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breaking the waves

15.08.06

Chegaste-me pelas costas e o teu sorriso miúdo a acertar em cheio as minhas omoplatas desprevenidas. Tempos depois, o sol num determinado ângulo, a ensombrar o pára arranca da brisa marinha. e pela bonomia estival irrompe a lembrança dos teus olhos gulosos, arredondando as minhas medidas e sufragando os meus gestos. Por entre línguas da sogra e gelados olá, reconstituo a tua boca de lamentos diabéticos com a precisão de um restauro de capela: recordo-a abandonada aos meus segredos de mulher fácil, oferecida como uma amostra grátis, e lá se me vão as certezas dianteiras e os traços contínuos, na leva da quadragésima sétima onda. Um ligeiro açoite da memória, e o teu cheiro a sobrepor-se à citronela na varanda e a intrometer-se na roda de amigos. Por entre as gargalhadas e as traças que esvoaçam no cheio da noite, faltas-me qualquer coisa, como se uma cadeira vazia em frente a um prato cheio, numa mesa posta. Finjo que tenho muito para te mostrar mas, na verdade, sou um livro em branco à espera que me preenchas com a caligrafia paciente de um monge copista, e assim talvez que da nossa história ainda surja uma iluminura (como as que dantes contavam dos desvarios feitos por Amor e da tolice de lhes chamarem milagres).

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escrito por sofia vieira às 23:05



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