoras ao balcão, fazendo conversa, conferindo dosagens, pedindo recibos. Tenho ciúmes da velhota da pastelaria que te conhece há anos e que te tremelica uns bons dias com familiaridade deslocada; e da advogada canina com quem te reunes amiúde, convencido de que a Lei te vai resolver toda essa vida sem mim. Tenho ciúmes da tua mulher, da indiferença que lhe votas quando chegas a casa, das conversas geladas sobre domesticidades (qualquer coisa me servia agora); e tenho ciúmes da tua empregada, que espaneja e arruma os restos de ti que sobram pela casa quando não estás, recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros e essa tristeza que deixas depositados nos cantos. Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho).

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escrito por sofia vieira às 21:20

fatal attraction

25.10.09

Faço-te uma espera, juro, um dia destes. Apanho-te desprevenido, ao saíres de casa, ao chegares ao trabalho, no momento em que soltas a mão das crianças para que entrem na escola ou no exacto instântaneo em que largas um beijo frio no perfil seráfico da tua mulher. Sim eu estarei lá, de tocaia, escondida atrás de uma peça gasta de mobiliário urbano, camuflada e a confundir-me com a paisagem adjacente. Pânico. Estarei em pânico, doente, a finar-me, a passar-me, mortalmente envergonhada, desenquadrada do ambiente, sem saber se vá se fique, se te confronte e te aprisione de imediato o olhar ou se te apareça por trás, desavisada e sorridente. Juro, um dia destes, faço-te uma espera. De manhã ou de tarde, vestir-me-ei a rigor, para a noite e o pecado como uma puta esmerada, o melhor vestido e o melhor perfume, botas altas, o costume, armada em boa, toda eu rimel e confiança, fé não que não é preciso, a bater os saltos na calçada e a furar com determinação a brisa cerúlea que me emplastra o passo. Bloqueio-te a passagem, frustro-te a fuga e bombardeio-te com a evidência de estar para sempre no teu caminho, empecilhando-te o tédio e alterando inesperadamente a química do teu organismo. A princípio, fingirás que não me conheces, sim, que não me conheces, e eu rir-me-ei na tua cara porque ainda assim vais tentar fintar o destino (o que fazes sempre, excepto quando te perdes dentro de ti e me devoras inteira, cedendo à fome e ao instinto). Um dia destes, juro. Não imagino o que te direi, não cheguei a essa parte, pouco interessa aliás; não tens de me sustentar o olhar, de me cumprimentar ou retorquir, podes até fechar os olhos e fingir que não estou ali, remetendo-me para a lembrança que tens das fotografias. Fecha os olhos, isso, fecha os olhos (vou deixar-te fechar os olhos, como fazem as crianças quando o pensamento lhes foge). Não careço de que me vejas, o meu fito é unilateral, o meu interesse é científico: só preciso de descobrir a que temperatura ferves.

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escrito por sofia vieira às 21:14

autumn sonata

03.10.09

É Outono e afinal tu não estás (mentiste-me). E eu fujo da felicidade dos outros como o diabo da cruz. Casais passeiam-se pelas ruas, enroscam-se nos sofás a ver filmes alugados, tocam-se os dedos dos pés nas suas camas mornas. Mulheres completas pespegam a intimidade online para que os outros a saibam, os mimos trocados e as viagens feitas, num desfio de memórias que passam a ser do universo inteiro. Todos me parecem contentes, satisfeitos com as caras-metade, os rebentos, as compras, os fins-de-semana; e eu roída de uma inveja soturna e febril, a querer rever-me a cada confissão pirosa, a cada vulgar escapadela. É Outono e tu não estás. Serás porventura uma dessas pessoas, mais feliz do que eu, devidamente acompanhada, a cumprir um destino comum, a partilhar uma manta à lareira, a receber um beijo ensonado a meio da noite, um abraço dolente ou uma mão entalada e esquecida entre as pernas. Uma dessas, que alardeiam a sorte que têm, abençoadas, que sonham sem pesadelos, que choram pouco ou quase nada, cujas refeições são sempre gourmet, cujas férias são sempre à beira-mar, que se vêm sempre que fodidas. Devidamente curado e cicatrizado, as feridas lambidas à exaustão, terás renascido, reavivado chamas cúmplices e despertado para o altruísmo do amor. É Outono. E nada daquilo que imaginei um dia aconteceu entretanto. As noites continuam enormes e os dias, imperfeitos como um poema inacabado, e só o frio me poderá agora consolar ao me dar um motivo válido para a recolha entre paredes e o excesso de música antiga. Vou ao arrepio dos humores da cidade volátil e egoísta, esta cidade que me fere com o cheiro doce das castanhas e me enterra no corpo a vontade afiada de polegares farruscados de cinza e de letras de jornal. É Outono e afinal tu não estás (mentiste-me).

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escrito por sofia vieira às 21:21

casablanca

27.09.09

No fundo, tenho medo. Medo de te voltar a ver. Medo de que as minhas mãos voltem a ser mãos outra vez e disparem dos pulsos para te despentear o cabelo e apertar-te os nós dos dedos, entalando-te as falanges como se fosses criança a quem cuidasse de atravessar a rua. Medo de que o meu corpo se lembre da fome que te teve e se queixe ruidosamente, como um estômago vazio; de que me dês água na boca e que de deserto árido passes a fonte de trevas com neptunos sumptuosos e fundos forrados a desejos. Medo de pensar que não te vejo desde ontem e de por isso não te rever, saudosa, antes achando que nunca nos fomos e que ainda nos damos as mãos, algures por Paris. Medo de, afinal, te ter esquecido em vão e de que nos encontremos de novo a meio de inocuidades gentis, amorosamente gentis; e de que tenhamos, inesperadamente, muito cuidado com os gestos, como se contornássemos vidros partidos ou fios descarnados. Medo de dar com os teus olhos e de neles mergulhar de cabeça, de engolir pirulitos, nadar-te e por ti ficar, num boiar infinito. No fundo, tenho medo de que a mera possibilidade da tua presença me diminua a graça dos dias. Por isso me quedo.

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escrito por sofia vieira às 22:57

coming home

19.09.09

Queria dar-te colo, embalar-te no meu regaço e dizer-te baixinho que tudo está bem quando acaba bem. Queria adormecer essa tua inquietação, dar conta de todos os teus medos, decepar a loucura que desliza dentro de ti como uma enguia sem tino, com tamanha violência que quando sibila se ouve cá fora em redor, escoando-se pelos orifícios da tua pele. Queria garantir-te que, comigo por perto, nada ninguém nunca poderá fazer-te mal, que podes fechar os olhos, descontrair os músculos, deitar para o lixo todos os químicos que agora te permitem a posição vertical e fingires para os outros que és tu. Queria dizer-te que sei que estás algures dentro de ti e que esse invólucro que apresentas é apenas uma pele seca que mais cedo ou mais tarde largarás pelo caminho, quando me souberes lá à frente à tua esfera. Queria que percebesses que há entre nós um laço, mais do que um laço, um nó górdio, um amor complexo e irremediável, cheio de voltas e contravoltas, que ninguém poderá cortar com a sua espada, mesmo que especialmente desembainhada para o efeito. Sei que hoje nada sentes, ocupado que estás com a aritmética simples da sobrevivência, que estas palavras pouco te dizem, que tudo te parece um pesadelo e que não acreditas em mim no fim da linha. Mas um dia olharemos para trás e leremos os dois este texto premonitório, palavra por palavra, promessa por promessa, juro. E será exactamente como te disse, os dois rodeados de crianças e de bichos e de pólenes de primavera que o vento nos trará em contornando as montanhas. E então serás tu a embalar-me com o cinzento dos teus olhos e a tapares-me com o cobertor até cima, afugentando os meus fantasmas com a mão como se fossem apenas insectos incómodos e não esta bola de fogo que me empecilha a garganta e me faz acordar a meio da noite, a vomitar pela cama o medo de te perder para sempre na espuma dos terrores que inventas para ti mesmo.

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escrito por sofia vieira às 21:04

breakfast at tiffany´s

16.09.09

Iluminas-me. Emana de ti um calor que me cose o frio na barriga, quando te vejo ao longe e me rasgas o sorriso com uma precisão de bisturi. Então, refinam-se-me os sentidos e fico acutilante e desperta, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais, pelo brilho azulado da passadeira pintada de fresco, pelo vento aprisionado no redondo da praça e até por um milhafre perdido, que se debruça nas nuvens a tentar decifrar as copas nuas das árvores, os pespontos nos passeios, os fechos de correr das ruas. E o dia corre melhor. Gosto de te ter assim, como um sorvo rápido no intervalo dos dias ou a cigarrilha que te desaparece na boca enquanto me ouves ou finges: cabes-me na exacta medida desses poucos esplêndidos minutos. E gosto do à-vontade com que vês a minha vergonha dissolver-se lentamente no teu café. És promessa de escrita e o voo assarapantado das palavras dentro de mim, e só por isso valerias a pena. Às vezes, quando quase te pediria que ficasses, apetece-me guiar-te como se uma estrada secundária num princípio de Primavera e percorrer devagar as curvas do teu nariz que nunca cresceu. Há em ti um arremedo de tristeza que aposto se manifesta no escuro quando mais ninguém vê e que acrescenta em mim a vontade de te fazer festas e de te segredar intolerâncias ao ouvido, antes que descruzes as pernas, dobres o jornal e vás à tua vida. Iluminas, rasgas, aqueces, refinas, prometes, dissolves: um degrau lavado, uma lista branca, uma praça fechada sobre nós, a rapina de um bater de asas, uns minutos delicados, um passeio pelo teu corpo enquanto me mexes com a colher contra as paredes da tua chávena. E o dia corre melhor.

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escrito por sofia vieira às 20:40

l'invention de l'amour

21.08.09

Sigo o teu nome por estradas velhas, persigo-te assim, por caminhos antigos e traiçoeiros, saltando-te pedra a pedra, a querer aparecer-te à porta, ao portão, a esperar-te escondida com o azedume do assédio a fervilhar dentro de mim. Quero agarrar-te a cara com as mãos, à tua saída, e fixar-te as feições espantadas, o olhar surpreso, o maxilar rígido e desconfiado. Sigo-te à tua morada, entreteço em mim tudo o que de ti sei, corro atrás de ti com a curiosidade de uma criança com o seu franzir de sobrolho, indagante, sempre a virar as esquinas atrás de balões e de seres etéreos. Guardo de ti tão pouco: um amor que não conheço arrastado pelo chão da minha casa, sabedorias incompletas e uma ternura brevemente derramada numa madrugada qualquer, soprada como um segredo. Sinto-te, que queres?, como se me respirasses aqui e agora para o ouvido e isto são coisas que a ciência não explica. Mas sigo-te sem fé, aos ressaltos e renitente, como esse gaguejo subtil que te trai quando te preparas para me dizer a verdade e que eu ao princípio confundia com um defeito da ligação, que parecia prolongar-te as sílabas no ar. Tens qualquer coisa de sino de igreja que avisa, que insiste e não perdoa, mas que ao mesmo tempo redime. E uma violência feroz que às vezes te escorrega pelas palavras, sem dares conta, porque o que mais queres é ser meigo. E eu, olha, eu a dar o teu nome a este documento de texto e a pôr em baixo a tua fotografia, se a tivesse. E então ninguém te poderia confundir com um filme, com um argumento inventado por outros. Tu és um caminho; um caminho por onde vago à toa, acossada pela posse e pelo vazio, sem final feliz à espreita. Mas também és uma espécie de verdade, uma verdade não comprovada que me rasa a pele e me amarga os sonhos, e por isso hoje não finjo que esta estória não nos pertence.

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escrito por sofia vieira às 20:59

edward scissors hands

13.08.09

O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo. A tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. Encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. E cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. Acima de tudo, enterneces-me. E é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê.

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escrito por sofia vieira às 22:51

the crying game

05.08.09

Pensei, sinceramente pensei, que fosses tu. Que os teus tolos desmandos aniquilassem a inconsciente superficialidade dos meus; que a tua loucura subjugasse a minha e eu conseguisse por fim dormir à noite com a cabeça no teu colo, ou num colo qualquer, desde que num arremedo de paz. Pensei que fosses tu, o princípe encantado por mim, prestes a enfrentar os meus dragões, que entrasse de espada em punho pelas masmorras onde me escondo e definho, desde sempre à tua espera, (sei-o agora, perante a inevitabilidade dos teus olhos em fogo, doentes de determinação). Que me resgatasses do cansaço que é não pertencer a lado nenhum. Pensei-te por momentos uma espécie de lar, um porto de abrigo, o regresso, a volta a casa. Que apenas me olhasses e que exigisses perante os teus pares amares-me contra todas as expectativas, todos os mapas astrais e as cartas do tarot que adivinham tragédias. Pensei que chegasses, que não perdesses tempo com rodeios nem mal entendidos e que nos mareássemos no rodopio inebriante da descoberta do amor: aquele amor salvífico que nos devolve o fogo de artifício e que nos abre os poros. Por momentos foste tu, a passar no crivo solitário das minhas noites e senti medo, frio na barriga e as pernas bambas; porque eu a saber-te lobo a quereres-me comer e a temperar-me a jeito para te saber melhor. Mas não foste mais do que a promessa de uma promessa, o beijo que não me queimou a boca, as mãos que não me empurraram contra a parede; foste só uma voz do outro lado da cidade, do mundo, que se atabalhoava na linguagem confusa e desconfortável que o amor às vezes escolhe para nos comunicar que não pode ser, que temos pena mas não é chegado o momento e que, como nas escondidas da nossa infância e quando quem está no coito chega lá primeiro, ninguém salva ninguém. Por momentos pensei, mas na verdade, ninguém salva ninguém .

