Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



pillow talk

10.06.06

Não me telefonas e eu não há meio. A tristeza é um corpo estranho que trago em mim porque tu não, como uma bala perdida que se me alojasse na omoplata e me incomodasse nas noites húmidas ou cientistas extra-terrestres que me tivessem implantado um chip à sorrelfa no cérebro, a comandar-me à distância a existência vegetativa. Não me telefonas e o dia sempre cinzento, de uma névoa elástica que não se rompe e vai resistindo à insistência perfurante do sol de Junho. E eu, como um domingo sem companhia ou um parque de diversões fechado para obras, porque nada me dizes. Ao telemóvel, tiro-lhe o som, perfil silêncio, se não me ligares não o saberei, presumo que hesitaste e deixaste mensagem, tão certo como o uivar dos cães ao sino da igreja para a missa da manhã. Nada me dizes e eu. Que pespeguei com a maior bandeira de portugal do mundo na varanda das sardinheiras, que vesti a mini-saia curta e me abalancei a um penteado menos rente à cara, que afinei a voz para que te soem alto os meus queixumes trinados e estes pregões indecentes de varina no cio. Eu, de letreiro na testa e de alvo encarnado desenhado no umbigo, a ver se me acertas em cheio, mas tu não ligas, é tarde e o cheiro do Tejo vazio invade-me a casa e circunda o colarinho da camisa que esqueceste enrodilhada, aos pés da minha cama, por uma destas noites. O teu silêncio de apneia é como mergulhar no escuro fundo de um oceano onde dormissem cabozes cegos, baloiçassem lulas transparentes e vegetassem corais desmaiados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

escrito por sofia vieira às 22:31



Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.


Pesquisar

  Pesquisar no Blog