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secretary

06.01.09

És fácil, muito fácil de amar, e sabe-lo. E perigoso, porque não tentas sequer, porque não aparentas qualquer esforço; no entanto, és gostável naturalmente, como o mar ao pôr-do-sol ou um dia calmo em que não se faz nada. Carregas o amor dos outros como plumas, nota-se. Há em ti uma quase ausência de intenção e, no entanto, atrais-me com desmesura, gravitacionalmente falando. Apetece-me dar-te várias voltas, conhecer-te de todos os ângulos, descobrir-te e explorar-te como se fosse a primeira a fazê-lo, como uma daquelas expedições pioneiras ao árctico em que no fim morre tudo, numa catarse impossível de ser resgatada. Tens um modo único de seduzir, que é o modo de quem não o tenta fazer e não pensa sequer no assunto, fatalmente certeiro. Imagino que balances o teu sorriso por aí, projectando-o pela estratoesfera e deixando que o resto do mundo se esgatanhe a ver quem o consegue apanhar primeiro. E eu, tenho a estranha sensação de que facilmente te adoraria se os astros, devidamente alinhados, a tanto mo aconselhassem, mas que, depois de a minha pele te provar seria um ver se te avias. Porque, quando um dia deixasses de me querer, eu ficaria com fome e à deriva, a abraçar-me às paredes, a arrastar-me pelas ruas e a tropeçar nas esquinas. E teria seguramente comichões e ataques de nervos, e a minha pele criarias bolhas e eczemas, sintomas certos da doença incurável de nunca mais te ter. Deixar-me-ias sem critério, e haveria dias em que qualquer um me serviria para te emular: o trolha da obra no fim da rua que oferece os braços nus à geada da manhã, o rapaz vesgo que me traz os sacos do supermercado a casa, o farmacêutico de esgar macilento cujos folículos capilares pousam na bata branca como flocos de neve, enquanto me avia os placebos. E depois a irmã loucura, confortavelmente instalada, abraçar-me-ia num aconchego fraterno. Aposto que facilmente te tornas preciso, como o antídoto de um veneno ou a última refeição de um condenado, e eu confesso-to: desde há uns tempos a esta parte que me vem uma vontade danada de desatar a correr para a rua, se calhar descalça e sem sequer dar voltas à chave, só para descobrir onde moras (e onde posso por fim começar a perder-me).

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escrito por sofia vieira às 19:27



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