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24.05.18

 

Querida, coitada. Calhou-te a versão desactualizada, o upgrade que nunca foi feito, um composto de partes gastas, uma função mecânica carente de vida. Tu não o tiveste inexperiente e moldável, pulsante, vulnerável e obsceno, provinciano e altivo, romântico, miúdo, intacto. Sobrou-te um simulacro de marido, um arremedo de progenitor, um repetente na disciplina da família, vamos tentar outra vez, conformado e envelhecido, corroído pelos detritos do passado. Querida, nunca o soubeste incrédulo, pai pela primeira vez, o olhar de medo e espanto, quando tudo nos era ainda possível. Nunca lhe sentirás a frescura de outros carnavais, tem-lo em segunda mão, amputado emocional, amealhador, amargo, um esgar forçado onde antes esvoaçavam sorrisos, esmagado pelos erros da idade adulta. Foste uma segunda escolha, e embora te vejas uma segunda oportunidade, não passas da peneira com que tapou o céu. Nunca lhe sentiste o bafo desesperado da paixão, mas apenas o encosto da conveniência; não sabes do que a casa gasta, não lhe conheces a crueldade nata, embora partilhem a malícia e engendrem planos lunáticos de guerra no vosso covil secreto. Essa cumplicidade que partilham assenta primordialmente no ódio aos inimigos que inventaram. Não tens na tua posse o seu corpo pálido e imberbe, abandonado às noites alcantiladas e orgíacas da juventude. Querida, coitada, nunca lhe conhecerás a inocência feroz de quem teve um dia a certeza do cumprimento de todos os sonhos; resta-te uma espécie de cadáver esquisito, uma alma de pontas soltas, sem sentido nem propósito, que se tenta reinventar colando os princípios aos fins, sem saber da palavra a seguir, um estrangeiro na tua cama. Arremataste-o sôfrega; ele, que renegou proteger quem devia, o que te deleita porque te sentes única na providência das suas atenções, mas que também te horroriza, porque pode voltar a fazê-lo, basta-lhe atingir a soma certa de desagrados. Eu hoje sou ódio, sabes, mas já lhe fui estrépito, surpresa, morteiros e andorinhas nos beirais; tu és mera reacção vagal, és o encosto possível, és a que se prestou à companhia de quem que não quer estar em casa sozinho para que a saudade e a consciência não lhe gritem aos ouvidos. Querida, eu fui necessária, tu és instrumental: serves o propósito de lhe abafar o ruído da perda, mas mais vale isso que nada, pensas. Eu escolhi não o ter mais, por tudo o que dele sei; tu escolheste ficar com ele, por nada do que dele sabes. Coitada.

 

Scenes from a Marriage.png                                                         (scenes from a marriage)

 

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escrito por sofia vieira às 22:33

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01.02.18

 

