Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



closer

17.04.06

Saber que não existes, alivia-me, alija-me o fardo de não te ter tido. Nunca exististe porque eu te criei, moldei-te à minha precisão da altura, meu pigmaliãozinho de araque. Aquele que cruza os dias indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, que passeia o cão que não tem e se abriga e desalenta na sua própria insónia, que espera impaciente que discorra mais um domingo enquanto se asperge em delírios escritos de palavrosa grandeza, esse, não existe. Ou melhor, só esse é que existe - nada mais tens para venda, não comportas quaisquer extras nem me tentas com promoções ou incríveis descontos, leve dois paga um. No meu mercado de tubérculos-suspiros e de leguminosas-enxertadas-de vida, és coisa sem valor venal, que não justifica sequer o dispêndio administrativo da hasta pública; se atender ao direito de propriedade de qualquer uma das minhas veias, dir-te-ei res nullius. A constatação é-me razoavelmente feliz: por agora, só existe a microscopia do que de ti sobra; nada resta da nobreza que te inventei.

Autoria e outros dados (tags, etc)

escrito por sofia vieira às 21:16



Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.


Pesquisar

  Pesquisar no Blog