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intolerable cruelty

10.06.06

Sonhei contigo no banco dos réus: estás de pé, mentes-me quanto aos antecedentes criminais e indicas-me falsa morada. Despes-me a toga (a beca?) com os olhos e soltas-ma dos ombros com a dentada do teu riso escarninho. Sustenho-me os sentidos, enquanto te interrogo sobre os factos que te trouxeram aqui e que nos perderam. Devia pedir escusa por conflito de interesses, pois dano-me por te condenar, sem apelo nem agravo, no limite máximo da pena, pelos rebordos da injustiça. Não a substituirei por multa nem deixarei que a pagues com trabalho comunitário, nem sarjetas nem jardins, a não ser que me entendas junta de freguesia. Sou juiz em causa própria, advogada, acusadora, cúmplice e testemunha; sou a funcionária que gritou o teu nome à chamada. Pedes clemência, que te redimes, mas eu, com a devida vénia a todos os presentes, acabo contigo. Agiste livre, voluntária e conscientemente, com dolo mais que directo e apontado aos meus reconfins. No olhar de viés para a porta aberta, é pública a audiência, adivinho-te a intenção de fuga e sinalizo a autoridade, barriguda e abigodada, distraída com os resultados da jornada anterior, mas é que nem penses. Quero-te a pão e água, papillon de estimação na limpeza das latrinas, a estirares a tua insónia pelo chão da solitária (onde relembrarás em excesso as nossas noites criminosas). E cumprirás pena até ao fim dos teus dias, partindo pedra, bordando arraiolos e montando carris, pois vais igualmente condenado nas custas do processo, acrescidas do muito que me tens custado a mim.

 

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escrito por sofia vieira às 22:32



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