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for whom the bell tolls

03.05.06

As pessoas vão nos atravessando como balas: muitas, sentimo-las zunir junto aos ouvidos em prenúncios de queimadura e pouco mais; algumas, raras, penetram-nos nos ossos e abancam, quietas até ver, no reboliço das nossas entranhas. Somos todos feridos de guerra com estilhaços de outros alojados no corpo, a dispararmo-nos alarmes de aeroporto e de loja, a sentirmos por antecipação a invernia, quando a humidade pegajosa da ausência nos recorda as placas de titânio que nos seguram as articulações, para que o andar não se nos falte e não fraquejemos em demasia. Pós-traumáticos sem terapia, qualquer explosão abafada de um escape na avenida à tarde, é para nós um obus, atracado à morte certa. Nunca enterramos de vez os que nos estão mortos-para-o-coração, e muito menos fazemos deles um luto minimamente decente: carregamo-los às costas, como mochilas de campanha atulhadas de armas e enlatados, como kits de sobrevivência dotados do indispensável para emboscadas futuras. É claro que, uma vez à mercê da escuridão do mato, com o cheiro do Amor por perto (esse inimigo silencioso que se esgueira e nos tocaia) aligeira-se-nos a carga e tendemos a esquecer tudo o que até então nos havia ocupado por dentro. Com sorte, passa de raspão.  

 

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escrito por sofia vieira às 21:58



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