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barefoot in the park

25.06.06

 Olha, queres um bocadinho do meu tempo? Toma, empresto-to a fundo perdido, como se dá uma moeda de cêntimos a alguém que precise telefonar ou uma boleia, a quem tenha de chegar cedo ao destino. Aceita o tempo que te dou e preza-o, porque é com ele que vais poder um dia olhar-me com a calma do luar a pique na preia-mar de Agosto, como se a noite nunca tivesse acabado e o táxi não me tivesse deixado em casa cedo demais. Não me faz falta, acredita, conheces-me perdulária e relapsa nos deveres em geral: se não to desse, provavelmente, desperdiçá-lo-ia, deitá-lo-ia fora (sabes que perco tempo, sabes bem o tempo que perco, designadamente nisto, especialmente contigo). Ignora as respostas para ontem, olha-me por um bocadinho a mão e aceita-o sem hesitares, que isto é promoção do dia e se encontrares melhor devolvo-te a diferença. Gasta-o com parcimónia, mas gasta-o bem, sei lá, usa-o comigo para me amorteceres a queda, a inevitável queda. Sabes que de bom grado te emprestaria os últimos trocos para que me comprasses um anel fingido, uma rosa dos monhés e me pedisses em casamento. Só pelo pretexto de te cobrar juros usurários em forma de beijos de língua ensaiados na escadaria de mármore sob chuviscos de arroz e espreitar as nossas salivas reflectidas no cromado piroso da limusina alugada.

 

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escrito por sofia vieira às 22:46



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