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othello

25.10.09

Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho), queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção que distribuis pelos outros em rateio ao longo do dia. Tenho ciúmes da mulher com que te cruzas na rua pela manhã, que passa apressada e sombria sem te atentar no perfume. Tenho ciúmes da vizinha que partilha contigo o metro quadrado do elevador, respirando ambos o mesmo ar; da tua secretária, que chega por trás e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha, para te mostrar um documento qualquer; e da empregada do restaurante, que recebe o teu pedido, sugerindo-te as especialidades do dia, e a quem sorris alheio enquanto encomendas o melhor vinho da lista para impressionares quem se senta ao teu lado. Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado e usufrui de toda a tua atenção; e da loura que vai no trânsito, a quem dás prioridade e deixas passar à frente com um aceno de cabeça e um olhar de raspão, desfocado mas atrevido. Tenho ciúmes da rapariga da bomba onde enches o depósito, a quem pedes um maço de cigarros e por quem aguardas enquanto conta os trocos com dificuldade; da hospedeira que te serve o bloody mary mal o avião levanta vôo, e das que olham para ti na rua e te prescrutam o dedo anelar, tentando perceber se és casado, se estás disponível ou se ambas as coisas. Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar de rompante num bar e te beijam na boca como se fosses delas (e por momentos até és), te arrastam para um quarto, te viram do avesso e te deixam; das vendedeiras da praça que te tratam por menino com impudência desabrida; e da doutora da farmácia onde avias as receitas, do tempo que demoras ao balcão, fazendo conversa, conferindo dosagens, pedindo recibos. Tenho ciúmes da velhota da pastelaria que te conhece há anos e que te tremelica uns bons dias com familiaridade deslocada; e da advogada canina com quem te reunes amiúde, convencido de que a Lei te vai resolver toda essa vida sem mim. Tenho ciúmes da tua mulher, da indiferença que lhe votas quando chegas a casa, das conversas geladas sobre domesticidades (qualquer coisa me servia agora); e tenho ciúmes da tua empregada, que espaneja e arruma os restos de ti que sobram pela casa quando não estás, recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros e essa tristeza que deixas depositados nos cantos. Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho).

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escrito por sofia vieira às 21:20



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