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dangerous liaisons

02.09.06

És-me necessário, saliente, impávido, arrematado, incerto, inútil, possante. Não existe em nós uma coincidência feliz que seja, apenas esta precisão gemelar de costas cosidas com costas, dois caminhos que não se diferenciam nem bifurcam, mas que não conseguem ser um só. Que nem sequer são paralelos, porque se tropeçam, se impedem e se guerreiam nas mais pequenas minudências. Que alívio quando te vais, que tormento quando nunca mais chegas; que silêncio quando passas por mim, como se os teus gestos me enxotassem o sorriso varejeiro; que torrente de palavras sentidas jorra quando não estás, numa verborreia tão desesperada que até as paredes, condoídas, me respondem de volta. Naquelas noites enormes que transbordam de minutos a mais, quero muito ouvir-te a chave à porta, mas depressa me esgueiro, fazendo-me casta e adormecida, para que nem te lembres de me tocar a pele em fogo. Não há gramática que explique a contradição nos termos de supostamente te amar, tenho quase a certeza, mas de me apetecer ter-te quieto, no fundilho dos meus bolsos misturado com o comando da garagem, no compartimento interior da mala de mão encostado ao baton, a tua vontade empalhada como um troféu de sala, para meu eterno descanso. Não sei se é doença, mal-estar, aflição, virus, ou apenas condição; sei que é um jogo que tenho de ganhar sempre, embora perdendo-te uma e outra vez pelo meio.

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escrito por sofia vieira às 23:10



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