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nine to five

26.06.06

 Apesar de tudo, longe, e nunca estiveste tão perto. Madressilvas soalheiras e dias que se socorrem de outros dias, sonhos molhados pelas franjas da madrugada fora, o cão que me lambuza o nariz e eu espirro, as unhas roídas de espanto e um refrão pimba que me borbulha na língua e me ajuda a transpor as estafetas da tarde. Longe, e nunca estiveste tão perto, apesar de tudo. Sonhos na verdade encharcados e um riso alargado no escuro, daqueles que rasgam a fímbria da manhã, dedos que brincam nos recantos do corpo e que acostam, distraídos, nas margens da pele, o relato da bola, a consulta no médico, a mercearia da esquina que abre aos domingos e aquela canção que me apazigua os sentidos, seguida de uma outra, que os alvoroça. Longe e, apesar de tudo, nunca estiveste tão perto. O que me escreves e dizes, trago à boca do estômago, o que me não fazes, trago à boca da noite, de uma noite qualquer (talvez já amanhã). Prazos a cumprir, atrasos com multa, unidades de conta e conversas meigas guardadas com cuidado como relíquias de santo, um dente, um verbo. Há ainda resquícios de um suspiro de tédio e de um bocejo de fome que se me atravessam as malhas do cansaço. Longe, e nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.

 

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escrito por sofia vieira às 22:47



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