Se isto é sobre o Amor é óbvio que virias aqui parar. Já ouço o coro dos freudianos ao longe, em sussurros celestiais, entoando notas de infâncias mal resolvidas, mas eu orelhas moucas, um dia trato-me do que pensam afligir-me. Irritavas-me como ninguém e sempre me contrariaste, por feitio ou gosto, nunca soube. Não te associo ao cliché do pai herói, porque nunca te conheci diferente, o excelente dos outros era o meu normal. Só muito tarde percebi que foste um golpe de sorte e que contigo me saíra a lotaria dos afectos primordiais. Ainda me irritas, quando revolvo a papelada que nos deixaste e não decifro os teus rabiscos e me pergunto porque raio não tiraste um tempo para nos facilitares os dias depois da tua morte, se foi o que sempre fizeste em vida. Não tenho por onde me guiar, não sei os comos nem os porquês porque não me respondes quando te chamo. Não há uma aragem fria que me arrepie a pele, uma porta a bater, um quadro a cair; nem ao menos uma vela que se apague do nada. Apenas não estás, e não há mistério que me console ou envolva, só um silêncio confuso de ravinas fundas. Não te percebo a letra arrastada dos últimos tempos, em folhas soltas, as notas avulsas com os deveres e os haveres misturadas com uma carta de amor da mãe, um texto meu, uma aguarela tua, uma fotografia antiga ou um recorte de revista sobre um medicamento qualquer. Tudo enfiado à pressa em micas de várias cores, numa lógica só tua, quando te terás apercebido da urgência de sabermos como aprender a tomar conta de nós sem ti. Tarde demais. Não vou falar da doença, não sou de chafurdar em lugares comuns que só avivam as memórias dos outros, orfãos como eu. Prefiro recordar essa veia ribatejana de galaró teimoso, incapaz de fraquezas sentimentais, mas que soçobrava perante o amor incondicional e quase servil com que obsequiavas a tua mulher, e as tuas outras mulheres, por esta ordem. Sempre as preferiste aos homens, mas faltava-te perspicácia e discernimento. Não foi à toa que foste criado pela tua mãe e as suas oito irmãs, enquanto em pano de fundo o teu pai, apaziguador e gentil, a quem saíste. Eu brincava contigo por causa disso: ou davas em mulherengo ou acabarias a gostar de homens, mimetizando as fêmeas que te nortearam a infância. Afinal, cresceste entre mimos exponenciais, panelas e máquinas de costura, tias devotas que te mascaravam de pierrô e nazarena, com as sete saias e tudo, e te levavam embevecidas ao fotógrafo da vila para eternizar o momento. Acabaste a gostar muito de mulheres, por vezes mais do que devias. Nunca soubeste dizer-lhes não. Ainda há poucas semanas me azucrinavas a cabeça com as exigências legítimas de quem está a sofrer (porque a dor transforma as pessoas em bichos feridos, de garras afiadas para os que mais amam), para logo a seguir ofereceres à enfermeira gira que te massajava os pés os sorrisos patetas que me negavas. Sempre a enfurecer-me, tu. Quanto a ela, um estaladão bem dado naquelas fuças maquiadas e não se falava mais no assunto. O tom condescendente com que te respondia, absorta, a tratar-te por você e aiaiais como se fosses uma criança ou um velho pateta. Sem perceber que estava ali um Homem que levava postas todas as honras e condecorações possíveis. Que não era o pijama do hospital que tinhas vestido, mas sim a farda brilhante de oficial general do nosso pequeno mundo, carregadinha de medalhas. De melhor pai, melhor marido, melhor avô, tio, irmão, primo, amigo, vizinho. Até a de mais bem vestido, meu vaidoso querido. Tanta honraria no teu peito que, com o peso do bronze polido, não te terias conseguido levantar da maca, mesmo que o tivesses podido fazer. Agora, o coro dos freudianos exulta: sopranos, altos e tenores, alternam-se a capela num final triunfante, prestíssimo: ignorante, a saloia da bata apertada ajeita-te a almofada sem sequer dar com os teus olhos encovados que se agradam à sua imagem, a fingir ouvir-te o relambório febril de idoso moribundo, sem atentar nas tuas débeis investidas de charme, enquanto pensa no médico casado que a convidou para um café. Meu Amor, ela não sabe que ainda tens trinta e cinco anos, que a achas engraçada mas um pouco vulgar, e que NUNCA foste velho.

 

Little-Miss-Sunshine-little-miss-sunshine-462352_5

 (little miss sunshine)

 

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escrito por sofia vieira às 18:09

às tuas ordens

30.07.17

Manifestas a tua dor aos outros de forma gentil, como um pássaro ferido que acorde com a luz da madrugada por entre a ramagem, a cumprimentar em silêncio a manhã. Cauteloso e inseguro, mas num cantar baixo e meigo, como um disfarce (porque a vida te é predadora). Essa gentileza transtorna-me, o modo como a preocupação dos outros para contigo se transforma em preocupação tua para com eles. Para comigo. Não te sei consolar, saem-me palavras tortas e rarefeitas. Ainda bem que são poucas, parecendo que não, nestas coisas, a percentagem conta: menos é mais,  quando se age de maneira tonta porque se nos descoordena o sentir, a inteligência emocional nos abandona e ficamos vadios. A minha estranha postura, quase fria, não tem nada de defesa, meu amor, mas de embate. À espera que invistas contra mim, contra o cabrão do mundo, o filho da puta do universo. Anda, que eu aguento. Às tuas ordens. Ou talvez queira ser contigo como sempre fui: não te tratar nas palminhas, não fazer cerimónia nem dizer-te o que é suposto, como o que todos os que te amam te vêm dizendo há dias. Ou se calhar não o sei fazer. Neste momento, és-me território tão desconhecido quanto marte - ou mais, pois mal te consigo sondar. Só sei que quero dizer-te tudo o que te apeteça ouvir, é a minha forma de te dar mimo. Às tuas ordens. De resto, ando aos papéis. Parece que o coração se me mudou para o lado direito e não bate certo. Como o que te aconteceu: não bate certo, está errado, é o inverso do avesso do avesso do avesso. O que eu gostava mesmo era esconder-te da dor em modo uterino: recolher-te cá dentro, onde ela não te chegasse; dar-te guarida na minha pele, e depois embalar-te numa canção triste, porque, sinceramente, qualquer alegria me parece despropositada e inútil como uma clareira súbita num bosque cerrado. Não sei como te fazer bem. Estar não chega, parece-me. Mas é isso que quero: estar contigo para poderes ficar calada. Aceito de bom grado o teu silêncio – ou isso, ou gritos, queixumes, birras, indolências de formas várias, caprichos e desatinos.  Às tuas ordens. E outra coisa: mais do que a tua dor, comove-me essa gentileza meiga de pássaro inseguro: danada, furibunda, quebrada, ausente e incrédula, a espreitar a medo por entre as folhas... mas com o espírito – esse presumível foragido - intacto (que está. tu é que, agora, não o podes ainda saber).

