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havana

27.06.06

Ao quarto escuro, brinquemos ao quarto escuro. Eu escondo-me no armário, por entre as lingeries de renda e as camisolas de lã, e misturo-me o suor nervoso com os cheiros a lavandas e a chanéis. Tu, procuras-me. Controlas a tremura dos dedos, desligas firme o interruptor e fechas a porta devagar, até o último fio de luz vindo do corredor se esbater no meu sobressalto contido. Primeiro, finges que me suspeitas debaixo da cama ou por trás das cortinas e que não sabes que te espero, de pernas e tesão encolhidos, na expectativa do toque adulto, adúltero, egocêntrico. Depois, cheira a roupa em que me escondo, ordenada por cores que não vês, como se farejasses o trilho fermentado do desejo, e tacteia no ar o calor que de mim foge, como um cego hesitante, receoso de tropeçar no desnível súbito do passeio ou de chocar contra o semáforo calado. Eu rirei para dentro enquanto penso como seria, a tua mão para sempre no meu joelho. Deixa-me sentir-te a respiração a desbastar-me os cabelos, mas sussurra o meu nome para o canto contrário, como se me achasses lá e confundisses os contornos da pilha torta das toalhas de banho com a sombra volátil do meu corpo encolhido. Por fim, agarra-me com pressa os braços e abafa-me o grito com a boca, impondo-me a tua língua com a urgência de uma lei marcial. Fica dentro do armário e dentro de mim, naquele silêncio próprio do recolher obrigatório, até a agitação nas nossas veiasruas acalmar e os exércitos, que nos marcharam a pele no escuro, regressarem aos respectivos quartéis (até nova ordem).

 

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escrito por sofia vieira às 22:49



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