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10.11.16

 

Foi só um beijo, não foi?; um beijo degustation, uma curiosidade que não matou o gato, alheia a qualquer romantismo, para o qual seria sempre cedo demais. Tão infantil como enfiar um insecto num frasco e vê-lo aflito, arrancar um braço à boneca, ou estraçalhar o carrinho de rodas, embora mais inóquo porque nada em nós se partiu ou aleijou. Uma maldadezinha transgressora, mas daí não veio mal ao mundo. Na verdade foram dois ou três, mas quem os contou? O que interessa é que ganhei à calçada com os meus saltos altos, cujo eco marcava os segundos que tínhamos até nos despedirmos, num equilíbrio perfeito que só balançou com aquele beijo que, ou muito me engano (ou só não me lembro), nem sequer foi correspondido. Entretanto, a noite morreu, a calçada continua lá, a atraiçoar quem não a conhece de gincana; as putas terão sempre um rabo invejável e as minhas pernas continuarão desproporcionais (eu sabia que devia ter ido de botas). Um beijo tão cauteloso quanto atrevido, como o explorador que entra num túmulo que acabou de descobrir (cuidado com a maldição), se calhar a esconder a perversão que nos é comum, embora nunca a tenhamos experimentado juntos. É na conversa que damos cartas, sem sequer falar de sexo (embora também). Mas, depois, um ligeiro entrelaçar de dedos, acoitado pela noite, e foi essa doçura inesperada que me ficou, não me perguntes porquê. Estou com o poeta, mais vale estarmos sentados ao pé um do outro, ouvindo correr o rio e vendo-o. Porque a cidade continua um estaleiro, os jardins mal iluminados, as noites estranhas e mornas, e o beijo entretanto perdeu-se nas memórias que o gin apagou. Foi só um beijo, não foi? (sei que abuso da anáfora, mas antes isso que da retórica). Entretanto, já teremos dado outros, de significância acrescida, plenos de intenção, em preliminares demorados que terão selado supostos futuros, como se o tempo que um beijo promete fosse garantia de alguma coisa. Como se os toques amorosos também não mentissem, com a sua coreografia calculista e cronometrada em função do receio da perda. Como se cada amantíssima jogada não fosse interesseira e bajuladora para sentirmos, no fim, o gosto da vitória, um açambarque de piratas, por ora pertences-me, tenho-te onde quero, rebolo-me no teu ser. Mas que se lixe o cepticismo, muitas bocas prolongam-se a gosto, ficam na pele impressões digitais, gritam-se Oh Deus!, Isso!, Dá-me tudo!, e ignora-se o vazio que nos vem depois de nos virmos. Foi só um beijo, não foi?

 

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escrito por sofia vieira às 23:22



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