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the war of the roses

23.01.07

Nesta fotografia estamos os dois, sim, mas, se é certo que foste tu que a tiraste e que a mandaste revelar, eu escolhi a moldura, por isso não a levas. Porque é moldura da grossa, pesada, com umas rosinhas trabalhadas no pinho, muito digna de, então, nos emoldurar; uma moldura daquelas maciças que afirmam coisas, que marcam posições, não das fininhas sem espaço para as margens, que acabam logo ali, deixando os sujeitos à beira de um precipício; gosto das que deixam adivinhar mais e mais bocados de movimento, de gestos, de paisagem. Como esta. Olha-a bem. Foi tirada quando a nossa vida ainda transbordava de hipóteses e se nos abria pela frente como um quantos-queres. Está bem, já dissemos, foste tu que a tiraste, que ajustaste o zoom e o temporizador para captar a nota certa e o momento exacto algures na partitura daquele beijo agora irrepetível. Mas não (lamento) não a levas nem emprestada, não podes escaneá-la, copiá-la, nem sequer guardá-la na memória para reprodução futura. Não tens direito algum ao vórtice perfeito daquele beijo enregelado, plasmado na lombada montanhosa da rectaguarda, nem ao calor da minha mão direita, que tacteava com murmúrios de cego o interior do teu bolso traseiro. Porque são meus, e não teus, os olhos fechados de futuros entreabertos e esta boca em espera, reflectida no teu olhar atento ao momento do disparo, cuidando da posição da luz. Por acaso a máquina era tua, bem como o foi a ideia do romântico enquadramento. Mas tal só te dá o direito à penúria do sol de Inverno que na altura tentava romper os recortes pontiagudos da cordilheira de fundo, numa brincadeira de crianças, infrutífera. Nada que se compare com a seriedade que me invadiu (repara) enquanto me preparava para te abocanhar a desatenção, nem com a importância de estado da minha mão a rebuscar-te os fundilhos das calças. Podes também ficar com as figuras de fundo, as sombras de dois ou três passeantes indiferentes, a meia dúzia de abetos à esquerda da imagem e da cabana ao longe que, afinal, nunca nos abrigou de nós mesmos. Mas nunca o meu infinito abandono, na direcção da tua boca distraída por um click, adornará uma outra parede que não esta.

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escrito por sofia vieira às 22:18



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