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kill bill

01.06.06

 Vamos ficando por nós. Deixamo-nos assar lentamente ao fumeiro da indiferença, pendurados com o juízo para baixo e a razão de pernas de pernas para o ar, pingando gordurosos desalentos. Como cobras em tempo de muda, curtimo-nos peles e dores e largamo-las pelo chão (açaimado a folhas apodrecidas), onde vamos perdendo o que um dia fomos. Neste espaço, que já não nos pertence e do qual se apoderou um ser estranho e dual (alheio à unicidade convexa que em tempos nos confundia as cinturas), feito de duas partes que se desvariam num guerreio de singeleza abrupta, adoçado a tréguas de sexo e de língua. Vamos ficando para trás: em batalhas insones, às turras contra as paredes da casa, aos tropeções nos tapetes coçados bordados a mágoas de fio de ouro. É uma criatura peluda, com três olhos, de garras afiadas e de instinto cruel, esta que agora circula por aqui empestando o ar com o seu hálito de flores murchas e que volta e meia resolve suster-se, como se num fio de arame onde tivéssemos resolvido equilibrar os nossos vazios simétricos. Move-se em velocidade de cruzeiro, o monstro, exibindo airoso duas caras-metade, transformadas agora em duas caras-pela-metade: uma para cada lado, como as cabeças de uma hidra ou um par de gémeas siamesas coladas pela espinha dorsal, unidas a contragosto mas reféns de vontades distintas e, por isso, dispostas a rasgarem de alto a baixo a raiz comum de onde provêm, o tronco que as alimenta, o eixo que as sustém.

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escrito por sofia vieira às 22:25



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