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il diavolo in corpo

17.02.09

Procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda. Guardo segredos só por ti desvendados e sorrio aos passantes, atirando-lhes à cara a arrogância de quem possui algo de único e de reservado, de exclusivo e de impraticável, como uma estância de luxo ubicada nas águas turquesa de outro continente qualquer. Trago-te em estado líquido, tanto de ti que te queixas entre as minhas pernas quando ando, com medo de caíres estatelando-te no passeio, e eu às vezes a alargar o passo só para provocar o teu medo e sentir que te agarras com força às minhas virilhas molhadas. Algures, um oráculo ecoa na decrepitude dos prédios e ordena-me que corra para longe, sob pena de as vísceras dos animais anunciarem derrotas e outras desgraças. Vejo o teu sexo nos pilares e nas cornijas, em evocações fálicas que me divertem e acendem, alheia que estou à mediocridade das analogias, embora o enunciado de tragédia que leio nas nuvens que dealbam o céu me devesse acautelar o riso e a desvergonha. A tua língua, o voo nervoso daquele pássaro, uma arvéola que hesita entre um beirado derruído e a estátua suja de um pedagogo. Quando finalmente me escorreres pelas pernas e, caído no passeio, eu seguir sem olhar-te, voltarei a sentir pequenos espasmos de alegria com a nova temporada da minha série favorita e retornarei ao cronometrar seguro de todos os momentos do meu dia, sentindo-me velha esmarrida mas em casa, de novo em casa. Apressar-me-ei a limpar as janelas por dentro e por fora com o detergente adequado e aposto que consigo até lavar a roupa na máquina sem a deixar toda da mesma cor. Em breve, quando me cansar das traições, das indecências e do teu pulsar dentro de mim, deixarei de ser a puta vernacular em que me transformaste para regressar ao mundo das horas contadas, das cortesias sem sentido, dos contarelos familiares e dos frescos no hipermercado.

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escrito por sofia vieira às 19:38



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