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ópera do malandro

12.06.06

Todos os dias te ponho com dono, as malas à porta, te vejo pelas costas. Todos os dias me voltas, trocando-me as voltas, a pedires batatinhas, jeitinhos e abébias, a fazeres beicinho, de monco caído, a chorares-me os pedaços que ainda achas que te cabem (do jantar, do colchão, do meu corpo gelado). Por entre os vapores de álcool que emanam dos teus olhos de cão vadio, aproveitas-te da minha fragilidade estremunhada e prometes-me outra vida, recomeçar do zero, desta vez é que é, nunca mais, nunca mais. Vais falando e pedindo, implorando e jurando, mas os primeiros acordes da cidade distraem-me dessa sempiterna ladaínha. Enquanto os gatos se equilibram nos beirais e regressam a casa e os cactos cuscos espreitam pelos vidros baços das águas furtadas, vais falando e eu perdoando-te, num desfile de bocejos resignados. A madrugada que se escancara sobre os telhados tortos e tu a adormeceres-me nos braços, dormentes do teu peso na minha vida. Mentalmente, pego-te na roupa vomitada, na lábia aprendiza de caixeiro-viajante, no sorriso infantil com que sonhas com outras e nos roncos em que destilas a aguardente barata, e atiro tudo janela fora, num enrodilhado desprezível que se desfaz na calçada, com um estrondo implosivo. Parece que acertei num gato, azar. O dele.

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escrito por sofia vieira às 22:34



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