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escrito por sofia vieira às 20:57

damage

25.07.09

Eu chegava primeiro como de costume e achava graça, ao modo apressado como entravas sem me olhares a direito, pousavas a mochila no chão e remexias no seu interior, como um vendedor porta-a-porta com urgência em me impingir um aspirador mágico ou um evangelizador imberbe prestes a sacar da bíblia para me tentar convertar. Era neste momento que eu gozava o meu poder, o poder de te atrair para ali e de te fazer esquecer o resto; o poder que sabia que perderia assim que me pusesses as mãos em cima. Olhava-te de pé encostada à parede, a esconder o nervoso na bainha do vestido que ia alisando com os dedos, de casaco posto, se preciso fosse de cachecol ainda ferozmente enrolado ao pescoço. Queria que passasses por todas as etapas do acto de me despires e que cada peça de roupa fosse um degrau a mais na escalada ignominiosa da traição que estavas prestes a cometer. Mas tu nunca fazias nada como eu queria: levantavas-me o vestido, enfiavas-me a mão sem cerimónia, avaliavas-me a humidade, viravas-me de costas, punhas-me de quatro e depois de um rápido vai-vem só para aquecer, deitavas-te de costas na cama à espera que eu fizesse o resto, designadamente, que me livrasse da roupa sozinha e te desse toda a atenção do mundo. E eu despia-me (desastrada, os pés pelas mãos) e dava-ta, enquanto tu olhavas o tecto como se este fosse mais importante do que as minhas curvas nuas e os meus espaços abertos ansiosos pela tua prospecção. O mais estranho é que gostava assim; criara a ilusão de que ambos ganhávamos e perdíamos à vez naquele cenário depurado de coreografias românticas e assente apenas na crueza materialista da posse. Mas na verdade eu quase só perdia; muito mais do que as duas ou três horas de deveres incumpridos, eram résteas de amor-próprio que aos poucos iam ficando misturadas nas fibras dos lençóis, como vestígios seminais. Um dia, hás-de querer-me nua e eu de mãos atadas, tapada com um rigor de freira, a boca cerrada num fio, absurdamente fixa em qualquer coisa que não tu, a alma feita num nó, mas os lençóis (garanto-te) um brinco.

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escrito por sofia vieira às 20:55

contact

01.06.09

Queria dizer-te da importância de certos gestos nossos para a conservação da natureza, como a obediência dos teus pêlos aos avanços da minha língua quando esta te varre a pele, alisando-a contra o sentido do vento. Queria dizer-te que são fundamentais, para o equilíbrio do universo, para o alinhamento dos chakras e para o perfeito feng shui das divisões de todas as casas, os teus mergulhos por entre as minhas pernas e o tempo em apneia que por lá demoras, o suficiente para que a paz no mundo e a harmonia entre os povos não sejam meras utopias. Queria dizer-te que é quando me sulcas por dentro com movimentos desencontrados e espavoridos como o bater das asas de uma borboleta, que o caos se organiza e que factos importantes acontecem no lado oposto do mundo; que do entrelaço das minhas pernas nas tuas depende a preservação das espécies e que a sincronia das nossas respirações anelantes diminui sensivelmente o buraco do ozono e todos os malefícios conexos. Queria dizer-te que é absolutamente indispensável para o fim da fome e das guerras, que me dobres e me vires, que me avesses e me endireites e me faças gritar o teu nome; e que quanto mais vingar a distância que existe entre nós, maior o degelo nos glaciares e o perigo de extinção dos ursos, por ali à deriva sem poiso. Queria dizer-te da extrema necessidade de os dois sermos às vezes um só, pois da fusão nuclear que resulta da fricção do Amor dependem avanços energéticos em prol da sustentabilidade do planeta. E que o facto de me exigires e de me quereres de certas maneiras, conduz à reflorestação de zonas áridas e à protecção de zonas húmidas e do respectivo habitat, o que faz com que o mundo respire melhor, devidamente oxigenado.

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escrito por sofia vieira às 20:53

como agua para chocolate

22.04.09

Não me apetece escrever, de tanto que o meu corpo te exige, com propósitos feudais. Que se lixe o romance e a poesia, só quero que me estafes e que rompas o teu silêncio estraçalhando-me os tabus, para depois poder adornar o meu cansaço nas tuas costas e que fiquemos assim, comprometidos com o momento e confinados a um espaço emprestado, os ruídos dos outros a circularem nas paredes como veneno. Não quero partilhar com ninguém os teus cabelos curtos por entre os meus dedos, a barba indolente que roças nos meus recantos cavos, nem o desenho da tua boca a sugar-me o antebraço. Não quero que saibam desta alquimia em que absorvo o teu cheiro através da minha pele, num processo simbiótico que podia fazer escola, nem destes desejos de cama e mesa, ilusões pequeno-burguesas de declarações conjuntas, passeios mão na mão e louças na máquina. Se pudesse, gastaria os meus dedos noutras práticas, como chegar ao teu epicentro atalhando-te pelo períneo, esfregando-me em ti como um bicho na casca de uma árvore e marcando-te meu território, enquanto o sol da tarde, insinuando que há vida lá fora, se atreveria a medo por entre as persianas estragadas.

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escrito por sofia vieira às 20:41

crimes and misdemeanors

20.04.09

Reduzo-me a pormenores que fixo na retina ou aguento nas entranhas, incapaz de abarcar o desígnio maior disto tudo. Vogam insensatas esperanças e fazem-se contas de cabeça, embora eu cale o que queria de facto dizer-te, de alguma forma ainda presa a ti: a tanto me leva o paradoxo da saudade. É o teu sabor na minha boca, mesmo quando não estás, e é o teu andar desengonçado a arrastar a minha sombra, até quando vou sozinha. Começo a não saber onde residem os intervalos, se nos momentos em que estou contigo, se quando o resto da minha existência segue para bingo. Mas se hoje é assim, amanhã fico indiferente, a achar a urgência que me consome um disparate sem cabimento na minha vida cronometrada por terceiros. Dizem que é isto a bipolaridade do amor: num dia, a razão desvaloriza-o em nome da sobrevivência da espécie, no outro, induz práticas irreflectidas que roçam o indecoro e o mau gosto, como linguados que excedem o prazo permitido e cópulas quase públicas. Queria entrelaçar as minhas pernas nas tuas em remates intrincados, num exagero de nós de escota e de lais de guia, e a seguir fechar os olhos. No fundo, queria apenas o que milhões de outros homens e mulheres sempre quiseram uns dos outros: acordarem de manhã lado a lado, brevemente completos, embalados por impressões difusas de felicidade.

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escrito por sofia vieira às 19:48

la peau douce

23.03.09

A cada dia, a tua imagem se me torna mais familiar: eras uma vez um estranho, mas agora sorrio em reconhecimento de área, feita parva, quando te aproximas. Vejo-te ao longe e o meu coração fora do sítio, às tabelas contra as paredes do corpo, num prenúncio de guerra e paz. Já sei de alguns recantos e curvas, de coisas tuas que tentaste guardar mas não deu, de pequenos sinais que vou assinalando com cruzes (para não me esquecer) sob a forma de beijos molhados. Gosto de descobrir-te os becos sem saída, para mais com essa coisa de não teres sinais proibidos e de seres sempre todo em todas as direcções (sabes como é). E depois, eu a agarrar-te e a apossar-me de ti, coisa de fêmea que lambe as crias para as lavar dos males do mundo, dá-me a tua pele, deixa-me catar-te. Mas só naquele espaço fechado em que inventamos os minutos que não temos e brincamos aos casais, embalados por gritos que morrem na minha garganta, abafados pela tua mão. É quando entras em mim que as palavras cruas que me cospes ao ouvido se tornam perceptíveis, a clarividência do meu desejo a traduzir-te em simultâneo e o sentido da vida escarrapachado ali, nos vidros embaciados da nossa transpiração. Os silêncios semibreves só me exasperam quando estou longe: discirno pouco e mal, à distância (as saudades empecilham-me). Às tantas, chega a parecer por segundos que todas as outras foram meros ensaios para que agora saibas ao certo como me fazeres feliz sem precisares de ponto, mas afinal é porque me estou quase a vir e às vezes uma pessoa delira. Ao contrário de mim, tens essa coisa de saberes o caminho sem precisares de mapa e de me acertares em cheio de olhos fechados, e é se calhar por isso que me anda a dar para confundir as coisas e para ver lampejos de eternidade feliz na sordidez clandestina da madrugada suburbana.

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escrito por sofia vieira às 19:47

american beauty

12.03.09

Sou diferente, quando não estou contigo: argumentativa, influente, persuasiva, convincente. Sou a que arrasta multidões, a que quando fala os outros baixam as orelhas, a que tem histórias para contar, teses para defender e pontos de vista para demonstrar, catedrática e exegética. Mas olho-te a boca e fico assim, meio gaga e cacofónica, trapalhona e concordante, onomatopeica e monossilábica, tímida e desconchavada, acometida de dislexia verbal, a querer tomar-te o hálito e desapertar-te as calças, como se nisso residisse toda a minha erudição. Sou palavras que se trocam, raciocínios descabidos, piadas sem graça nenhuma e pernas sem poiso certo que me vão sobrando por debaixo da mesa. À vista dos teus olhos, que se cerram devagar enquanto me engolem inteira, vão-se num ápice, a extremosa educação de colégio, os pudores e o civismo, a contenção e a compostura, e eu intuo mais do que entendo e farejo mais do que penso. Porque há qualquer coisa em ti que quase me priva de humanidade, que faz de mim um bicho, uma fêmea no cio reduzida à urgência do instinto animal, a querer obrigar a tua cabeça ao desfiladeiro entre as minhas pernas. E isto porque os teus olhos e a tua boca, porque ainda e sempre a tua boca, eloquente, concisa e segura, como se isso importasse alguma coisa. A tua boca, em nome da qual apetece erguer altares, queimar incensos, acender velas, fundar uma religião, recortes e ex votos colados à cabeceira da cama, preces diárias, promessas. Sou diferente, quando não estou contigo, sou razão pura e não esta fé pagã; sou cidade, prédios, fios de prumo, e não um punhado de terra molhada, fecunda e seminal. Contigo reduzo-me ao perímetro exterior de mim própria e abandono o âmago do que me compõe.

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escrito por sofia vieira às 20:44

lust, caution

08.03.09

Queria que me levasses para uma pensão rasca com águas quentes e frias, daquelas com nome de enlevo patriótico a lembrar o império português, só com escadas, que subiríamos ao ritmo descompassado do coração para um quarto esconso ao fundo de um terceiro andar com vista sobre a cidade, nas tintas para o cliché. Queria que ninguém soubesse e que quem soubesse não se importasse, que um indiano seboso se escondesse atrás de um pebêxis antigo e nos desse a chave sem sequer nos olhar, sem termos de dar nomes ou moradas. Nem me importava que me achassem puta e a ti, cliente, quando nos vissem correr urgentes pelo tabuado velho do corredor estreito, o cheiro a batata doce de alguém a cozinhar cachupa no quarto a colar-se às paredes húmidas onde os meus dedos nervosos tacteantes evitariam os fios descarnados, nós tontos de desequilíbrio com o desejo a nadar-nos entre as pernas, qual é a merda da porta. Queria que me amasses com a calma de todas as coisas no bafio escuro de uma cama suspeita de não ter sido lavada, a luz de Lisboa a entrar e a refractar-se nos bocados partidos dos azulejos pombalinos rematados com cimento, os inteiros entretanto vendidos na ladra para irem pagando aos poucos os remendos da canalização, águas quentes e frias. Queria que o ruído dos vícios privados dos outros fosse a banda sonora de um filme só nosso, ao mesmo tempo sórdido e inocente como afinal somos um com o outro: gráficos, excessivos e desbocados, mas também ingénuos e sem qualquer noção do devir, insistindo teimosamente na inconsequência da nossa irresponsabilidade, como as crianças. Queria que me despisses, que me olhasses nua, que te demorasses na contemplação, que percorresses com a língua tudo o que em mim estivesse a mais e fora do lugar e que o tempo entretanto parasse para eu poder dizer-te pausadamente, entre soluços de prazer, o que sinto, o que me és e o que nunca me poderás ser, águas quentes e frias.

