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28.02.14

Falas-me num linguajar distante e eu aceno, fingindo perceber o ininteligível. Argumentas seguro e a direito, como tu mesmo: uma linha reta, com um propósito teimoso e autista, que une um ponto a outro sem passar por lado nenhum, sem passar por mim. E eu, aos ziguezagues,  aos recuos e avanços, ao arrepio e em investidas, consoante o tempo ou o tom com que o rui da tabacaria me deu os bons dias, de acordo com o alinhamento dos astros, o dia do mês ou a folhagem das árvores. Eu, a apanhar bonés, à toa e à deriva, no inverso do teu verso, GPS avariado, aguardando instruções, de entrada ou de saída. Guardo as palavras com que não te respondo porque não as quero desbastar em vão, contra essa parede que és tu, atordoada de incompreensão. Não falas a minha língua, e eu que nunca aprendi outra e agora já sou burro velho. Suplicas-me com esse teu olhar aguado, como um paralítico amarrado a uma cama, se piscas um olho é sim, se o fechas é não, e nem mesmo assim te decifro, perdida com tanto bater de pestana. Ris-te de coisas que me são estranhas, algumas que até me repugnam, de tão pueris ou medíocres,  e não me achas piada, o que me enfurece mais do que se fosses com outra, ou  do que se me roubasses o anel barato de zircões baços que a minha avó me deixou. É uma raiva que cresce como um urso que se põe em pé,  que se levanta na tua direcção, desembainhada, feroz, apontada ao teu coração desprevenido. Não to admito. Não admito que me fales ardentemente, com a convicção desesperada de uma mulher neurótica, para que eu nada perceba, para que sejas ruído de fundo, música de elevador, a estática enervante de um rádio mal sintonizado. Não te admito que não gargalhes quando sou maravilhosamente  hilariante, que não me sejas cúmplice quando sou irónica ou maldosa, e que me obrigues às tuas patéticas investidas. Não me obrigas a nada, dirás. Mas basta quereres para eu me sentir obrigada, porque um amor puro como o teu tem muita força numa alma penada como a minha, que só desama e descarta, despeitada por não o sentir assim, na pele morta que já não se arrepia. Deve ser tão bom!, esse querer bem, esse propósito de fazer feliz, desinteressado e simples, deve ser tão bom o amar. Por inveja, obrigo-me a ouvir-te e a tentar fazer-me perceber, colada a ti a respirar o mesmo ar,  à espera que o teu amor se me pegue como um virus. Devo ser imune porque, quando falas e falas e falas,  e me apontas os olhos aguados de esforço, só o silêncio me invade, como o de uma igreja vazia onde dormem os ecos dos santos.

(Dodsworth)

 

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escrito por sofia vieira às 20:45



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