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chocolat

23.05.06

Com um pé ainda nos sonhos, mas outro já vigilante, arrisco um duche ao banho de imersão; seco-me à pressa e visto menos roupa do que aquela que aconselhariam os humores bipolares da Primavera; falta-me um casaco de malha, um bolero, talvez, que me aconchegasse os braços, nús das tuas mãos (e os meu pêlos adormecidos, sem por que se eriçarem). Saio de casa, dou uma volta à chave, ignoro a prudência das duas da praxe. Na pastelaria da esquina, engulo meia sandes de queijo e enxoto o torpor matinal com uma bica muito curta. Dos olhares desinspirados dos transeuntes, que desenham esquadros no pavimento com passadas renitentes, retenho para aí uns cinquenta por cento. Chego ao escritório. Sobre a secretária, respira um relatório comatoso, composto de duas páginas ao invés das quatro que me haviam sido pedidas, enquanto as vistas da minha janela, dotadas de inesperada lonjura, repuxam com insistência as meias mangas da minha atenção. No entretanto, finjo um interesse colorido que vai bem com tudo o resto. À noite, enroscada num dos lados do sofá, degluto dois quartos de lasanha semi-descongelada, vejo o filme até ao segundo intervalo e acabo esmagada no doce almofariz do cansaço e da inevitabilidade da perda. Arrasto uns farrapos de consciência até às entradas do sono, que me chega pontilhado por imagens de ti - de uma das tuas orelhas, do teu olho direito, de parte do teu cabelo e da tua mão esquerda, que gesticula no ar para que eu a apanhe: do teu corpo, enfim, que acarinho à distância mas nem mesmo assim por inteiro. Falas-me em três beijos, contei pelo menos seis. E tem sido assim desde que te foste: a minha vida pela metade.

 

 

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escrito por sofia vieira às 22:23



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