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doctor zhivago

22.04.07

O nosso tempo é no Inverno, não nesta promessa de estio e de cansaços estirados ao sol. Nós, é mais não nos darmos as mãos enluvadas, enquanto o calor se solta do corpo em espirais de desejo e embate como vapor na atmosfera gelada de Fevereiro. Nós, é os casacos apertados até cima, as golas levantadas e as pontas do nariz vermelhas, não sei se de frio, se de choro, se de vergonha ou pudor. O nosso tempo, não é o das praias de areia branca e águas cristalinas, nem o dos cocktails à discrição, como anuncia o folheto; muito menos o tempo em que a maresia se derrama sobre nós e o sol a pino nos invade a lassidão dos dias. É, antes, o tempo dos fios incertos de bafo quente que emanam das nossas bocas ansiosas, demasiado próximas, demasiado longe, e dos cachecóis que se enrolam no pescoço de cada um, como nos enrolávamos cerimoniosamente um no outro. Nós, é os corpos vestidos, as frieiras e bocas encieiradas, a uma generosa e conveniente distância. Por isso não a quero, à suavidade deste estio que se adianta, nem às carícias deste vento suão. Quero sustê-la, para que nunca me ultrapasse e me fuja, a lembrança dos teus olhos fechados, das tuas pálpebras caídas sobre as maçãs do meu rosto, afogueadas, dormentes de frio. Não quero esta promessa de férias: as tuas férias não são as minhas e não é tua, a minha praia. Quero ficar para sempre com a tua pele fria e arrepiada quase, quase na minha, sem teres por onde fugir. No fundo, quero apenas um truque de feira, uma magia barata, de cinco tostões, que me ajude a não te perder nunca.

 

 

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escrito por sofia vieira às 22:32



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