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29.01.15

Apagar e escrever de novo. Mandar a presunção das palavras caras para o raio que as parta; porque não foram escritas com as vísceras de fora, nem com o coração a bombar enquanto sobe pelo esófago com a flexibilidade invetebrada de um polvo. O calculismo de um ataque cirúrgico de palavras cuspidas resulta na vida real, mas é um nado morto na escrita. Quando não existe uma raiva verdadeira, uma devoção honesta, ou a urgência de um desespero, mas apenas um esforço para ocultar a verdade figadal que nos dá vómitos, a que não se ousa sequer pensar. Agora, é olhar para a página em branco e tentar fazer sentido das emoções que, de tão agora sim agora não, impedem qualquer lógica semântica, rematada com a habitual petulância. Tu só me afectas quando me convocas emoções, de preferência negativas. Porque, com as boas, posso eu bem: incorporo-as e esqueço-as assim que se tornam passado, como um bitoque que me vai para as coxas.  As más, iluminam-me por dentro, como um fogo de santelmo, aceso com o lixo que deixaste fora dos contentores para que eu tropeçasse nele. Às vezes, sinto que comemoras os meus fracassos, o que me confunde. Nunca o ódio me foi próximo do amor, como apregoa o ditado,  mas a raiva consegue estar perto do desentendimento que existe no amor. Exaspera-me quando me tentas convencer da tua lógica sentimental, como uma equação  amorosa. Insistes em descrever o que sentes através de algoritmos e raízes quadradas. E eu, que não percebo nada disso, nem com um love for dummies,  ignoro-te a maior parte do tempo, como a previsão meteorológica, porque, tal como contigo, sabê-la não significa que a possamos alterar. Tens uma estranha característica: a de não deixares que a tua dor de mude, embora nem por isso te faça mais forte. Mas estás convencido de que é isso que te  mantém de pé. Talvez exista uma equação para tal paradoxo, um dia explicas-me, quando perceberes que a não és a tua própria solução. Já a minha dor, muda-me várias vezes ao dia, quando decide visitar-me (mesmo que lhe diga que não estou). Eu sou o desconforto do inesperado, o exaspero do aleatório, a maldade acriançada do saiu-me sem pensar. Nunca poderás contar comigo para te fazer feliz, mas, quando deixo as vísceras falar, elas gritam cá dentro que te amo. E agora descalça lá esta bota.

(rites of love and math)

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escrito por sofia vieira às 20:53



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