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escrito por sofia vieira às 19:41

carne tremula

21.02.09

Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela. Devolve-me a clarividência do riso das crianças, a doçura dos domingos embalados na modorra familiar, as receitas experimentais no caos da minha cozinha minúscula e o gozo de afagar os cães com as suas línguas caídas e alegres. Devolve-me a futilidade das tardes roubadas ao trabalho e passadas entre amigas, o entrar e sair dos provadores, um número abaixo, um número acima, esta saia fica-me mal, essas calças ficam-te bem, o cobiçar das botas na montra e o aconchego da noite, que sempre tratei por tu e que agora é uma estrada escura que atravesso a pé e a medo até ao limiar do dia. Devolve-me as músicas que me faziam feliz, a voz redonda e cheia com que as cantava pela janela do carro, o prazer das manhãs debaixo de um céu sem nuvens, a vontade de ler um livro, um livro a sério. Devolve-me a capacidade de atentar nos detalhes, no traço incerto de uns dedos pequenos e gorduchos numa folha branca, na pontaria instintiva de uma piada privada atirada ao ar; devolve-me a sede de saber do mundo no escrutínio de um jornal diário, devolve-me o sócrates e o obama, as respostas que te não dei, mais a luta que te não ofereci e os argumentos a que me escusei quando me lancei à tua boca e as palavras foram só empecilhos. Devolve-me as noites pacificadas no enrosco de um abraço, a ignorância que tinha de ti, a incisão na pele de um raio de sol de inverno e o gozo de ver um bom filme. Devolve-me o prazer do silêncio e do telemóvel desligado. Devolve-me, que as pessoas já falam e comentam e reparam no invólucro de mim que sobrevive rasteiro, e toma (leva contigo), esta abrasão no peito, a dispersão e o medo, a indiferença e o tédio, o insosso das refeições, a vontade de crer nas tuas rimas e a cefaleia constante que me provocam os ladrares, as canções, as conversas, os risos dos meus amores e todos os sons, do campo e da cidade, nos quais não te materializas de imediato. Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela.

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escrito por sofia vieira às 19:40

il diavolo in corpo

17.02.09

Procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda. Guardo segredos só por ti desvendados e sorrio aos passantes, atirando-lhes à cara a arrogância de quem possui algo de único e de reservado, de exclusivo e de impraticável, como uma estância de luxo ubicada nas águas turquesa de outro continente qualquer. Trago-te em estado líquido, tanto de ti que te queixas entre as minhas pernas quando ando, com medo de caíres estatelando-te no passeio, e eu às vezes a alargar o passo só para provocar o teu medo e sentir que te agarras com força às minhas virilhas molhadas. Algures, um oráculo ecoa na decrepitude dos prédios e ordena-me que corra para longe, sob pena de as vísceras dos animais anunciarem derrotas e outras desgraças. Vejo o teu sexo nos pilares e nas cornijas, em evocações fálicas que me divertem e acendem, alheia que estou à mediocridade das analogias, embora o enunciado de tragédia que leio nas nuvens que dealbam o céu me devesse acautelar o riso e a desvergonha. A tua língua, o voo nervoso daquele pássaro, uma arvéola que hesita entre um beirado derruído e a estátua suja de um pedagogo. Quando finalmente me escorreres pelas pernas e, caído no passeio, eu seguir sem olhar-te, voltarei a sentir pequenos espasmos de alegria com a nova temporada da minha série favorita e retornarei ao cronometrar seguro de todos os momentos do meu dia, sentindo-me velha esmarrida mas em casa, de novo em casa. Apressar-me-ei a limpar as janelas por dentro e por fora com o detergente adequado e aposto que consigo até lavar a roupa na máquina sem a deixar toda da mesma cor. Em breve, quando me cansar das traições, das indecências e do teu pulsar dentro de mim, deixarei de ser a puta vernacular em que me transformaste para regressar ao mundo das horas contadas, das cortesias sem sentido, dos contarelos familiares e dos frescos no hipermercado.

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escrito por sofia vieira às 19:38

un homme amoreux

04.02.09

Repara, eu não sou neófita, nisto do amor. Posso vaga-lume pela noite fora à espera de um sinal teu, que no dia seguinte aplano, escolho o meu melhor vestido, calço os sapatos mais altos e bato com a porta à saída. Não é que me estejas a dar alguma espécie de novidade: são imensas e variadas as hipóteses de me dar mal, de sofrer que nem um cão, de acabar mendiga na sopa dos pobres, a roer uma côdea rala e a sorrir os dentes podres enquanto repito o teu nome aos transeuntes que nem olham. Pode ser. Sou tu cá tu lá com o desejo que me consome, entre nós não existem segredos, ele sabe que já o topei e se não me atiro agora mesmo para debaixo de um comboio, de preferência de mercadorias porque são os mais pesados, é porque tenho hora no cabeleireiro e ainda se aproveita qualquer coisa no refugo dos saldos de inverno. Não há nada no teu silêncio, súbito como uma cãibra, que remotamente me surpreenda: os silêncios vêm em bandos e é época das migrações. Posso até mortificar-me em frente à televisão, a roer uma série macabra onde o herói patologista disseca com poesia uma artéria femural, mas os silêncios (em especial os súbitos) como-os eu ao pequeno-almoço. Tudo o que possas não fazer agora, já eu o não fiz antes; conheço bem os meandros de se estar quieto à espera que passe e a necessidade de marcarmos uma posição quando não podemos marcar um território (ou a carne com um ferro). Nada leio de especial naquilo que não me dizes, nem descortino entrelinhas no acto de te manteres à margem; o espaço que existe entre nós não é mais do que matéria e por muito que o alargues, tu nos antípodas e eu insone à espreita, será sempre a mesma matéria, vou lá contradizer a ciência. Repara, eu tenho vindo a acumular pontos, guardo cupões de desconto e aproveito as promoções. E sei que não é por assobiares as palavras para o lado e por me negares as noites, que despes a minha pele e a deixas pelo caminho.

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escrito por sofia vieira às 19:36

the postman always rings twice

19.01.09

Perguntas-me se quero boleia e convidas-me a entrar. Sento-me ao teu lado e vem-me um cheiro a pinho e ao teu peito agitado e húmido (como sempre quando me antecipas). Cerro as pernas e cruzo piamente as mãos antes que se me escapem para a tua braguilha de ganga engelhada, a roçar no volante a cada vez que o viras. Inclinas-te para o meio e para mim, escolhes um posto de rádio, não há nada de jeito, e é cada vez menos o cheiro do pinho brise natureza eficaz por seis semanas e cada vez mais o cheiro do teu peito que escorre abarbelado pelo desejo, eficaz a vida inteira, não precisa de recargas. Chegamos à minha rua e insinuas-te, é só um copo de água. Exulto, mas faço que me resigno. Sigo à frente e meto a chave à porta, querendo inclinar-me logo ali e agarrar com as mãos nervosas o degrau sujo da entrada para que me comas de quatro, enquanto os vizinhos espreitam de coração acelerado por detrás dos vidros duplos. Entro em casa direita e digna, como se também eu não escorresse toda, como se o rio oleoso do desejo não ameaçasse encharcar-me a compostura, tenho de ir à casa de banho. Tu manténs-te cá fora, limpando os pés no tapete puído, falando alto com deliberação e parecendo quase lídima, a tua presença ali. O gato recebe-nos satisfeito, mas recolhe-se desagradado ao perceber que comigo vem um estranho, não o dono. Na sombra, os penates agitam-se. Tiras devagar o casaco e pendura-lo no cabide indonésio grosseiramente carvado, num ritual provocatório. Olho para o lado enquanto o despes, resistindo a rasgar-to do corpo com a fúria das górgonas e corro para a cozinha. Vens logo atrás. Dou-te à pressa o copo de água, acabaste de chegar do deserto e estás com pressa de voltar, mas nem lhe tocas; antes, encurralas-me contra a mesa posta para o pequeno-almoço, as duas chávenas coloridas no centro dos dois individuais e no meio os frascos com o doce de gila e a compota de maçã, a favorita dele. À sua lembrança, consigo até sorrir-te como se não estivesse a morrer e tento encaminhar-te para a saída com a firmeza gentil de um cão-guia, mas tu agarras-me pelos ombros e deitas-me na mesa sem fazeres qualquer esforço, embora pareça que sim. Entramos então em guerra, numa pegadilha de bocas e pernas, de mãos e línguas e unhas. Demoras-te de modo insuportável antes de entrares em mim, queres que suplique embora saibas que isso nunca acontece: não preciso. Abres o frasco que rola pelo bordo da mesa e espalhas com dois dos teus dedos a compota favorita dele na minha barriga. Lambes-me o umbigo com gula e eu penso que nunca houveramos feito nada de tão cruel - nem nos seminários inventados, nem nos motéis suburbanos a meio da tarde. Abafo um grito quando me entras e esbracejo – não sei se de pânico se de gozo - e as chávenas caem por fim, espalhando pedaços coloridos de porcelana barata no mosaico preto. A velha do andar de baixo, que está cega mas não é surda, pensa que foi o gato, que às vezes a espreita do beirado, e sorri. Entretanto, eu recuso-te, enquanto me abro e palpito: sou uma flor carnívora em olímpica amplitude. Venho-me de olhos fechados, a gritar não e a afastar-te do meu corpo, prefiro abraçar uma mesa. Sempre assim, é sempre assim: tu a demorares-te na entrada e a demorares-te a entrar em mim, a fazeres com que eu grite e com que os vizinhos nos ouçam, as partires as minhas chávenas e a estilhaçares-me o quotidiano. E eu a fingir que não quero, que és tu que me obrigas, que ele prefere o doce de gila e que o barulho foi o gato.

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escrito por sofia vieira às 19:29

secretary

06.01.09

És fácil, muito fácil de amar, e sabe-lo. E perigoso, porque não tentas sequer, porque não aparentas qualquer esforço; no entanto, és gostável naturalmente, como o mar ao pôr-do-sol ou um dia calmo em que não se faz nada. Carregas o amor dos outros como plumas, nota-se. Há em ti uma quase ausência de intenção e, no entanto, atrais-me com desmesura, gravitacionalmente falando. Apetece-me dar-te várias voltas, conhecer-te de todos os ângulos, descobrir-te e explorar-te como se fosse a primeira a fazê-lo, como uma daquelas expedições pioneiras ao árctico em que no fim morre tudo, numa catarse impossível de ser resgatada. Tens um modo único de seduzir, que é o modo de quem não o tenta fazer e não pensa sequer no assunto, fatalmente certeiro. Imagino que balances o teu sorriso por aí, projectando-o pela estratoesfera e deixando que o resto do mundo se esgatanhe a ver quem o consegue apanhar primeiro. E eu, tenho a estranha sensação de que facilmente te adoraria se os astros, devidamente alinhados, a tanto mo aconselhassem, mas que, depois de a minha pele te provar seria um ver se te avias. Porque, quando um dia deixasses de me querer, eu ficaria com fome e à deriva, a abraçar-me às paredes, a arrastar-me pelas ruas e a tropeçar nas esquinas. E teria seguramente comichões e ataques de nervos, e a minha pele criarias bolhas e eczemas, sintomas certos da doença incurável de nunca mais te ter. Deixar-me-ias sem critério, e haveria dias em que qualquer um me serviria para te emular: o trolha da obra no fim da rua que oferece os braços nus à geada da manhã, o rapaz vesgo que me traz os sacos do supermercado a casa, o farmacêutico de esgar macilento cujos folículos capilares pousam na bata branca como flocos de neve, enquanto me avia os placebos. E depois a irmã loucura, confortavelmente instalada, abraçar-me-ia num aconchego fraterno. Aposto que facilmente te tornas preciso, como o antídoto de um veneno ou a última refeição de um condenado, e eu confesso-to: desde há uns tempos a esta parte que me vem uma vontade danada de desatar a correr para a rua, se calhar descalça e sem sequer dar voltas à chave, só para descobrir onde moras (e onde posso por fim começar a perder-me).

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escrito por sofia vieira às 19:27

kramer versus kramer

20.12.08

Ficas com eles na consoada. Que não abusem dos doces, nem da vontade de ti, nem dos mimos dos outros. Atenta-te neles e agasalha-os bem. Cuidado com o frio, com as esquinas dos móveis, o açúcar nos dentes e as saudades de mim (que sei que vão ter). Aconchega-os na cama e deixa-lhes acesa uma luz de presença como se fora eu, vítrea rosa, analgésica, a iluminar-lhes o caminho alteroso dos sonhos e a aplacar-lhes as dores que às vezes se encaracolam nos seus corações em repouso. Porque a noite tem garras e toma amiúde formas de assombro, e eles bem conhecem os caminhos da decepção. Enquanto o tempo fizer que passa, irei ao meus pais. Dar-lhes um beijo, provar a secura do peru que a minha mãe assou para mim e que repousará inteiro na mesa no dia seguinte, como um cadáver frio: os restos mortais de nós. Depois, um comprimido e uns copos, um brinde sozinho ao nada em nenhures e esqueço-me da vida até de manhã, quando eles chegarem. Traz-mos cedo, lavados e penteados. A ele, desenha-lhe o risco com jeitinho, baldeado para a esquerda; a ela, prende-lhe os totós ao de leve e deixa-lhe o elástico largo, como se uma mão de mãe lhe sustivesse no ar os cabelos de fada. Na mala, o boletim de saúde e uns benurons, que isto nunca se sabe, andam vírus à solta. Ai de ti se me ficam doentes: serás sempre o culpado, o culpado de tudo (do peru, tão seco; da noite deles, tão escura; da minha sombra, tão frágil; da curvatura triste dos meus pais, até). E não te atrevas a conquistá-los com a última consola ou a maravilhosa boneca robótica: o amor extemporâneo não recolhe frutos. E se os vires felizes, nem por isso acredites: não será certamente do aconchego da lareira ou do carinho empenhado dos avós; nem, muito menos, do teu abraço grande, redentor e ampliforme. Fui eu que os eduquei, sabes?, para o exercício da benevolência subtil e da polidez agradecida, que todos devemos aos estranhos que nos são de repente agradáveis.