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escrito por sofia vieira às 17:01

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10.11.16

 

Foi só um beijo, não foi?; um beijo degustation, uma curiosidade que não matou o gato, alheia a qualquer romantismo, para o qual seria sempre cedo demais. Tão infantil como enfiar um insecto num frasco e vê-lo aflito, arrancar um braço à boneca, ou estraçalhar o carrinho de rodas, embora mais inóquo porque nada em nós se partiu ou aleijou. Uma maldadezinha transgressora, mas daí não veio mal ao mundo. Na verdade foram dois ou três, mas quem os contou? O que interessa é que ganhei à calçada com os meus saltos altos, cujo eco marcava os segundos que tínhamos até nos despedirmos, num equilíbrio perfeito que só balançou com aquele beijo que, ou muito me engano (ou só não me lembro), nem sequer foi correspondido. Entretanto, a noite morreu, a calçada continua lá, a atraiçoar quem não a conhece de gincana; as putas terão sempre um rabo invejável e as minhas pernas continuarão desproporcionais (eu sabia que devia ter ido de botas). Um beijo tão cauteloso quanto atrevido, como o explorador que entra num túmulo que acabou de descobrir (cuidado com a maldição), se calhar a esconder a perversão que nos é comum, embora nunca a tenhamos experimentado juntos. É na conversa que damos cartas, sem sequer falar de sexo (embora também). Mas, depois, um ligeiro entrelaçar de dedos, acoitado pela noite, e foi essa doçura inesperada que me ficou, não me perguntes porquê. Estou com o poeta, mais vale estarmos sentados ao pé um do outro, ouvindo correr o rio e vendo-o. Porque a cidade continua um estaleiro, os jardins mal iluminados, as noites estranhas e mornas, e o beijo entretanto perdeu-se nas memórias que o gin apagou. Foi só um beijo, não foi? (sei que abuso da anáfora, mas antes isso que da retórica). Entretanto, já teremos dado outros, de significância acrescida, plenos de intenção, em preliminares demorados que terão selado supostos futuros, como se o tempo que um beijo promete fosse garantia de alguma coisa. Como se os toques amorosos também não mentissem, com a sua coreografia calculista e cronometrada em função do receio da perda. Como se cada amantíssima jogada não fosse interesseira e bajuladora para sentirmos, no fim, o gosto da vitória, um açambarque de piratas, por ora pertences-me, tenho-te onde quero, rebolo-me no teu ser. Mas que se lixe o cepticismo, muitas bocas prolongam-se a gosto, ficam na pele impressões digitais, gritam-se Oh Deus!, Isso!, Dá-me tudo!, e ignora-se o vazio que nos vem depois de nos virmos. Foi só um beijo, não foi?

 

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escrito por sofia vieira às 23:22

