Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



paris, texas

17.06.06

Vou-me embora,disseste. Pegaste na mala atulhada de roupa engelhada, agarraste nas chaves e fingiste-te por momentos desorientado com o paradeiro do telemóvel, a dares-me tempo para que te pedisse que ficasses. Abriste devagar a porta da rua e fechaste-a atrás de ti meigamente e a custo, como que para não acordares a tentação de me abraçares e te deixares ficar. Só então me abalancei ao corredor, onde quedei de pé num silêncio lívido, como um espectro desnorteado que já não tivesse mais por onde assombrar. Quando o estalido da fechadura antecipou a reticência dos teus passos na escada, deixei-me cair de joelhos sobre o queixume do soalho velho, que rangeu e chorou comigo como uma carpideira paga. Foi aí que desataste a correr como se te perseguisse um exército de malditos: de conservadores do registo civil acenando-te com estranhas cláusulas antenupciais, de sogras de papada empoada a quererem-te para choffeur e assistente, de filharada ranhosa enclavinhada pelas tuas pernas acima, de administradores de condomínio e terapeutas conjugais, de porteiras intrometidas, bom dia senhor doutor, de gerentes de conta, a prestaçãozinha está atrasada, de patrões rancorosos a susterem-te promoções há muito devidas. Livrar-te-ias de todos, bastava-te chegares à garagem, ao carro e pores-te a milhas, mato adentro. Por momentos, fugiste de tudo e de todos e, no remanso daquela noite de oráculo que nos anunciava o Verão mais triste, foste alma primordial em voo pelos recantos da floresta que então te acolheu o alívio. Não conseguiste, no entanto, enxotar-me da tua lembrança, ali parada no corredor, finalmente vencida, finalmente fantasma.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

escrito por sofia vieira às 22:38



Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.


Pesquisar

  Pesquisar no Blog