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escrito por sofia vieira às 20:46

love is news

01.12.08

Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.

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escrito por sofia vieira às 19:26

love letters

01.12.08

Nunca te vi, não te conheço e, no entanto, a tua voz derrapa cá dentro sem me encontrar um fim, como o momento interminável que precede o acidente, aquele em que adivinhamos que nada será o mesmo depois de. Sei-te um embate inevitável, sei-te o estrondo metálico que antecipo na estrada antes de me entregar nas mãos escorregadias do destino (digo eu) ou de deus (dizes tu), embora não saiba em concreto que verdade existe no razoável interesse que demonstras pela minha pessoa neste espaço estranho que não nos aquece nem nos pertence. Não te conheço e, no entanto, é como se nos telefonássemos todos os dias e eu te consolasse as mágoas e te desculpasse as falhas, que expusesses como feridas. Entendemo-nos de um modo desabrido e com o à vontade dos amigos de infância, aqueles com quem nos masturbámos enquanto crescíamos e a quem nos abraçámos nos chãos das casas de banho públicas, a exorcizar a incompreensão dos adultos, o acne na cara e as cervejas a mais. Nunca te vi, nem disso tenho ganas, não especialmente, não agora, mas há algo que nos une desde sempre: uma amargura de superfície que nos desqualifica para muitas coisas e um hiato profundo para onde nos foge a alegria, um buraco negro no qual cabe tudo aquilo para que não arranjamos espaço no estertor violento dos dias. Não te conheço, mas todas as noites te despedes de mim com um beijo de língua, essa língua que trabalha à jorna e me cava a boca com desassombro e empenho, garanto-to. Nunca te vi, mas és profícuo, produzes-me coisas cá dentro e às tantas o sangue flui, consolado, porque sei de fonte segura que, separados embora por becos e avenidas, trauteamos as mesmas canções, sarabandas fora de moda que mais ninguém quer ouvir. Mas por agora escrevo-te de longe e sem te verbalizar o suficiente para que possamos partilhar mais do que a certeza desta convergência ácida desoxirribonucleica que nos sorri de frente. Nunca te vi, não te conheço, mas não estou à espera que me passes depressa, como uma febre qualquer (não estou à espera que me passes, sequer).

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escrito por sofia vieira às 19:22

rebecca

14.11.08

Desde o dia em que me deixaste que me fazes mal, um mal danado. Quando de noite me chegas à pele, a reboque do silêncio que rasteja pela calçada e trepa pelos muros, sabes-me a azedo, a coisa estragada, (quis escrever travo amargo, mas tu não te ficas pela minha boca como um refluxo qualquer; antes, espalhas-te pelo meu corpo, subitamente acometido de uma paralisia de bondade e de luz). Mesmo assim, deixo sempre que te enterres em mim como um prego enferrujado e que me magoes aqui de lado quando ando e respiro ou tento saltar. Desde o dia em que me olhaste através e não me viste, que trazes contigo aquele sobressalto desagradável de quando se tropeça no passeio e se dá um passo em falso, um mergulho no vazio, o coração colado às costas. Tenho-te ainda à boca do estômago, mal digerido, uma pontada, uma dor de burro, uma dormência nos dedos, razão pela qual fecho os olhos e respiro fundo a tentar expulsar-te para longe. És-me incómodo, desaprazível, molesto. És o vizinho barulhento, o cobrador que bate à porta; és a criança que chora, o cão que ladra, a torneira que pinga, a janela que não veda num dia frio de Inverno. Tenho alturas em que rondas o desastre e o infortúnio mas depois passa, com a lenga-lenga reconfortante dos refrãos matinais dentro de portas. No entanto, nada evita que sinta o espírito corcunda e encurvado, esmagado pelo peso de tanto sempre tu, independentemente das estações do ano, do índice da bolsa, da fome no mundo ou de estares a milhas. Nem que eu seja absolutamente consciente da tua pessoa, ao ponto de nos acotovelarmos no espaço onde estou e de quase jurar que me empurras (como sempre fizeste, afinal). Fazes-me mal, um mal danado, desde o dia em que nos desentranhámos e dividimos em dois: dois seres estranhos sem nada mais em comum do que o facto de nenhum de nós poder viver sem o teu corpo.

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escrito por sofia vieira às 19:20

sommaren med monika

04.11.08

Dantes era mais giro, quando o teu Amor me vinha por telepatia, por intuição, por sinais de fumo ou por código morse; dantes, quando eras o excesso que se continha na parcimónia do gesto e o vértice da esquina de uma promessa; quando eras um estado de espírito, uma fragrância e um eflúvio, uma maneira de me deitar e outra de acordar. Agora dividimos as despesas, compramos pacotes de férias, declaramos juntos os impostos, eu chego a casa e tu estás lá. Agora já sei, como te irritam os arrumadores, onde guardas o corta-unhas e qual o montante exacto da gorjeta que deixas na mesa do café; e sei do cansaço impaciente de quando te deitas, virado de costas para mim na urgência sôfrega do sono. Dantes era mais giro, quando deixávamos um lastro sujo pelos quartos emprestados, empestados de nós; agora queres tudo limpo, que os lençóis não se amarfanhem e que os guardanapos, nem uma nódoa (às vezes, quando ressonas e sibilas agarrado às fronhas alvas, é como se me perseguisse uma matilha de cães selvagens). Dantes era mais giro, quando tinha a certeza de que me farias um filho, um menino jesus, um indigo, um sobredotado, um milagre: o corolário inevitável da temperança do Amor. Hoje é o pânico, se me esqueço da pílula, se faço mal as contas ou se não interrompemos a tempo a sensaboria morna de um coito esporádico. Dantes era mais giro, quando me eras proibido e eu te imaginava despido nas minhas mãos, afrouxando-te com os dedos o elástico dos calções de seda; agora, apanho-tos do chão junto com as meias e as termotebes, enquanto salmodias à minha volta sobre as traições no emprego e o cabrão do aníbal que te roubou o projecto. Agora, eu vejo a novela e tu despejas o lixo, eu perco a paciência e tu a vontade, eu no computador a trocar galhardetes com urbanos desconhecidos e tu a fumares cigarrilhas na varanda, inclinando-te na balaustrada de ferro forjado, descascando distraidamente o primário com a ponta dos dedos enquanto imaginas corpos nus de mulheres a irromperem como espirais de fumo pelos telhados embreados que sustentam a noite da cidade velha.

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escrito por sofia vieira às 19:19

henry and june

19.10.08

Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Que farias?, se eu apenas o bê a bá no presente do indicativo, sem um futuro do subjuntivo ou um pretérito mais que perfeito? Que farias do meu corpo, se eu só fome e cio e sede, despojada de lirismos, de interjeições e figuras de estilo, sem o abrigo nuclear das coordenadas copulativas? Que farias?, se eu só cabelos e pele e pêlos, sem qualquer erudição? Que farias do meu corpo, das varizes que despontam, das sardas e dos sinais, da celulite escondida? Sim, que farias?, se eu quase analfabeta, ignorante e simplória, se a minha escolaridade pouco mais que a obrigatória? Se a linguagem, de carroceiro e as frases, às três pancadas; se eu nada de aforismos, silogismos ou significados? Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Se eu nua à tua frente, despojada, oferecida, toda instinto animal, toda líquidos que escorressem, músculos que te apertassem, sons cavos que mal se ouvissem? Que farias com o meu cheiro?, demasiado acre, demasiado doce?, e com a violência obscena da minha presença física a ocupar-te a largura da cama e a tua visão periférica? Que farias, se esse ecrã não mediasse com diplomacia as negociações entre nós?, e se eu e tu frente-a-frente acordássemos por fim fronteiras ou a transposição delas? Se eu sem dedos nem jeito, muda, disléxica, desarticulada, nada escrevesse, nada dissesse? Que farias do meu corpo, se soubesses que esta não sou eu e que tu és tu só por acaso, pois quando não minto, roubo, e que aquilo a que atribuis tanta beleza é a cópia da cópia de um copiraite? Que farias do meu corpo se as palavras não fossem minhas mas tuas, apenas? Encaixar-te-ias nele como te encaixas nas entrelinhas do que escrevo? Servir-te-ia eu também como uma luva?

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escrito por sofia vieira às 19:18

the age of innocence

16.10.08

Contigo, tenho dias. Dias, em que a habitual indiferença quanto às andanças do teu destino dá lugar a uma precisão urgente, como uma sede de náufrago ou um desejo de grávida. Tenho dias, contigo. Em que és o Sexo e a Palavra, o sítio onde trabalho, a casa onde vivo, o ar que respiro. Em que és o ronronar abafado da máquina do café, o correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, reflectida no macadame. Pequenas coisas te despoletam, pode ser o cheiro de outro homem, a declinação de um som ou o teu nome abreviado nos contactos do telemóvel. Pequenas coisas, mas nem por isso aprendi ainda a identificar os sinais: quando me chegas, já vou tarde. E então fico quieta, à espera, enquanto passas por mim, ocioso, como um domingo, um passeio dos tristes, uma ida às queijadas ou ao hipermercado. Contigo, tenho dias.

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escrito por sofia vieira às 20:44

thomas est amoreux

30.09.08

Continuas por cá, a fazer o quê não sei. Mais fácil assim, não é? Aqui não gritas e eu não choro. É um descanso regalado: vais sabendo do que me falta e do que me sobra, sem que o mesmo te falte ou sobre a ti. Existe algo de doce e de confortável, não achas?, no compromisso unilateral do que escreve e na saciedade daquele que religiosamente o lê. Uma espécie de regresso a casa sem teres que explicar a ninguém como correu o dia. Remendas-te com bocadinhos meus, satisfeito porque quando me lês me tens despreocupadamente, sem mexeres uma palha. Sabes que quando falo nos outros te minto, que é manobra de diversão, poeira para os olhos, embora à primeira leitura um ligeiro sobressalto, será que. Não que te faça mossa, até de mim nos outros tu gostas de saber. Acho, aliás, que me preferes nos outros: é seguro e indolor. E que alívio!, eu não saber do exagero de tempo que perdes comigo, a fingir que vens pela excelência da escrita, coitada da escrita, uma prosa rarefeita que não justifica o trabalho. Convém-te, pois claro!, que eu à mão entre um café e um cigarro, enquanto desapertas descontraído a gravata. Eu a jeito, pronta a usar, de uma vez ou às prestações, sem dores nem ralações, sem corpo nem textura e ainda menos o odor pegajoso de algum desejo que aflorasse só com o estar perto. Que sorte!, poderes convencer-te que gostas do que escrevo e não de mim, e que queres lá saber, pois os filhos e a mulher em casa, o jantar pronto na mesa, a colega lá do escritório, que é gira e boa e se mete contigo, a loura no descapotável que até comias se não desse sarilho. Ah, que descanso!, livre da urgência e da marcação serrada, dos telefonemas a desoras e do querer sempre mais, pois só um almoço não chega, porque não um jantar, porque não agora, porque não mais vezes, quero mais de ti, quero mais e mais e mais. E que bom para mim também!, repara: não te fartas nem me desiludes, não me fodes nem me abandonas, não me enganas nem me aldrabas, não me baralhas, não me desconcertas, não chegas tarde e a más horas, não te vens em três minutos, não me deixas a arder na cama nem me juras que a vais deixar.

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escrito por sofia vieira às 19:06

the notebook

17.09.08

De nada me valeram, os que vieram depois do que entre nós não houve. Por tua causa perdi o olfacto e o paladar e todos os homens me sabem ao mesmo. Procurei-os nos antípodas de ti e cuidei de escolher formatos e feitios que não os teus, numa fuga em frente, como se. Nuns casos, diverti-me; noutros, arrependi-me, mas sempre a porcaria do coração aos solavancos, a malbaratar-me em entusiasmos pré-fabricados, que cansaço. Quiseram-me muito e tratam-me bem, mas vai dar ao mesmo porque não tenho escolha: passados dias, e a minha carne rejeita-os como se o transplante falhado de um órgão estranho. Por tua causa tornei-me puta, se não me queres é porque não presto. Abro-lhes as pernas e o sorriso, finjo que gosto de sushi, que prefiro as rendas ao cardado do algodão e que os saltos altos não me magoam quando ando. Mas ponho-os a todos com dono antes de o sol nascer: deixo-me escorregar, encostada à porta da rua que acabei de lhes fechar na cara, a odiar o rasto que deixaram no meu corredor. Não há nada de transcendente no prazer que me dão: come-se quando se tem fome. Quanto ao resto, amo-te sem o menor indício de desespero; apenas deixo que a tristeza me faça cócegas numa ou outra lua nova, e é se me distraio. Não tenho qualquer esperança de que tu um dia qualquer coisa, pois foges de mim como o diabo da cruz e é assim que deve ser. Quem sabe só me interessas enquanto obstáculo intransponível contra o qual gostaria de chocar, esparvoada, algures ainda neste tempo de vida. És um empata, o meu empecilho de estimação, um chove não molha que me embaraça e me troca as voltas, mas eu já não saberia viver de outra maneira. Tenho cá dentro a persistência devota de uma mulher de província, enganada pela lábia de um caixeiro-viajante, que gasta as horas num desvelo obsessivo para com o filho ranhoso que é a cara do pai.

