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bus stop

09.07.06

Ontem passaste por mim e eu na paragem do autocarro, à espera de quê, naquela mansidão costumeira, inútil. Abraçava-la com um fervor meigo, como quem se congratula, e teimavas em cobrir-lhe a bochecha direita sempre com o mesmo beijo, gasto do despudor de tanto uso. Foi pior do que não me teres visto, porque me topaste o embaraço pelo canto de um olho distraído, mas o meu interesse na geometria da calçada não te mereceu qualquer dobra de atenção. Limitaste-te a rodear-lhe o pescoço com a força do teu antebraço e, com o ouvido dela à entrada da tua boca, ter-lhe-ás segredado o desprezo que me tens. Ela riu-se, sem sequer se dar ao trabalho de me medir a presença vacilante, para quê. Naqueles segundos, em que memórias e aragens velhas se embrulharam nas esquinas de betão, nos letreiros, o céu plúmbeo pesou-me tanto como a alegria cúmplice da vossa passada síncrona. Mas um pequeno tornado pareceu formar-se do interior da sarjeta que nos vigiava de baixo para cima, e a ventania súbita que vos arrepiou os nós dos dedos devolveu-te o meu cheiro a medo e a perfume antigo. Morreu-te o sorriso nos lábios, como uma porta que se fechasse, e a lassidão tomou-te conta dos braços, que te caíram ao longo do corpo como quem se rende ou deslaça por fim a mortalha. E a nuca dela ficou exposta (via-se o arrepio da sua pele sem ti), a rua toda a cochichar-lhe a nudez e foi bem-feita. E agora não sei que faça, com os murmúrios de súplica que te adivinho no sorriso de porta fechada e no antebraço caído, e nas mensagens de voz que me entopem o gravador e o decurso corriqueiro dos dias.

 

 

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escrito por sofia vieira às 22:52



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