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10.11.16

A gente sabe lá de quem é o amor que não temos, por onde anda, a quem aproveita. Nós não, com certeza. Muito do que temos reside naquilo que não nos acontece. Quando falamos dos dois, o assunto debanda em todas as direcções como uma manada assustada. A linguagem comum do nosso mister é um código confortável que nos mantém o desejo ocupado, ao menos mantemos as línguas afastadas, não há nada menos sexy do que falar do que não nos dá gozo fazer. Esforças-te por não olhar para o relógio e eu esforço-me para não reparar que te estás a forçar. Sai-nos tudo tão natural como petróleo refinado; a superficialidade nervosa, a conversa volátil como uma nuvem de verão. Só o olhar nos trai, quando escurece e perscruta, mas, ainda assim, só vemos no outro a prosaica e terrena antecipação do prazer, mesmo quando este não acontece. Não queremos realmente saber o que o outro sente, intuimo-lo desde o primeiro dia, seja lá quando isso foi, no princípio era o verbo; eu miúda pelas esquinas do colégio a arrancar cabeças às bonecas das outras e tu já a espreitares-me o frenesi destrutivo pela fresta da porta da aula de trabalhos manuais (esta parte inventei, mas podia ter sido assim). Mal tu sabes que, às vezes, queria acompanhar-te aos casamentos com um vestido de seda selvagem a combinar com a tua gravata, dolorosamente aprisionada nuns sapatos muito altos a fazer pandã, os dois apanhados numa fotografia em pose de amigos dos noivos, num status quo entediante e piroso. E depois andarmos pelos fundões da cidade, indiferentes e brilhantes, a estarrecer o mundo, com as minhas gargalhadas de estar feliz a ecoar nos graffitti dos becos de má vida. Não existem poemas de amor para quem não sabe a quem deixar a sorte do futuro. A gente sabe lá de quem é o amor que não temos.

 

 

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escrito por sofia vieira às 21:30

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10.06.16

Olha, uma visita turística está bem, mas não te iludas: não quereria percorrer todas as tuas divisões, cerra as antecâmaras antes que veja demais. Nada sei do teu sorriso, mas sei de um segredo nos teus olhos, a única parte de ti que exibes à exaustão, como se ter pestanas longas atestasse qualquer coisa de bom em ti. Já eu, queimei as minhas a prescrutar os teus olhos, pelo que pelos meus, não vais lá. Depois, o meu marido chega, eu faço o jantar e finjo que tenho uma pestana tua na minha sopa, que afasto gentilmente para o canto do prato. Mentira: como-a, juntamente com as ervilhas. Sempre fugiste, pelo que é uma forma de te sentir o sabor. Porque não podes sair cedo do trabalho, porque a namorada tem ciúmes, porque não convém ultrapassar as inconveniências da proximidade. Mas não faz mal: imagino que o teu toque seja o contrário do de midas e não falo de moedas de ouro. Até agora, foste mero prenúncio de desastre natural, mas apenas uma daquelas trovoadas secas que antecedem as monções e que se limitam a criar altas espirais de fogo apontadas para o céu, poupando o verde que existe em volta. Não deves ser compatível nem com alguém do teu género, quanto mais com o teu oposto: consta que estes se atrem, mas só por breves momentos, como sabemos; depressa nos desinteressamos, porque olhar para o espelho cansa a não ser que sejas o oscar wilde. A tua escrita, às vezes inspirada, tem no entanto um quê de piroso, como uma loura bonita vestida de prada que deixa as raízes negras do cabelo à mostra. Queres classe com perversão, mas não existem ladies na mesa e putas na cama, isso é o tema de um livro mau, ou um ideal pimba, que confundes com algo transgressivo. Somos todas putas em todo o lado, até na mesa, mas fingimos bem, basta comer de boca fechada e não errarmos o talher. Mesmo assim, se gargalharmos como a julia roberts podemos errar no das caracoletas. Desconfio que tens alguma da aridez ingénua do homem comum de steinbeck, mas fazes por encarnar a ébria urbanidade de um bukowski estilizado. Embora se desprenda um pudor quase retrógado na tua escrita que te leva a conter o calão, talvez para não desagradar as massas, ou apenas porque não consegues, ficam-te presos os dedos. Achas-te atrevido na cama, mas aposto que qualquer coisa mais do que umas algemas fofinhas e a promoção do dia na sexshop mais fina da cidade, já te repugna. Não estamos destinados um ao outro porque estaríamos feitos um com o outro. Quando chegasse o momento de jogarmos ao rei manda, temo que, se te ordenasse três passos à caranguejo, assim cautelosos e de ladecos, investisses contra mim em rodopio, dez passos à bailarina, convencido de que me estavas a levar a abrir as pernas com o teu encanto natural, um passo à tesoura, menina, vá, que aqui mando eu. Olha, uma visita turística está bem, fiquemos assim: ouvirei atenta as palavras monocórdicas do guia e guardarei o folheto da entrada com o mapa confuso dos teus visitáveis recantos. Assim, cumprem-se ambos os nossos desejos: manténs a distância que sempre quiseste e eu fico a olhar a espiral de fogo até que se extinga no centro da relva verde que piso, a salvo nas orlas, assim não me queimo sem que valha mesmo, mesmo, a pena.

