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shirley valentine

17.07.07

Quem dera, fosse tão fácil, despir-me de ti como deste vestido, quando a areia da praia me namorisca os pés; substituir o teu dedilhar virtuoso pelo escorrer do bálsamo protector e pelas estradas de sal seco que se me desenham nas omoplatas, depois de sair da água. Quem dera, desligar-te, como ao telemóvel; retirar-te a bateria para que te não estragues, te gastes em vão, atirar-te para os fundos de uma gaveta qualquer, inábil, inútil, silente. Quem dera, fosse tão fácil, trancar-te as portas como as da casa, três voltas à chave, deixar-te às escuras, de gelosias corridas e vidros abertos; quem dera, seres tu, a imperceptível aragem à qual viro costas quando saio e não volto; seres as contas acertadas, a luz desligada, o carro na garagem, a mercearia fechada e a rua vazia. Quem dera, poder descartar-te, entregar-te à vizinha para que de ti tome conta, te dê de comer; deixar-te em dia, como ao trabalho atrasado, arrumar-te numa resma ao canto da mesa com a caneta por cima, perfeitamente alinhada com os lados das folhas, à espera do pó dos dias dos outros. Fechar-te para obras, guardar-te na parte de cima e esquecer-te, como camisolas de Inverno, e não te usar porque me arranhas a pele, me apertas o pescoço, me fazes suar. Quem dera. Mas não. Carrego-te comigo, como bagagem em excesso na volta de uma viagem, três ou quatro souvenirs imprestáveis, very tipical made in china, uma dúzia de postais ilustrados sem selo, uma máquina fotográfica avariada à chegada.

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escrito por sofia vieira às 22:45



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