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the crying game

05.08.09

Pensei, sinceramente pensei, que fosses tu. Que os teus tolos desmandos aniquilassem a inconsciente superficialidade dos meus; que a tua loucura subjugasse a minha e eu conseguisse por fim dormir à noite com a cabeça no teu colo, ou num colo qualquer, desde que num arremedo de paz. Pensei que fosses tu, o princípe encantado por mim, prestes a enfrentar os meus dragões, que entrasse de espada em punho pelas masmorras onde me escondo e definho, desde sempre à tua espera, (sei-o agora, perante a inevitabilidade dos teus olhos em fogo, doentes de determinação). Que me resgatasses do cansaço que é não pertencer a lado nenhum. Pensei-te por momentos uma espécie de lar, um porto de abrigo, o regresso, a volta a casa. Que apenas me olhasses e que exigisses perante os teus pares amares-me contra todas as expectativas, todos os mapas astrais e as cartas do tarot que adivinham tragédias. Pensei que chegasses, que não perdesses tempo com rodeios nem mal entendidos e que nos mareássemos no rodopio inebriante da descoberta do amor: aquele amor salvífico que nos devolve o fogo de artifício e que nos abre os poros. Por momentos foste tu, a passar no crivo solitário das minhas noites e senti medo, frio na barriga e as pernas bambas; porque eu a saber-te lobo a quereres-me comer e a temperar-me a jeito para te saber melhor. Mas não foste mais do que a promessa de uma promessa, o beijo que não me queimou a boca, as mãos que não me empurraram contra a parede; foste só uma voz do outro lado da cidade, do mundo, que se atabalhoava na linguagem confusa e desconfortável que o amor às vezes escolhe para nos comunicar que não pode ser, que temos pena mas não é chegado o momento e que, como nas escondidas da nossa infância e quando quem está no coito chega lá primeiro, ninguém salva ninguém. Por momentos pensei, mas na verdade, ninguém salva ninguém .

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escrito por sofia vieira às 20:57



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