el secretodesusojos.jpg(el secreto de sus ojos)

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escrito por sofia vieira às 21:05

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17.02.16

Um texto de amor é um texto de amor. Nem sempre remendado com metáforas entrepernasedesejosmolhados. Um texto de amor é saudades furibundas contigo ainda ao lado. É pés morenos enfiados em chanatas que escorregam em pedras molhadas só para vermos os confins enovoados de uma praia. São tardes na varanda a olhar para as cegonhas e intercalar tratados de eloquência com silêncios de abissais, como quimeras. É encobrir segredos, confrontar ofensas, seguir em frente, não perdoar porque nada há a perdoar, apenas disparates que fizemos porque sim e porque tudo foi ontem. É tocarmo-nos onde mais ninguém tocaria se não fosse a sério, é dizer o que mais ninguém diria se não nos soubéssemos ouvidas, é usar o pressentimento para correr para a outra ou viver a nossa vidinha aparte quando pensamos que tudo está bem. O nosso amor é amoral, esquecido, translúcido e presciente. Não duvida nem desconfia. Não faz cerimónia e tanto anda ao estalo como aos beijos. Mas não levanta a voz, não se ressente e é alegremente ordinário, destravado como um filme cómico para maiores de vinte e cinco. É vernacular, sempre a desmembrar o cinismo alheio, filho da puta canibal, mas também clemente como uma freira bondosa, daquelas que pesam quarenta quilos e vão para áfrica. Raras são as vezes em que não estamos de acordo, mas quando acontece, discutimos à exaustão até não mudarmos de ideias. Depois, seguimos em frente para outra coisa qualquer. Nada em nós se parte nem se reconstrói, não é preciso. Somos intactas. Não nos fazemos favores nem nos agradecemos, basta pedir; nem isso: basta dizer ou calar. Às vezes, um átomo revolto desperta em nós um ciúme azedo e súbito, mas volátil, e quase nunca uma com a outra, o que nos facilita a vida: podemos sempre infernizar a dos outros. A nossa amizade é antiga, somo almas velhas reencarnadas que se encontram até já não se poderem aturar, fartas das tantas vidas bizarras em que foram obrigadas a cruzar-se. Brincamos de ser livres mas, às vezes, mirramos em celas contíguas, duas prisioneiras a comunicar pelo sistema de ventilação e a engendrar irreais planos de fuga. A tua força perante a adversidade, que insisto em confundir com optimismo, irrita-me. Mas calo-me porque tu sabes. Vejo sempre o pior cenário em tudo e nem disso me tentas demover, o que me irrita ainda mais. Muito é preguiça em nós, daí se calhar não precisarmos de conversas de café e preferirmos beber e fumar e comer de boca cheia - mas com os talheres certos. Esta última parte é tua. A telepatia não é um dom, mas uma artimanha de quem não lhe apetece esforçar-se muito, o que é o caso. Quero que te lembres da piscina insuflada no meio das ervas daninhas, da paz perfeita naquele bar longínquo com os homens mais bonitos do mundo, da tua gata aninhada no meu colo (aguenta-te), dos gins improvisados com as sobras de fruta, das minhas costas no teu horrível sofá, dos nossos cães a fugir pela areia, e do inferno que passei junto a um mar onde só contigo consegui regressar. Sabes que irei logo a correr, quero lá saber se para o outro lado do mundo, irei.

euemad2016.jpg

 

(...) 

 

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escrito por sofia vieira às 13:29

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19.12.15

Não que sejas um monstro, nem mesmo um traste, és apenas a metade de um homem cuja outra metade um dia quereria ter sido boa. És meia torrada com pouca manteiga, os primeiros capítulos de um livro gordo, um vinil riscado por alturas do refrão. És arraçado de maldade, embora não sejas propriamente mau: só vês o mundo zarolho. És a parte importante de um projecto que falhou, porque a parte que o fez falhar.  És a metade, não de um todo (nem sequer de um todo), mas para aí de dois quartos. A metade da metade. És o bólide que abranda a meio mesmo que nada se atravesse na reta iluminada; a parte que não recua nem pede perdão, que chafurda na pena e se excede na raiva, que atira com o desgosto ao ar para quem o apanhar, que marra contra comboios de chelas, ignorando o desvio a tempo. A metade que tu és agarrou-se ao meu eu inteiro. Fui mais matéria, mas menos espírito. Agora vou apanhar-me as pontas soltas,  colar-me os cacos, serzir-me por dentro e deitar-te fora, como bagagem, tem que ser. Não deixarei mais que que trepes por mim como um pai natal de varanda, pendurado num qualquer apêndice meu até ao carnaval. És pintura inacabada. Não a adoração dos magos,  mas mero esboço de um estranho, à venda na zona turística do centro histórico.  Não és o escravo incompleto, não descendes de um escultor maior. És a metade que falta, mas não a metade que conta. Escolhe a vida, não escolhas a vida. Espera!, escolhe a vida, mas dá-lhe com tudo:  não arrepies caminho , nem vás por atalhos, capuchinho, não cortes nos cigarros nem no perdão;  aguenta-te à bronca, que o teu fim está longe, para lá do horizonte que segura o mar. Mais depressa vês a américa.

