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01.02.18

 

Se isto é sobre o Amor é óbvio que virias aqui parar. Já ouço o coro dos freudianos ao longe, em sussurros celestiais, entoando notas de infâncias mal resolvidas, mas eu orelhas moucas, um dia trato-me do que pensam afligir-me. Irritavas-me como ninguém e sempre me contrariaste, por feitio ou gosto, nunca soube. Não te associo ao cliché do pai herói, porque nunca te conheci diferente, o excelente dos outros era o meu normal. Só muito tarde percebi que foste um golpe de sorte e que contigo me saíra a lotaria dos afectos primordiais. Ainda me irritas, quando revolvo a papelada que nos deixaste e não decifro os teus rabiscos e me pergunto porque raio não tiraste um tempo para nos facilitares os dias depois da tua morte, se foi o que sempre fizeste em vida. Não tenho por onde me guiar, não sei os comos nem os porquês porque não me respondes quando te chamo. Não há uma aragem fria que me arrepie a pele, uma porta a bater, um quadro a cair; nem ao menos uma vela que se apague do nada. Apenas não estás, e não há mistério que me console ou envolva, só um silêncio confuso de ravinas fundas. Não te percebo a letra arrastada dos últimos tempos, em folhas soltas, as notas avulsas com os deveres e os haveres misturadas com uma carta de amor da mãe, um texto meu, uma aguarela tua, uma fotografia antiga ou um recorte de revista sobre um medicamento qualquer. Tudo enfiado à pressa em micas de várias cores, numa lógica só tua, quando te terás apercebido da urgência de sabermos como aprender a tomar conta de nós sem ti. Tarde demais. Não vou falar da doença, não sou de chafurdar em lugares comuns que só avivam as memórias dos outros, orfãos como eu. Prefiro recordar essa veia ribatejana de galaró teimoso, incapaz de fraquezas sentimentais, mas que soçobrava perante o amor incondicional e quase servil com que obsequiavas a tua mulher, e as tuas outras mulheres, por esta ordem. Sempre as preferiste aos homens, mas faltava-te perspicácia e discernimento. Não foi à toa que foste criado pela tua mãe e as suas oito irmãs, enquanto em pano de fundo o teu pai, apaziguador e gentil, a quem saíste. Eu brincava contigo por causa disso: ou davas em mulherengo ou acabarias a gostar de homens, mimetizando as fêmeas que te nortearam a infância. Afinal, cresceste entre mimos exponenciais, panelas e máquinas de costura, tias devotas que te mascaravam de pierrô e nazarena, com as sete saias e tudo, e te levavam embevecidas ao fotógrafo da vila para eternizar o momento. Acabaste a gostar muito de mulheres, por vezes mais do que devias. Nunca soubeste dizer-lhes não. Ainda há poucas semanas me azucrinavas a cabeça com as exigências legítimas de quem está a sofrer (porque a dor transforma as pessoas em bichos feridos, de garras afiadas para os que mais amam), para logo a seguir ofereceres à enfermeira gira que te massajava os pés os sorrisos patetas que me negavas. Sempre a enfurecer-me, tu. Quanto a ela, um estaladão bem dado naquelas fuças maquiadas e não se falava mais no assunto. O tom condescendente com que te respondia, absorta, a tratar-te por você e aiaiais como se fosses uma criança ou um velho pateta. Sem perceber que estava ali um Homem que levava postas todas as honras e condecorações possíveis. Que não era o pijama do hospital que tinhas vestido, mas sim a farda brilhante de oficial general do nosso pequeno mundo, carregadinha de medalhas. De melhor pai, melhor marido, melhor avô, tio, irmão, primo, amigo, vizinho. Até a de mais bem vestido, meu vaidoso querido. Tanta honraria no teu peito que, com o peso do bronze polido, não te terias conseguido levantar da maca, mesmo que o tivesses podido fazer. Agora, o coro dos freudianos exulta: sopranos, altos e tenores, alternam-se a capela num final triunfante, prestíssimo: ignorante, a saloia da bata apertada ajeita-te a almofada sem sequer dar com os teus olhos encovados que se agradam à sua imagem, a fingir ouvir-te o relambório febril de idoso moribundo, sem atentar nas tuas débeis investidas de charme, enquanto pensa no médico casado que a convidou para um café. Meu Amor, ela não sabe que ainda tens trinta e cinco anos, que a achas engraçada mas um pouco vulgar, e que NUNCA foste velho.

 

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 (little miss sunshine)

 

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escrito por sofia vieira às 18:09



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