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the outlaw

01.06.06

Tem-te não caias, não me dês trela, sabes que mordo e que engulo o isco como tainha a retorcer-se no lodo, que sou boa boca, que estico a conversa e me estendo ao comprido. Não me dês nada, que te peço depois mais. Depois é demais. Diz que ligaste mas foi por engano, que me temeste à mercê de febres e da solidão, que nem te lembras do abandono do teu corpo na longitude cansada do meu e que jamais trocarias a liberdade das tuas noites pelo resgate dos meus dias. Desculpa-te com o trabalho, tu nem cinema nem telejornais, que nada sabes das desgraças do mundo, nada de mim nem do aumento do défice. Tem-te não caias, compõe-me esse rosto, faz-te esquecido do meu meio das costas (onde se me acaba o cabelo) e do tom dos meus pulsos e dos meus tornozelos: esforça a memória, franze a vista e ensaia uma expressão de recolecção de lembranças. Amarra-te os dedos em pulgas, arranja uma tendinite ou umas cãibras a granel, que não podes escrever, que estás proibido dos médicos de empatares assim as palavras na ponta retorcida dos teus anzóis. Aguenta, resiste, que amanhã é outro dia e tu vês que não caíste, foi apenas uma tontura. Redobra-te os cuidados quando te debruças sobre os meus varandins e resolves espreitar-me para dentro, porque eu mordo e mordo e mordo (com um maxilar preciso de crocodilo com fome), o engodo com que insistes em entreter-me as horas.

 

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escrito por sofia vieira às 22:07



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