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the bridges of madison county

13.06.06

Nada disto é Amor, bem sei. Esse está aqui em casa, entre quatro paredes. Está na camisa dobrada com o cheiro fresco do sabão de massília, no brilho do prato de sopa acabado de sair da máquina, no sonasol lava-tudo escondido no escuro da despensa, na novela das nove partilhada a contra gosto, na mãos dadas que vão ao embalo da cusquice morna das montras de domingo, nos esgares de orgulho ao melhor flic flac da turma, no azeite quente na barriga a ver se alivia, é receita da avó, na migalha ao canto da boca afastada com o polegar do outro, no sereno deambular pelo vazio do corredor à noitinha, no riso e no sexo alimados entre os lençóis, no copo de leite a mielas às cinco da manhã e no cobertor que nos tapa com jeito as pernas frias, adormecidas no sofá da sala. Desaparecêramos do mapa um do outro, e em nada nos desviaríamos do nosso eixo existencial, da espiral de afectos que nos governa os passos. Por isso, descola a tua boca do meu ouvido, retira a tua língua da minha trompa de eustáquio, não me lambas assim o suor da pele nem me mordas ao de leve a cartilagem da orelha. Some-te, como um mau actor, na penumbra dos holofotes avariados, e não me erices o corpo com os sussurros atentos do teu desejo incumprido, que esse tocar à distância não passa de invólucro de nada, de embalagem de correio com porte pago, insuflada a bolhas de ar mas vazia por dentro, sem conteúdo nem indicação de remetente. Vazia, entendes? Quando ambos sabemos que o Amor é Cheio e se faz de muitas minúsculas presenças.

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escrito por sofia vieira às 22:35



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