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escrito por sofia vieira às 19:03

the purple rose of cairo

16.09.08

Não, não acabou. Gostava que tivesse acabado; gostava de ter lavado de ti as minhas mãos e ponto final parágrafo, mas dou por mim aqui, neste sítio contigo dissimulado dentro, como uma arma com disfarce regateada na feira, das que nem parece que magoam. Pestanejo e cá estou, jazente e escondida, no único lugar onde sei que te tenho; onde já te amei tantas vezes que enjoei o salitre do teu corpo; e onde exorcizo a minha banal existência, exagerando-te e ampliando-nos. É por isto que preciso de continuar a querer-te com a desmesura com que se quer nos filmes mudos, e a escrever o arrebate das tragédias a preto e branco, com grandes planos que são grandes demais e gestos de amor abruptos, como saltos de insecto ou cortes inesperados na fita. É aqui que te esqueço e repudio e me apaixono por ti uma e outra vez, e onde às vezes mais não és do que uma lembrança antiga, desbotada como um linho de avó, que me inspira ao tacto. Aqui, prometo-te a eternidade adiada, enquanto fazemos amor e as contas do IRS, enquanto conferimos os dedos um do outro, as brancas no cabelo e a lista do supermercado. Aqui, deixamos o telefone tocar e a porta bater, e eu engulo todos os sons que não sejam o das nossas respirações em dueto. E esqueço-me de quem sou, querendo-te para o resto da vida e mais um dia, e dizendo-to avidamente à sombra da prateleira dos enlatados. Por isso, não, não acabou: estarei condenada, parece, a voltar aqui, a voltar a ti. Tal como tu, condenado a leres-me, a leres-me sempre, num impulso alcoviteiro e a uma distância sem remédio.

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escrito por sofia vieira às 20:49

danger: love at work

03.08.08

Manhã cedo, a porta abre-se. Entro de cabeça baixa, como sempre, com medo de que o estremunho me distraia e o chão me falte. Encaixo-me entre corpos a cheirar a fresco e é então que te vejo. Primeiro andar. Estás mais bonito do que nunca: umas rugas subtis, finas como nervuras de folhas, enfeitam-te os olhos risonhos, que obviamente se divertem ao repararem em mim. Segundo, terceiro. Percorrem-me as curvas recentes e as saliências antigas; trepam-me, como se dois miúdos à solta num campo em busca de flores e de insectos ou apenas de coisas que os distraiam, enquanto eu estática, parada, avariada. Ofendida. Quarto andar. Com um agrado tão displicente que mais parece fortuito, dás-me um abraço fraterno e mostras-te contente, como quem há muito não visse um amigo querido de quem já pouco se lembrasse. Quinto. Só que eu não te quero contente, nem que estejas sinceramente agradado por me veres, ora essa. Sim, sei que estou óptima, não preciso que mo digas. Sexto. Quem pensas que és para me olhares assim bem disposto e te congratulares com a minha presença? Quem?, para eu te ser tão indiferente ao ponto de te mostrares genuinamente simpático comigo, atirando-me com o sorriso encantador que dispensas habitualmente aos passantes, aos meros conhecidos, aos amigos distantes? Sétimo andar. Quero-te compungido, ao menos incomodado; quero que me olhes com a expressão aflita que fazem os que dão de caras com a sua maior perda mas tentam disfarçar. Podes até cobiçar-me um bocadinho ou reconheceres o meu perfume dos tempos em que mo lambias do pescoço. Oitavo. Apresentares-te um tudo nada perturbado, ou apenas nostálgico, pronto. Engole um suspiro, reprime um soluço. Nono, décimo andar. Mas não fiques contente por me veres, isso não, santa paciência. E muito menos te mostres indiferente ao nos despedirmos, sem qualquer resquício de desespero. Décimo primeiro, é aqui que eu saio. Atreve-te a não vires atrás de mim e a ficares aí, a acenares-me com ligeireza, beijinhos até um dia. Mostra ao menos uma certa pena, faz um gesto para me alcançares, um arremedo de lamento. Gagueja, mete os pés pelas mãos, transpira demais, embacia o riso dos teus olhos com a névoa de uma certa tristeza. Não? E um amuo ou um beicinho antes de a porta se fechar?

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escrito por sofia vieira às 18:57

atonement

03.08.08

Beijar-te, eu? Não sejas tolo. Só entorto o meu pescoço na direcção da tua cara porque me deu um torcicolo, foi enquanto dormia e não, não sonhava contigo, era dura a almofada, uma questão de posição, não consigo endireitar-me e já não tenho vinte anos. Que os meus olhos (dizes) fixos na tua boca? Ora essa, impressão tua, fiquei vesga subitamente, até fui ao oftalmologista, receitou-me um colírio que arde, acredita que vejo a dobrar, nem percebo quem me rodeia: em que lado estás tu, afinal? Que a minha mão faz tudo (afirmas) para agarrar a tua mão? É só uma cãibra súbita, que me impele os músculos dos dedos, hirtos e desobedientes, na direcção dos teus; foi um espasmo aleatório, uma mera casualidade, coincidência espacial. Que a minha perna esquerda (insistes), encostada sem grandes pudores à tua perna direita? Tropecei há dias na escada, estou dorida e fraca do joelho, até um bocadinho coxa, por isso me apoio em ti não vá eu cair outra vez. Que o meu nariz (parece-te), fareja abertamente os recantos da tua nuca? É que trazes um cheiro diferente que não consigo definir, terás mudado de perfume?, o meu interesse nas intersecções do teu corpo é meramente científico, acredita. Que a minha boca, entreaberta (inventas), à porta da tua boca? Está apenas de passagem, vai a caminho do teu ouvido, quero dizer-te um segredo, uma confidência importante, deixa-me pensar o que poderá ser. Que o meu peito (desconfias), se arremessa contra o teu como quem não quer a coisa? Uma tontura, um quase desmaio, é do calor, da falta de açúcar, se beber uma bica isto passa. Que o meu cabelo se eriça (teimas) e se agarra à tua pele? Electricidade estática, como sabes, um fenómeno muito comum. Este suspiro profundo, em que parece que espalho a alma toda pelo ar? Dificuldade em respirar, culpa do tempo seco, do calor, das alergias. Não é (nem por sombras, não é), o desabafo feliz de quem disse ao tempo que parasse, que tudo assim só mais um bocadinho (e a quem o tempo obedeceu). Beijar-te, eu?! Não sejas tolo.

 

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escrito por sofia vieira às 18:56

on golden pond

24.07.08

Amei-te antes, muito antes, de te conhecer. Quando te vi pela primeira vez, limitei-me a constatar um facto e a reconhecer a evidência do teu corpo, obviamente concebido para encaixar no meu até ao ponto de nada verter entre ambos. Tive tonturas e náuseas, coisa de que não estava à espera, mas que agora até entendo: pode ser desmesurada, a emoção de chegar a casa, e revelar-se somaticamente. Nada aprendi que então não soubesse: antes de nós, andáramos a perder tempo. Achei-te tão inevitável como primeiro ser dia e depois noite, e quase feio, embora de imediato me tenha apetecido lamber-te a pele branca, muito mais branca do que na fotografia que me enviaras, como se fosses água fresca e eu cheia de sede. Ainda sem nada termos dito e já as palavras obsoletas e extemporâneos, os preliminares. Tive vontade de uivar, arfar e copular - não necessariamente por esta ordem - logo ali em cima da mesa, com aquela ausência de moral que assiste aos repentes animais, em especial aos que urge satisfazer com barulho e sem qualquer outra razão que não a do formigueiro que nos tortura as camadas subcutâneas. Amei-te, muito antes de saber o que era, o sermos o cônjuge de alguém, o precisarem de nós para a comida na mesa, para o entretém; o sermos de tanta gente ao mesmo tempo que acabamos desmembrados e espalhados aos bocados pelos outros, até não sobrar resto de nós para nos podermos dar à única pessoa que não nos reclama. Pode ler-se a olho nu o meu destino nas linhas da tua mão, pelo que de nada te adianta fechá-la, que queres?, vivo com esta convicção, a de que acabaremos junto e velhinhos, aflitos com dores nas costas, esquecidos dos nossos nomes e enterrados para sempre nas imperfeições do outro. Tu, a amparares-me amorosamente a papada e eu, a massajar-te os ossos esboroados e a aliviar-te o reumático, numa suave recriminação mútua por não nos termos encontrado antes, como competiria a quaisquer almas que se reclamam gémeas, ambos sabendo que só o meio da vida é pouco, muito pouco, e que já fomos tarde, muito tarde.

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escrito por sofia vieira às 18:51

where danger lives

18.07.08

Um gesto lépido, um encolher de ombros, uma frase. A ela, basta-lhe uma frase, em especial se sincera. Não porque o pretenda ser ou faça por isso, mas porque a verdade circula nos meandros que a compõem. Então ela recolhe-se, como se um corpo estranho. Uma frase simples, que traduza a reacção adequada à provocação sem sentido. Que, de tão normal, mediana (gaussiana), a faz sentir-se diferente, avariada, sem remédio. Que lhe cala as palavras dentro ainda antes que se formem: letras avulsas passarão a correr nela como linfa. A loucura e o desgoverno alimentam-se do excesso que criam; a normalidade é autofágica. Ela preferiria que a razão lhe permitisse ser fugaz (a razão, esse conceito que lhe é longe como um recorte de cordilheiras). Ela quereria não ver a vida na progressão geométrica do desespero. Às vezes, acorda e estremunha, mas nem por isso mais lúcida, apenas mais cansada. Só não é uma criatura sombria porque não se leva a sério. Precisa de fazer nada, para sustentar o delírio. Esconde o desvario nas palavras que não escreverá e encaixa num recanto de si a frase normal, como se esta lhe fizesse cócegas para sempre.

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escrito por sofia vieira às 18:50

2046

17.07.08

Quanto mais o tempo passa, melhor te lembro. Coisas a que nem ligava, a forma galgaz como andas, atirado para a frente e a quereres chegar sempre primeiro, e o repetir do encolher de ombros quando duvidas e não queres saber, estão agora desenhadas em mim a traço carregado. Hoje, adivinho a exacta fracção de metro que percorres a cada passo largo e a medida desses dedos cambeiros que costumavam iluminar-me a pele, da falange à falangeta; calculo quantos graus mede o ângulo que se forma entre o teu queixo e o pescoço, e de que modo a curva das tuas sobrancelhas se abate sobre o septo nasal quando desatas a pensar. Nisto não existe qualquer paradoxo: a recorrência da memória, que passa todos os dias pelos mesmos lugares, permitiu-me chegar à precisão das tuas medidas e formas, e à certeza quanto à rigorosa coreografia dos teus gestos. Quanto mais o tempo insistiu para que te arrumasse e esquecesse, mais eu me entretive numa cirurgia reconstrutiva, em viagens rápidas de ida e volta, compondo-te de cheiros e de palavras, e descartando-me do que antes me exasperava e me impedia de nos inventar um passado credível e tridimensional. Hoje, sei-te muito mais do que ontem, embora não imagine para quê me serve, o ter-te inventariado pela noite fora enquanto me espalhava ao comprido na cama. Para uma coisa, talvez: feitas as contas, sei de cor o espaço certo que ocuparias na minha cama de corpo e meio e o quanto eu teria de me encolher para te deixar dormir, ou o quão pouco teria de percorrer, em modo de deslizamento rápido e em termos de centímetros de lençol cem por cento algodão, para te abarcar todo, assim resolvendo de vez a complexa equação que traduz a volumetria do Amor.

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escrito por sofia vieira às 18:48

the way we were

01.07.08

Gostava de ti como és, assertoado e bem vestido, composto e melhor nascido, menino de coro e de igreja. Eu, febril e escarolada, que gargalho e que praguejo, que bebo panachês e cerveja enquanto tu vinho tinto, gostava de ti como és. Eu, o top que não diz com a saia, a borbulha no meio do nariz, a puta da ovulação, os berloques falsos nos pulsos, os brincos de filigrana. Eu, que quase não corto o cabelo e roo as unhas até ao sabugo pelos nervos de te encontrar, que me sento e as pernas soltas, descalça debaixo da mesa. Que te afagava as virilhas com as pontas dos pés nus, como vi fazer num filme e tu, com o sorriso chique e um embaraço polido, a disfarçares o prazer que te rebentava nas calças, vincadas na perfeição pela criada da família; e a abanares a cabeça, resignado e divertido, quando te sugeria impossíveis e te propunha impraticáveis. Gostava de ti como és, eu com os tornozelos imperfeitos, os pêlos que escapam à gilete romba, o verniz das unhas lascado. Tu, deus pátria e família e eu a abalar-te a fé, a pisar a bandeira nacional e a arrastar-te os parentes pela lama. Tu, a pose de exilado real a banhos no estoril e eu, a plebeia de um só nome e do apelido comum, aos milhares nas páginas amarelas. Gostava de ti como és, a camisa de algodão às riscas, o relógio antigo do avô que te calhou em partilhas, as botas de montar ensebadas, os sapatos de vela no verão, o perfume italiano e eu, o desodorizante hipoalergénico e o creme nívea nos ombros, as chanatas enfiadas nos dedos, os lenços de seda ao pescoço, a filha de um deus menor enfeitada na loja chinesa. Tu, reaccionário, conservador, culto e irascível, e eu, um nadinha hipócrita e sobranceira, os pobres e o continente africano, a enfraquecer-te as convicções só porque me achavas estranha e me querias levar para a cama. Eu, a interromper-te com descaro a consoada na quinta do douro, as tias emproadas a tombarem os ouvidos moucos para o telefone velho da sala, a sondarem o teu rubor súbito e a chamarem-te menino. Eu, lunática e aluada, ontem como hoje, a acreditar que foste tu o leitor das dezoito e trinta que aqui andou por mais de uma hora. E que, enquanto me leste, não perdeste a postura nobre nem o vinco perfeito das calças (que as tuas mãos, não obstante, terão feito por amarrotar, enquanto me procuravas na pele e o sangue azul te fervia).

