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09.07.13

Tantos anos, e o que nos resta?, senão esta intimidade de mucos e fluidos, de cócegas no lugar da tesão, e este riso dissonante em vez da adrenalina bruta da paixão?  Que nos resta?, senão as noites no computador, as costas dadas ao outro, colmatadas com pequenos cuidados, o que queres comer, o que eu quero beber, que fazer amanhã? Que nos resta?, senão o silêncio no carro, os carinhos esquivos que entremeiam o sexo, repetido e inócuo, as escolhas do dia, a rotina que nos sustenta, hoje passeio o cão e tu, despejas o lixo,  eu ao supermercado e tu, compras cigarros? Senão um aperto cá dentro que nos abafa a pele, esta falta de ar indizível, o conforto morno das coisas conhecidas, a mansidão da carne apaziguada no previsível, porque nada vai mudar nunca, tu e eu seguros, seguro de vida, seguros para a vida? Que nos resta?, senão  ceias de tabuleiro em frente à tevê, palavras sem surpresa na linha derradeira do tempo, a conta que temos em comum, a loiça por lavar, a roupa por pendurar, as despesas por pagar, um copo a mais a horas mortas, quando já estás a dormir? Para onde foi?, aquela monção dilúvio, o frémito, a tontura, o sobressalto antes da queda, a voragem indecente dos corpos a pique, o cheiro a verão que antecipávamos no outro? Para onde fomos quando nos fugimos?

 

 (the last time I saw paris)

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escrito por sofia vieira às 22:31



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