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existenZ

12.06.07

Vejo-te naquela névoa baixinha que enfeita os sonhos que abrem alas ao espavento da madrugada. Trazes contigo toda a vontade do mundo, avanças sem medo, corres na minha direcção como a parte pirosa de um filme, em câmara lenta, e desaguas um sorriso longitudinal no ar quase parado. Projectas para trás o penteado fora de moda, enquanto eu vacilo, algures entre a alteridade do espectador e o envolvimento da personagem. De pé à tua espera, carente, orgulhosa parada, não sei se triste se contente, porque não me vejo, apenas me percepciono. O dia, entretanto, a fazer-me olhinhos, namoradeiro, enquanto as persianas fechadas rangem com o calor súbito da manhã e se espreguiçam, alheias. Então, como num pesadelo de criança cuja mãe lhe foge, ultrapassas-me o olhar, expectante para com o que encontras para além de mim, por cima do ombro da minha vista. Eu a chamar-te e tu agora de costas, como se me tivesses atravessado um espectro. Viro-me para trás, a tempo de ter ver desaparecer as fraldas da camisa suada na esquina. Fico pregada ao chão. Tenho cinco anos e pregada ao chão. A minha mãe, que não me ouve; o elevador que cai e nunca se despenha. O meu corpo num ângulo estranho, desafiando as leis da gravidade, e eu a torcer a garganta, a espremer um grito, um alinhavo de som. Acordo e abençôo o dia, agradecida, aliviada: não por ter entretanto acordado, mas sim por tu não teres parado.

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escrito por sofia vieira às 22:36



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