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escrito por sofia vieira às 18:45

brief encounter

07.05.08

Aprende-se a viver com isto. Como um defeito de nascença, uma doença crónica, uma carência vitamínica ou um incómodo sazonal (um pé boto, um lábio leporino, uma febre dos fenos). Aprende-se, como uma erupção cutânea, a vista cansada ou um ataque de asma. Ou como a minha avó, que um dia me disse ter vivido grande parte da vida com o fantasma mudo de um frade franciscano no seu metro quadrado: ela andava, ele andava. E como isto lhe fazia impressão quando estava com o meu avô, não pelo meu avô mas pelo frade, que nessas alturas lhe parecia aflito, sem sítio para onde fugir nem parede para a qual se virar, obrigado aos roçares pudentes das flanelas vestidas, na cama dona maria. Aprende-se a viver com isto, e a desvalorizar os encontros, as coincidências (nas datas, nos sítios, nos nomes) e os sinais premonitórios, como a forma de algumas nuvens no céu e certos desenhos que surgem do trilho deixado pelo voo tardio das aves. Aprende-se a relevar, o amor que imaginámos na rapidez de um olhar, o embaraço que pressentimos num modo de andar ou o constrangimento que quiséramos por conta de um desejo violento. E a achar normal e previsível que o telefone não toque, as notícias não cheguem e que a vida continue apesar de. Aprende-se a viver com isto, com o teu ectoplasma quase colado à minha pele, sem teres para onde fugir nem parede para a qual te virares, quando dispo as minhas flanelas e entro na noite de rompão, fingindo que não é para ti que fico nua no escuro.

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escrito por sofia vieira às 18:41

domicile conjugal

28.04.08

Por fim, dormimos em casas separadas mas, afinal, não se me multiplicou o espaço nem o ar que respiro: apenas se nos complicou a logística. Queria tanto para mim, este tempo todo, tendido como massa fresca na mesa da sala alugada, este livro. Mas tu insistes em aparecer por entre as letras, numa dança triste, e eu distraio-me. Sinto falta de quando sorvia parágrafos onde calhasse, num prazer clandestino, antes que alguém desse conta. Queria talvez telefonar-te e ouvir a tua voz, não porque te tenha saudades, mas só para te saber real e não apenas um projecto falhado. Costumava ansiar por uma refeição em paz, que pudesse atravessar num ruminar mudo, mas agora que ninguém me interrompe, levanto-me, sento-me, vou à janela, e o jantar congelado seca nas bordas do prato. Preciso de procurar o silêncio com a urgência de alguém que perdeu as chaves e está atrasado, e não de dar com ele, assim, em cada esquina. Não durmo, porque me falta o embalo ruidoso do teu septo nasal desviado; e esta música, francamente, nem me apetece, porque não abafa as vozes nem os gritos, porque não me aliena de ti. Havia um certo conforto em te saber ali postado, sempre pronto: era como enroscar-me num sofá velho que tem o meu cheiro de tanto uso, só porque não há mais nada. A tua falta é como estar sentada num banco de pregos a meio de um campo e gozar de uma liberdade dolorosa. Na verdade, ainda não senti o alívio que imaginei: em vez de expirar profundamente à espera de uma ressureição qualquer, dou por mim a arfar baixinho como um cão, a oxigenar-me com cuidado e à superfície, a ver se me aguento nas canetas. Aqui chegada, e não me encontro disponível, o que me soa a desperdício ou, então, a grande ironia. Às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha nova condição de amputada; outras, em especial quando a noite cai demasiado depressa, cedo ao pânico, como se num elevador parado entre andares. Nessas alturas, enrosco-me como um feto e só quero agarrar-me à barriga das tuas pernas e pedir-te que seja ainda a semana passada, quando chegavas a casa calado e o pior que acontecia era o tédio correr-nos nas veias. Há momentos em que dava tudo para que os teus pés frios, que sempre me desagradaram, arrefecessem este medo que me tolhe.

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escrito por sofia vieira às 18:40

ana karenina

28.01.08

Quando nada me dizes, acho que morro. Fico como que jogada aos bichos, órfã de sentido e de razão, arrimada para os cantos da vida, o corpo doente em fase terminal. Quando nada me dizes, não como, não durmo, e forma-se-me cá dentro um rolo de gritos calados, nos pulmões, na garganta e contra as paredes do estômago, quimo e quilo, quimo e quilo, num centrifugar desesperado. Quando nada me dizes, procuro abrigo e fico quieta, muito quieta, no silêncio infernal do olho de um furacão, na angústia iminente do cataclismo nuclear, parada e espelhada, como o rosto do oceano que anuncia a tempestade. Vou sem rumo e sem norte, por ruas que não sei o nome, sem reparar nos carros, nos outros, nas montras, não sei se nos saldos se já colecções de verão, não sei se tudo mais caro, se a crise, se a inflação. Quando nada me dizes, compro o jornal mas não quero saber de nada no mundo, só leio o horóscopo para descobrir se além dos cuidados com as finanças e com a alimentação, a semana me será especialmente favorável aos desígnios do amor, do meu amor. Quando nada me dizes, entro num modo vegetativo de estar, há um piloto automático que me guia o coração levando-o a lado nenhum, mas que me mexe os braços e as pernas, me articula os sons e as palavras e me forma sorrisos na cara, para que os outros não percebam que por dentro me resta apenas um sopro de vida, uma fímbria de alento e uma bola calada de gritos enrolados.

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escrito por sofia vieira às 19:34

finding neverland

13.09.07

Amei-te, mas nunca te amei, e este desconhecimento bíblico enredou-me numa linha invisível que me emaranha o futuro, penhorado nesta vontade incumprida que, volta e meia, me atiça os sentidos. Precisava que a realidade do teu corpo nu, em toda a sua incompetente fragilidade, me tivesse esmorecido estes desasados quebrantos românticos e a ideia peregrina de que dois podem ser um só, enquanto pássaros de cetins no bico atravessam corações rosa suspensos no ar. Precisava de ter constatado que o que te excita, me enoja e entedia. Que te tivesses atrapalhado no acto, mostrado incapaz de malabarismos e desajeitado nas cambalhotas; que tivesses confundido as coordenadas, traçado mal o azimute e acertado ao lado. Precisava de ter reparado, desagradada, nos pêlos do teu nariz, na barriga saída, nos cotovelos gretados, no dente cariado. Era fundamental, que te tivesses satisfeito sozinho e à missionário e eu, a imaginar como sair rapidamente de debaixo de ti. E que a culpa se tivesse sobreposto a qualquer lamiré de gozo, de modo a que eu tivesse tido vontade de recuperar o juízo e as cuecas do meio da nossa roupa, seguramente lançada para o chão com a urgência dos deuses. Precisava de não ter gostado de ti e de ter constatado, sem sombra para dúvidas, que não prestas por aí além, para poder largar de vez a ideia de que um dia terei de o confirmar, empiricamente e por escrito. Quando as coisas não acontecem, o vazio torna-se o espaço mais ocupado da sala onde estamos, trazendo consigo os prenúncios de uma implosão anunciada.

 

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escrito por sofia vieira às 23:03

the best years of our lives

13.09.07

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de te o perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo. Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.

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escrito por sofia vieira às 22:25

cat people

07.09.07

A noite é uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas doces e telúricas, trazendo-me o recorte da tua sombra chinesa a dançar pelas esquinas e cantos esboucelados das paredes do quarto, num bailado que se acoita nas horas mortas. A noite ronrona baixinho e compõe uma geometria perfeita de enganos, oferecendo-me mãos cheias de possibilidades enquanto eu faço que acredito e me rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, entornada de escuridão, arquejando pelo início do dia em explosões verosímeis de luz. À noite, arrepio caminho, papo léguas e devoro a distância entre nós até parecer que me tocam, os pelos que se te eriçam. É lá que às vezes morro e me transformo num fantasma de gesto lépido, seguindo-te os passos por corredores inventados. Há alturas em que me surges dos contornos da cordilheira de roupa atirada para o chão e do abandono de um sapato desemparelhado, volteado e caído qual naufrágio de um barco. Ris-te da minha volúpia de ombros tensos e virilhas molhadas e eu deixo. Porque a noite é uma mãe negligente, que tudo permite. É nela que me abro para ti como se me abandonasse ao chão sujo e desenhasse anjos na neve. E é nela que tu, com o peso de constelações inteiras, me entras certeiro, mesmo antes de a madrugada espreitar a gelosia entreaberta e começar a impor, às minhas pálpebras cerradas como uma casa devoluta, a realidade de todas as coisas.

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escrito por sofia vieira às 22:55

a place in the sun

05.09.07

Louvámos a praia até ao poente, nesse dia. O sol, passageiro clandestino, encarniçava-nos a gazeta, usurpada ao trabalho. Arranhavas-me por razões várias as pernas molhadas, fazendo com que os dedos dos meus pés se esticassem de prazer como os de uma bailarina em pontas e fossem deixando sulcos de limpa-areias ao fim do dia, na areia molhada, consoante te ias submergindo mais e mais em mim, um mapa batrimétrico entre as tuas pernas, e eu, cá dentro, uma rede de recifes de coral e grutas de uma anatomia simples, a encherem-se das tuas marés, a corroerem-se um século a cada nova enxurrada, eu, na vertical, a envelhecer debaixo de ti, um ser em camadas geológicas, corroídas pela paixão. As nossas sombras, mais estreitas a cada guinada do sol na direcção do nada, repetiam cada beijo enrolado em areia, cuspido no meu umbigo, a barriga, os braços, as virilhas, a tremerem de inveja das tuas explorações subterrâneas, tão meticulosas quanto trapalhonas. Foste tão pouco meu como o sol, na sua última curvatura roxa antes de desaparecer na linha do horizonte, uma linha que parecia desenhada por um miúdo a régua e esquadro lá longe, só para que soubéssemos que há coisas inultrapassáveis, como a pressão do oceano, as paredes de corais e os dias seguintes.

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escrito por sofia vieira às 20:59

four weddings and a funeral

08.08.07

Achas boa ideia, encontrarmo-nos? O que te faz pensar que, quando te vir, não te sitiarei a boca como a invencível armada, nem te rodearei por todos os lados, carregando sobre ti em formação tartaruga? Serás tão ingénuo ao ponto de creres que o passar do tempo me distraiu para sempre da assimetria da tua cara risonha e da desconjunção do teu corpo, mal arrumado nesse conjunto de fato e gravata? Não caias no erro de pensar que, com toda a certeza, o reencontro será fraterno e levemente saudoso, como uma consoada de parentes distantes, e que eu não te tomarei de assalto, ávida, guerreira, amazona pentesileia, fazendo-te meu prisioneiro para que me faças filhos e me caces o jantar, numa subjugação resignada. Não te fies, que muitos dias se atropelaram e correram, e eu trago em mim reentrâncias vazias como grutas de piratas, secos orifícios e ocos recantos que se me revelam no escuro, à boca da noite, quando me dispo de todas as cautelas. Pois sim que, entretanto, cuidámos dos nossos e abrigámo-nos da dor como da chuva ácida, mas é só eu querer e quando, à minha frente, inspirares fundo o ar que eu expiro (com aquela solenidade obscena de quem pondera o fim da vida na trave de uma ponte vazia), de pouco ou nada te valerá, bateres o olhar em retirada.

