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domicile conjugal

28.04.08

Por fim, dormimos em casas separadas mas, afinal, não se me multiplicou o espaço nem o ar que respiro: apenas se nos complicou a logística. Queria tanto para mim, este tempo todo, tendido como massa fresca na mesa da sala alugada, este livro. Mas tu insistes em aparecer por entre as letras, numa dança triste, e eu distraio-me. Sinto falta de quando sorvia parágrafos onde calhasse, num prazer clandestino, antes que alguém desse conta. Queria talvez telefonar-te e ouvir a tua voz, não porque te tenha saudades, mas só para te saber real e não apenas um projecto falhado. Costumava ansiar por uma refeição em paz, que pudesse atravessar num ruminar mudo, mas agora que ninguém me interrompe, levanto-me, sento-me, vou à janela, e o jantar congelado seca nas bordas do prato. Preciso de procurar o silêncio com a urgência de alguém que perdeu as chaves e está atrasado, e não de dar com ele, assim, em cada esquina. Não durmo, porque me falta o embalo ruidoso do teu septo nasal desviado; e esta música, francamente, nem me apetece, porque não abafa as vozes nem os gritos, porque não me aliena de ti. Havia um certo conforto em te saber ali postado, sempre pronto: era como enroscar-me num sofá velho que tem o meu cheiro de tanto uso, só porque não há mais nada. A tua falta é como estar sentada num banco de pregos a meio de um campo e gozar de uma liberdade dolorosa. Na verdade, ainda não senti o alívio que imaginei: em vez de expirar profundamente à espera de uma ressureição qualquer, dou por mim a arfar baixinho como um cão, a oxigenar-me com cuidado e à superfície, a ver se me aguento nas canetas. Aqui chegada, e não me encontro disponível, o que me soa a desperdício ou, então, a grande ironia. Às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha nova condição de amputada; outras, em especial quando a noite cai demasiado depressa, cedo ao pânico, como se num elevador parado entre andares. Nessas alturas, enrosco-me como um feto e só quero agarrar-me à barriga das tuas pernas e pedir-te que seja ainda a semana passada, quando chegavas a casa calado e o pior que acontecia era o tédio correr-nos nas veias. Há momentos em que dava tudo para que os teus pés frios, que sempre me desagradaram, arrefecessem este medo que me tolhe.

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escrito por sofia vieira às 18:40



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