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et dieu crea la femme

13.06.06

Acordo afoita, a apetecer atrever-me ao de que fujo a sete pés; quero apanhar-me à tua porta, a pedinchar ao acaso um relance teu que seja e talvez encontrar-te, num repente distraído, pelas esquinas de Lisboa; vou, ainda hoje, descortinar a aparência do teu rosto na estática ruidosa do televisor e, quem sabe, aperceber-te subitamente na geometria descuidada da dobra do guardanapo. Por enquanto, espreguiço-me e esbanjo indolência, e imagino que se te me declaras e me exaures, aqui na cama e contra a parede, e que eu não quero nem saber que a oeste nada de novo, que seja sempre só mais do mesmo e que de pouco ou nada serve, apontar-me parabólica para o satélite que és tu, numa captação pirata de fios e de cabos colados a cuspo, que redunda sempre em emissões clandestinas (de fraco sinal, por sinal). Sais por que lado, para que te espere? Estás nas chegadas? Trazes o Amor na bagagem de mão ou voltaste a esquecê-lo, num balcão qualquer do free shop, nas costas da cadeira do passageiro da frente? Vou esperar-te e, desta vez, levo-me comigo, para que me tomes logo ali, sob os bigodes atarracados de espanto dos agentes da guarda fiscal, no balcão frio da alfândega, por entre o confisco das sony japonesas e dos charutos cubanos. Tens-me na exacta medida das tuas mãos, madura para que me colhas, em ponto de rebuçado e mesmo, mesmo à tua beirinha (repara: até os cantos das minhas manhãs te pertencem). Colou-se-me à cara um sorriso tolo, orvalhado, que me alivia. Telefonas-me?

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escrito por sofia vieira às 22:16



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