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escrito por sofia vieira às 22:49

the muse

31.07.07

Quando saíste, deixei de escrever. Quer dizer, escrever, escrevia, mas nada que me saísse das entranhas, então quietas como um bicho à escuta. Sabia que não lhes poderia mexer, às entranhas: sair-me-iam remoinhos de dor pela boca, às golfadas. Temi que a dor se infiltrasse ainda mais nas reentrâncias da própria dor, como se se comesse por dentro. Ter o que escrever, contradiria a minha vida de então, alimentada a restos de silêncios, a detritos de lembranças mudas. Costumavas chegar-me e, com um beijo distraído, soltavas as palavras que, aprisionadas nas minudências do dia, ansiavam por tal gesto: um gesto que lhes assegurasse a pertinência do amor. Depositado o beijo, e as palavras espreguiçavam-se, cinderelas despertas; respiravam, como um vinho velho depois de aberto. Não obstante a tendência que sempre tive para as calar fundo, por defeito e por feitio, trepavam-me, contrariavam-me, salmões subindo o rio na desova, e eu escrevia. Primorosa e conscienciosamente. Feliz, inventava histórias de amor com finais tristes e condoía-me. No fim, voltava para a cama e envolvia-te o ressonar com os braços mornos, confortada com a alteridade da ficção. Mas, aos poucos, a escrita deixou de me fluir fácil, predominante, eloquente, e passou a forçada, com hora certa, demarcada da escassez notória do beijo, cada vez menos distraído e mais compenetrado da sua condição de beijo. Por essa altura, já eu não dormia e caminhava por negras veredas, meio cega, perdida: um espectro dentro de um corpo, um sopro de vida, o reconhecimento apenas da fome. As palavras, deixei de as experimentar antes de as usar; de as provar, de lhes testar a síncope, pois tanto fazia, e, por fim, arrumei-as a um canto, como limpezas de Primavera. Saíste de casa e levaste-me o léxico, o talento, a vontade de lavar o cabelo e de conversar com deus. Um dia, muito mais tarde, ao correr da pena e ao virar da esquina, choquei com elas, velhas amigas que, inesperadas, se riam para mim (ou rir-se-iam de mim?), irrompendo-me no peito como o perfume de antigas namoradas.

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escrito por sofia vieira às 22:48

crazy, stupid, love

26.07.07

Tenho, dentro de mim, muita gente que se atropela. Uns, irritam-se quando mastigas, estranham-te o ressonar, deitam fora a aliança; outros, mordiscam-te os dedos, bebem-te os fluidos e acompanham-te o ritmo das flatulências. Há-os cerimoniosos, dados às vénias, aos salamaleques e às hipocrisias da corte; e há os que te invadem sem aviso prévio, te roubam a escova de dentes, dormem com a tua almofada e ocupam-te o lado do sofá. De quando em vez, irrompe em mim a brigada do ódio, com as suas fauces lisas, sedentas de guerra, que acarretam silêncios e, a espaços, um ou dois canibais, que te provam os braços e te cozinham a língua. Quase em permanência, um desfile de tristes, eufóricos, felizes e de suicidas, com as suas expressões de redil vazio. Há, ainda, o psicopata assassino, que te amarra os pulsos, te corta às postas e te assa no espeto; e amantíssimas noivas de branco despidas e teor virginal, que alternam com varas de putas gastas, que te exigem uns trocos, te fazem um broche e cospem para o lado. Mais do que o amor, a raiva, o nojo, o tédio, a sobranceria e o riso, sinto por ti pena, uma enorme pena: por nos rodeares e jamais acertares; por atirares às cegas, fazeres contas de cabeça, tacteares no escuro. Por não nos saberes nem nos adivinhares.

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escrito por sofia vieira às 22:47

shirley valentine

17.07.07

Quem dera, fosse tão fácil, despir-me de ti como deste vestido, quando a areia da praia me namorisca os pés; substituir o teu dedilhar virtuoso pelo escorrer do bálsamo protector e pelas estradas de sal seco que se me desenham nas omoplatas, depois de sair da água. Quem dera, desligar-te, como ao telemóvel; retirar-te a bateria para que te não estragues, te gastes em vão, atirar-te para os fundos de uma gaveta qualquer, inábil, inútil, silente. Quem dera, fosse tão fácil, trancar-te as portas como as da casa, três voltas à chave, deixar-te às escuras, de gelosias corridas e vidros abertos; quem dera, seres tu, a imperceptível aragem à qual viro costas quando saio e não volto; seres as contas acertadas, a luz desligada, o carro na garagem, a mercearia fechada e a rua vazia. Quem dera, poder descartar-te, entregar-te à vizinha para que de ti tome conta, te dê de comer; deixar-te em dia, como ao trabalho atrasado, arrumar-te numa resma ao canto da mesa com a caneta por cima, perfeitamente alinhada com os lados das folhas, à espera do pó dos dias dos outros. Fechar-te para obras, guardar-te na parte de cima e esquecer-te, como camisolas de Inverno, e não te usar porque me arranhas a pele, me apertas o pescoço, me fazes suar. Quem dera. Mas não. Carrego-te comigo, como bagagem em excesso na volta de uma viagem, três ou quatro souvenirs imprestáveis, very tipical made in china, uma dúzia de postais ilustrados sem selo, uma máquina fotográfica avariada à chegada.

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escrito por sofia vieira às 22:45

my best friend´s wedding

12.07.07

Tenho um fraquinho por ti. Convidas-me para um café, pedes-me um conselho, que tal esta gravata, que chatice, o selo do carro, que giro o novo modelo e eu, um fraquinho por ti. Telefonas-me que não dormes, preocupado, amolgado, que porcaria de dia, o IRS, a multa, o escalão, o modelo, o formulário. Queres a bica bem cheia, o bife mal-passado e dispensas, displicente, a sobremesa cubista, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhada, atenta, vidrada. Falas-me da família, da mulher que te controla, a chata, a querida, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, pressurosa. Que te apareceu uma alergia e uma antiga namorada, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, conheces alguma oficina. E eu que sim e um fraquinho, um fraquinho por ti. Que brilhantes banalidades, que importantes frivolidades. Uma áurea que te envolve como uma mortalha inspirada, o que dizes a parecer brilhante, dramático e engraçado, tens carradas de razão. Os olhos e os pulsos, tão estreitos e tão peludos, a pose arrufiada e a madeixa desarrumada. Um lanche, uma tarde, uma conversa banal, e eu esbugalhada, à beira de te levar a sério, e sai um baile de finalistas, um tiro no porta-aviões, os cinco do euromilhões, um solstício de Verão. Largas pérolas de sabedoria que sopras na minha boca, que abre e se arrasta, do centro até às bochechas, num riso quase devoto, fugaz e brincalhão, como um daqueles duendes que desarrumam as casas. Que gostas muito, muito dela, que és doido pelas crianças, as caraíbas e a eurodisney, que este ano é que vai ser, que maravilha, que homem amável, daqueles que não há mais, que grandezas vislumbro, nesta apologia sentida do entorno familiar, nesta pública devoção. E eu, fraquinha, fraquinha (fraquinha por ti).

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escrito por sofia vieira às 22:43

bleu

27.06.07

Exaspera-me, a estrita incumbência dos que vão chegando. É como entrar numa sala vazia, tendo o meu eco por agasalho. Depois da explosão de vida que me foste, os outros não passam de balanço estatístico, de contabilidade organizada, de um conjunto indistinto; na melhor das hipóteses, de um qualquer nome colectivo. Não te comparo: não foste melhor nem pior, não houve tempo. Mas é como se todos os que te seguiram fossem mulheres, crianças ou estátuas. Tu foste o gesto, a absoluta coincidência da perfeição do gesto. Foste o segundo que antecede a morte, o relance do meu nascimento, o resíduo do primeiro beijo, o resquício da dor de parto. Foste uma boa ideia que dava um filme, uma coreografia arrojada, uma música em estado de graça. Depois de ti, os outros não passam de uma desculpa esfarrapada, de verbos de encher os meus dias, tempo a mais que tenho entre mãos. Amo-os por bondade, como se me tivesse tornado freira, voluntária em África ou puta altruísta. Tamanho o buraco negro que escavaste em mim.

 

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escrito por sofia vieira às 22:42

the others

16.06.07

Podia continuar assim para sempre. A escrever sobre o que não vivi, o que não tive, o que perdi: um tratado sobre o desencontro, a incompletude, o extemporâneo. Compêndios acerca do pouco, do raso, de como de um cesto se faz um cento e das tripas, coração. De como sou boa, em espremer o tutano, em, no meu colo vazio, rosas; de como me aprumei, em dos restos fazer um festim, roupa velha de amor desfiado, a criar factos perante argumentos, desmanchar e voltar a fazer, água mole em pedra dura. Podia continuar assim, bela eterna sem senão, um pássaro na mão, coração quente, amor para sempre, a palavras de prata, difíceis como bilros, sem silêncios de ouro. A acarinhar-te a lembrança a tratos de polé, com mil cuidados e caldos de galinha, amor querido, amor batido. Podia continuar assim para sempre. Afinal, ele há mil maneiras de morrer.

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escrito por sofia vieira às 22:41

existenZ

12.06.07

Vejo-te naquela névoa baixinha que enfeita os sonhos que abrem alas ao espavento da madrugada. Trazes contigo toda a vontade do mundo, avanças sem medo, corres na minha direcção como a parte pirosa de um filme, em câmara lenta, e desaguas um sorriso longitudinal no ar quase parado. Projectas para trás o penteado fora de moda, enquanto eu vacilo, algures entre a alteridade do espectador e o envolvimento da personagem. De pé à tua espera, carente, orgulhosa parada, não sei se triste se contente, porque não me vejo, apenas me percepciono. O dia, entretanto, a fazer-me olhinhos, namoradeiro, enquanto as persianas fechadas rangem com o calor súbito da manhã e se espreguiçam, alheias. Então, como num pesadelo de criança cuja mãe lhe foge, ultrapassas-me o olhar, expectante para com o que encontras para além de mim, por cima do ombro da minha vista. Eu a chamar-te e tu agora de costas, como se me tivesses atravessado um espectro. Viro-me para trás, a tempo de ter ver desaparecer as fraldas da camisa suada na esquina. Fico pregada ao chão. Tenho cinco anos e pregada ao chão. A minha mãe, que não me ouve; o elevador que cai e nunca se despenha. O meu corpo num ângulo estranho, desafiando as leis da gravidade, e eu a torcer a garganta, a espremer um grito, um alinhavo de som. Acordo e abençôo o dia, agradecida, aliviada: não por ter entretanto acordado, mas sim por tu não teres parado.

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escrito por sofia vieira às 22:36

gone with the wind

10.06.07

Tinhas de arranjar maneira. De me fazeres começar o dia baldeando-me de novo para os teus lados. Maneira, de me pores a espreitar pelo retrovisor, a vasculhar as ruas, a medir o perfil de quem pára ao meu lado no sinal. De me fazeres faroleira, a apontar para o mar de carros que engole a cidade a cada manhã embaciada, vasculhando marcas, modelos, matrículas, sinais de alerta. Tinhas, de me levares a controlar este, o outro, quem sabe aquele ali que dobra apressado os cantos da esquina e rasa a velhota que, pendurada num saco de xadrez por onde espreita uma couve portuguesa, se atreve à passadeira. De arranjar maneira, enquanto sorvo o galão a escaldar cuspindo vitupérios (estúpido, pedi morno), trinco a torrada do meio ou começo a ler o jornal, do fim para o princípio (nunca leio o mais importante). De seres este homem à minha frente, de ombros magros alteados pelos chumaços do casaco, como se dissesse que não sabe, que não se importa, com um traseiro triste que mal enche as calças e umas mãos de aranha que não têm lugar vago nos esconderijos do corpo, nervoso, miudinho. Tinhas de arranjar maneira, de me dares o troco na banca dos jornais, enquanto me espreitas por detrás de notícias sobre meninas desaparecidas, ditaduras que oprimem e ditadores que enlouquecem. Maneira, de seres todos e nenhum. De voltares à minha vida, arranjada, ordenada, cronologicamente serena, perfeitamente editada como um bom filme dos óscares (voltaste à minha vida). Agora, arranja maneira, diz que sonhei, que estou a inventar.

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escrito por sofia vieira às 20:57

l´amour en fuite

28.05.07

És um tipo vulgar (e pensar que foste um deus). Tens pouca piada, até me custa a lembrar, o quanto me fazias rir, o coração descompassado e o formigueiro entre as pernas, um humor incendiário que me apetecia rasgar e devorar, num ímpeto pré-histórico. Quando bastava uma pilhéria, uma chalaça, uma laracha. O que escreves, lê-se. É assim mesmo: lê-se. Lê-se bem, como uma receita que queremos tentar, uma notícia de jornal, um anúncio, um letreiro de dentista, um sorriso ao canto da boca, de passagem. Mas pouco mais. Tempos houve em que te achei um quase génio da escrita mundana: vivo, provocador, uma invulgar destreza no entrelaçar de sentimentos proibidos, nos finais inesperados. Afinal, era apenas eu que não te esperava, que não te sabia assim, como és: vulgar, um tudo nada pretensioso, a exibires as letras como se um cachimbo ao canto da boca, um lencinho ao pescoço, um bigodinho cuidadosamente aparado, biqueiras reluzentes, o ego inseguro à espera do afago amoroso de terceiros. Apaixonada, imaginava-te um dom, e sonhava com a fatalidade de honrares a minha existência com o resto dos teus dias de excepção. Hoje, nem por nada quereria o óbvio tédio da tua vida, na minha. Excitava-me, então, a falta de pontuação, de maiúsculas, de vírgulas, de iniciativa, de um pouco de loucura. Uma roleta russa, perigosa, o jogo matreiro no qual descobria os teus significados ao virar de cada frase. Hoje, constato que és previsivelmente simpático, normal, um bocadinho entediante, até. Lamento, não te detesto, como decerto me preferirias: para mal dos teus pecadilhos, apenas me desinteressas. A cor dos teus olhos, afinal, não contém o mar, muito menos o céu: a cor dos teus olhos, não passa de uma composição genética de fortuito bom-gosto.

