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le mépris

06.06.06

Aguardo-te, embora nem sempre te espere. Mesmo quando pretendo que nada me sejas, aguardo-te inerte, junto a mesas partidas e a lâmpadas antigas, com traças pousadas no nariz e aranhas que desfiam as suas teias por entre as minhas falanges abertas. Aguardo que te rebentes como um dique e que inundes tudo à tua passagem, ensopando terras e arrastando telhados, na torrente inevitável que será desaguares-te em mim. Serei então o declive, a descida a pique num ângulo impossível, o resvalo mais perigoso e a zona estupidamente baixa para onde encaminharás as tuas águas passadas. Aqui, onde é sempre inverno e cheira a aventuras de piratas e ao lodo das marés, ser-me-ás presente. Aguardo que tenhas frio outra vez e que entre nós se sobreponha a tonelada de roupa que então não soubemos arrancar e que tentámos aligeirar com o rendilhado da adjectivação excessiva. Mas também aguardo o contrário: que esta promessa de estio me permita roçar vagamente o ombro no teu cotovelo distraído. Aguardo-te no ar que vou farejando como um perdigueiro, no ouvido de batedor experiente que tem dias colo ao chão e neste pau de vedor que seguro entre mãos e que teima em apontar para ti. Sabes que te aguardo (embora nem sempre te espere) e que um dia virás e cairás, por fim, exausto, nos meus braços de lama e que nos amaremos por entre os destroços da enxurrada, até que alguém nos resgate.

 

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escrito por sofia vieira às 22:18



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