 

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escrito por sofia vieira às 23:59

everyone says I love you

18.05.07

Ponho-me a saia de ganga rasgada, a de que não gostas porque demasiado curta; invento-me loura natural, depilada, as unhas subitamente crescidas. Treino o olhar disponível, exagero o contorno dos olhos, repuxo as pestanas de preto e enrolo-as para fora, cor de cereja nos lábios. Espalho rubores pela cara, componho-me, numa pintura alegre e garrida. Inspiro o ar cá fora, emergindo de um longo mergulho, e percorro as ruas num passo rápido, urgente, como se o futuro estivesse ali mesmo ao virar da esquina, impaciente, à minha espera em horário útil, nem um segundo a mais; o futuro: um funcionário público com pressa de chegar a casa. Percorro as ruas com uma alegria inesperada e deixo que as gargalhadas me trepem, saguis pequenos e nervosos. Sigo o caminho a direito das domésticas, com os seus avios de supermercado, o passo errante das miúdas de liceu, com os umbigos e o riso à mostra; sigo os passos cautelosos dos velhos, com as suas hesitações e pausas para descanso, e o trilhar sonoro das empregadas de balcão, agarradas ao telemóvel, a contarem os trocos para o tabaco. Enquanto me ensaio e me descubro sem ti, sou a sombra feliz de toda a gente.

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escrito por sofia vieira às 23:57

sleeping with the enemy

10.05.07

Que vergonha, agora, quando penso nos disparates confessados, nas juras de amor sôfregas, remoídas na solidão do quarto, as paredes a fazerem-te as vezes. Que vergonha,tantos despudor e promessas aos santinhos da minha devoção, para que te pusessem no meu caminho, para que não pudesses viver sem mim. Que tolice, tantos impropérios gritados em silêncio, as febres, a fome, o choro contido nos entremeios dos lençóis. Eu, amarrotada, como os lençóis. Que perda de tempo, a pedinchice desnecessária, a choraminguice, o beicinho inútil. A paixão é uma cegueira danada, uma solidão desmiolada, egoísta, absorta, desligada. A paixão afugenta o bom-senso, a razão e a bondade das coisas, de todas as coisas. Enquanto ilumina o outro como um vitral de igreja e o refracta para todos os lados, num bailado colorido, acinzenta e esbate as formas do que é importante. É injusta, mentirosa e supérflua. Mas, um dia, estranhamente, quando menos esperamos, o nosso eu adormecido, o capaz de amar mesmo algures alguém e muito, desperta do sono envenenado como a princesa de uma fábula; sacode dos ombros os restos do seu sonho moribundo e acorda para a vida verdadeira, para os caminhos sinuosos do Amor de Facto, aquele que sobrevive nos meandros entediantes das afecções diárias. A paixão é um rebate falso, uma promessa de nada, uma perda de tempo e de saúde, dez passos à retaguarda, cinco à caranguejo. Por isso, regozija-te: estou finalmente acesa para a vida e alegremente te digo, nunca saberás o que perdeste.

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escrito por sofia vieira às 23:54

los abrazos rotos

27.04.07

Ufa, que já cá não estás. Chorei-te pelo dia fora. Saíste-me suavemente, pela ponta da língua, dos dedos, dos cabelos. Esfumaste-te. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada. Escoei-te, apenas. Vieste agarrado a umas poucas de lágrimas, apanhaste boleia nelas, como se descesses uma onda, e escorreste pela minha cara até ao chão. Eu, a fungar e a limpar o ranho, e tu, a saíres-me aos poucos: primeiro um braço, depois o outro, a seguir as pernas, os pés, o sorriso, tu inteiro. Não sei que fenómeno físico se deu, que reacção química ocorreu, para que me desintoxicasse assim de ti, finalmente frívola, finalmente fútil. Escorreu-se-me a vontade de te rever, esqueci aquilo que ainda achava ter para te dizer; esgotaram-se-me as saudades que éramos suposto, um dia destes, matar, com horas de conversa fiada e vista para o rio. Hoje, pergunto-me como foi possível, ter durado tanto tempo, aquele estranho amor invertebrado, teimoso e atrevido; ter marinado, curtido, defumado, assim, dentro de mim. Agora sou livre, constato-o, sem esforço: não mais as pernas apertadas de desejo nas curvas traiçoeiras da noite. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada, apenas deixar o tempo e a distância, obreiros do desamor, trabalharem entre nós, cavando a dissolução dos contornos do outro. Ufa, que já cá não estás. Chorei-te. Não mais.

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escrito por sofia vieira às 22:36

meet joe black

26.04.07

Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.

 

 

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escrito por sofia vieira às 23:52

doctor zhivago

22.04.07

O nosso tempo é no Inverno, não nesta promessa de estio e de cansaços estirados ao sol. Nós, é mais não nos darmos as mãos enluvadas, enquanto o calor se solta do corpo em espirais de desejo e embate como vapor na atmosfera gelada de Fevereiro. Nós, é os casacos apertados até cima, as golas levantadas e as pontas do nariz vermelhas, não sei se de frio, se de choro, se de vergonha ou pudor. O nosso tempo, não é o das praias de areia branca e águas cristalinas, nem o dos cocktails à discrição, como anuncia o folheto; muito menos o tempo em que a maresia se derrama sobre nós e o sol a pino nos invade a lassidão dos dias. É, antes, o tempo dos fios incertos de bafo quente que emanam das nossas bocas ansiosas, demasiado próximas, demasiado longe, e dos cachecóis que se enrolam no pescoço de cada um, como nos enrolávamos cerimoniosamente um no outro. Nós, é os corpos vestidos, as frieiras e bocas encieiradas, a uma generosa e conveniente distância. Por isso não a quero, à suavidade deste estio que se adianta, nem às carícias deste vento suão. Quero sustê-la, para que nunca me ultrapasse e me fuja, a lembrança dos teus olhos fechados, das tuas pálpebras caídas sobre as maçãs do meu rosto, afogueadas, dormentes de frio. Não quero esta promessa de férias: as tuas férias não são as minhas e não é tua, a minha praia. Quero ficar para sempre com a tua pele fria e arrepiada quase, quase na minha, sem teres por onde fugir. No fundo, quero apenas um truque de feira, uma magia barata, de cinco tostões, que me ajude a não te perder nunca.

 

 

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escrito por sofia vieira às 22:32

the last kiss

16.04.07

Nada mudou. Continuas a aldrabar-me: está na tua natureza; continuo a desconfiar de ti: está na minha. Nada em nós é verdadeiro, excepto o facto de dormirmos costas com costas e de, mesmo assim, eu afinar o ouvido na tua direcção à espera de uma evidência que me leve a odiar-te legitimamente. À noite, descortino as sílabas de outros nomes nos silvos do teu ressonar; de dia, penso de quem será a mensagem que recebeste e porque razão não me atendes às três da tarde, quando o resto da cidade fervilha de disponibilidade e trabalho. Os nossos fins-de-semana estendem-se para além da vista como uma paisagem deserta e até o fosso da labuta diária é melhor do que as línguas de silêncio que nos lambuzam os domingos. Em cada gesto teu antevejo fuga e memórias protegidas por palavras passe de muitos dígitos e caracteres, nas quais te enrolas e reconfortas. Compenso a humilhação que é espreitar-te o fuso dos dias com o orgulho de não deixar que me toques, que sequer te aproximes: serás de outra, não sendo meu. Invento que esta altivez é o teu castigo, mas desconfio que seja antes o teu alívio. Continuo a ver, nas manifestações do teu corpo, provas irrefutáveis de desamor e de desconforto, como se a tua falta de apetite fosse mais do que o simples marinar de uma gripe, ou o teu balbuciar engasgado, quando acordas de repente, não resultasse da sinusite que te entope a cada inverno. Persistes em achar que o amor nada tem a ver com sexo e eu, que o facto de assim pensares mata o amor, fazendo-me recusar-te o sexo. É tamanho o vazio, que a mais breve discussão insufla o nosso quarto de uma espécie de paixão, de reconhecimento mútuo, de vivacidade inesperada, como se a sinergia súbita entre dois seres que habitualmente se ignoram pudesse delinear entre ambos um carreiro de afectos. Somos dois egos letárgicos que se acomodaram ao convívio mútuo: tu, com os meus cremes e desconfianças espalhados pelo lavatório; eu, com as tuas toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão. Nada mudou.

 

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escrito por sofia vieira às 20:42

little children

08.04.07

Nunca me deixaram antes, sabes, fui eu sempre que fugi, trancas à porta, adeus que se faz tarde. Nunca me esqueceram primeiro nem nunca amei quem não me amou. Não é presunção, é questão de me fazer todo o sentido: o Amor é um encontro de vontades no espaço sideral, é um nó que flutua, solto, mas que não se desfaz enquanto as duas pontas não se desentrelaçarem em simultâneo. Como poderia amar-te se tu não me amasses de volta? Como poderia amar-te sem conhecer, compreender e aceitar os termos do teu Amor? Se apenas eu te quisesse, o meu querer seria a ponta solta de um cabo eléctrico à deriva numa poça de água, sem rumo, apenas à procura de fazer doer a alguém. Por isso acho estranho, continuar a chorar às escondidas por ti, quando, supostamente e de acordo com todas as regras do bom-senso e da boa vida, tu já nem te lembras que existo. Que sentido faria, encolher-me os joelhos como uma miúda acossada pelos mais velhos e remeter-me, triste, o rosto entre mãos, para o canto do recreio, se tu não recordasses ainda os traços que me compõem o rosto? Seguro de que não te amaria, se não viesses igualmente ao meu encontro, se não corresses algures na minha direcção. Nunca poderia ter continuado a dar-te colo, se me tivesses virado as costas, nunca poderia amar-te as costas, o teu encolher de ombros, esse gingar de ancas desacauteladas. Não entendes? Tens de estar à minha volta, a rondar-me a teimosia, para que eu ainda me lembre de ti. Tens de, por vezes (só por vezes, é o que basta), dormir comigo e de me fingires tua companhia ao almoço, para eu ainda te ter tanto carinho. Tenho de continuar presente na vontade das tuas mãos, na ponta dos teus dedos. Se eu ainda te amo é porque nos encontramos com frequência a meio caminho um do outro, sobre um lago gelado,um campo de trigo, uma estrada deserta. Ou no reflexo de uma chávena de café, no períneo da cidade morta.

 

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escrito por sofia vieira às 23:48

oci ciornie

19.03.07

Um ano. Um ano cheio de fins, em que todos os dias te esqueço. Um ano cansado de ouvidos e de dedos à escuta, na mira de um suspiro teu, de um relance foragido, de um sopro. Um ano repleto de palavras minhas e parco em palavras tuas, de memórias brumosas, como fantasmas de piratas no nevoeiro, sem rumo. Um ano de um querer solitário e a noção risível de quão patético é o amor de um lado só. Inevitável, avassalador, incumprido, no seu silêncio emparedado. Sempre a fingir que não é nada, que não foi nada. Caíram, entretanto, muitos factos sobre mim, coisas, chatices, conteúdos programáticos: encheram-me até cima, até toda eu ficar ocupada em trabalhos, até o meu último fio de cabelo ficar com a agenda preenchida. Não adiantou: um ano, dois anos, dez anos, nunca deixarei de pensar em ti, de te querer e de fazer caber um bom bocado de ti dentro de mim. Mas não to digo, nem pensar: não suportaria que me olhasses com a estranheza e a perplexidade dos indiferentes, como se olha um maluco desdentado que nos pedincha um cigarro na rua.

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escrito por sofia vieira às 23:46

from here to eternety

09.03.07

Louvámos a praia até ao poente, nesse dia. O sol, passageiro clandestino, encarniçava-nos a gazeta, usurpada ao trabalho. Arranhavas-me por razões várias as pernas molhadas, fazendo com que os dedos dos meus pés se esticassem de prazer como os de uma bailarina em pontas e fossem deixando sulcos de limpa-areias ao fim do dia, na areia molhada, consoante te ias submergindo mais e mais em mim, um mapa batrimétrico entre as tuas pernas, e eu, cá dentro, uma rede de recifes de coral e grutas de uma anatomia simples, a encherem-se das tuas marés, a corroerem-se um século a cada nova enxurrada, eu, na vertical, a envelhecer debaixo de ti, um ser em camadas geológicas, corroídas pela paixão. As nossas sombras, mais estreitas a cada guinada do sol na direcção do nada, repetiam cada beijo enrolado em areia, cuspido no meu umbigo, a barriga, os braços, as virilhas, a tremerem de inveja das tuas explorações subterrâneas, tão meticulosas quanto trapalhonas. Foste tão pouco meu como o sol, na sua última curvatura roxa antes de desaparecer na linha do horizonte, uma linha que parecia desenhada por um miúdo a régua e esquadro lá longe, só para que soubéssemos que há coisas inultrapassáveis, como a pressão do oceano, as paredes de corais e os dias seguintes.

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escrito por sofia vieira às 22:26

the remains of the day

31.01.07

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo.Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.

 

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escrito por sofia vieira às 23:35


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