(21 grams)

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escrito por sofia vieira às 21:02

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16.06.15

Tem dias  em que me falta a solidão do nosso silêncio, vá lá a saber porquê. Era um silêncio infeliz mas a tristeza também enche, quando o resto falta. É uma carência que me bate a dias incertos, sem aviso nem razão. Passa sem deixar vestígios, como um ataque de ansiedade no meio do trânsito ou uma dor de barriga antes de um exame de matemática. Aguento-me quieta porque sei o desfecho de ir ao teu encontro, impulsiva, como de costume sem nada para dizer,  só para te ver, que tenho saudades. Não tenho. Estou apenas num daqueles dias em que não aguento sozinha os murmúrios da cidade.

Sâo repentes em que preciso de ver a tua miséria para minorar a minha, relativiza-la, perceber que o teu poço é mais fundo do que o meu, que nem o eco da tua voz cá acima chega. Tomo dois Rivotril, e espero. Escondo a chave do carro para não me apanhar sonâmbula à tua porta, a olhar-te a janela, aberta ou fechada, será que estás, que me vais deixar entrar? Que vou poder escarafunchar na ferida mais um bocadinho? Ou já cicatrizaste? É o mais provável, e é o medo de ver que ganhaste  que me impede na verdade de me meter ao caminho. Rezo sempre para que me ignores e me desprezes, pois estarmos juntos é como dois sem abrigo que têm de se encaixar no mesmo saco cama sebento para sobreviverem à noite fria nas escadas de um prédio fino. Limitam-se a lutar por espaço e vêm no outro o seu próprio desamparo.

Tenho o coração aos pulos como se de repente me apaixonasse, porque sei que neste momento corro perigo. Eu, não tu. Tenho pouco em mim, mas corre-me nas veias força vital e alegria, gente, coisas, poesia, cafés, génio e música; e, se eu deixar, sugas-me esse pouco que tenho, num vórtice de tornado, deixando-me oca, às cabeçadas pela noite da cidade, a aceitar shots de velhos endinheirados de esgar lascivo, dos quais fujo quando finjo ir à casa de banho.

O Sr. Gil, guarda reformado e segurança da minha rua, cuja mulher, porteira do prédio em frente, se põe à janela a ajeitar-lhe o capachinho antes de ele sair para o trabalho,  já sabe, quando me vê chegar bamba, a falhar a fechadura da entrada, que andei a fugir de ti. Trata-me por menina, mas penso que no fundo me acha velha, apesar de ele andar já perto dos setenta. Nessas noites, quando percorro todas as ruas de Lisboa menos a tua, parece que adivinha, abre-me a porta do carro e encaminha-me gentilmente para a entrada do prédio. Depois, fica a olhar para a minha janela, como que para ter a certeza de que o perigo já passou e que as mãos já não me tremem. Em tempos, costumava ver-me a chegar de tua casa de madugrada e era como, se na sua sabedoria transmontana, adivinhasse que vinha seca por dentro, como um graveto morto. Tratava-me com uma gentileza desmesurada para que não me partisse e dizia com ar solene (apesar de me achar velha) menina, tem que se afastar de pessoas que lhe fazem mal, como se me estivesse a ler a sina. Acho que o menina  é de dó, porque não tenho um homem, o que é uma espécie de orfandade, ou então como se fosse uma tia solteira de útero mirrado que passasse os dias a olhar a fotografia gasta  do cabo raso que lhe fizera promessas fecundas no momento em que os pretos lhe rebentaram os miolos no assalto à caserna. A carta ficou a meio e tem nas pontas vestígios de sangue, mas ela ainda a guarda, numa caixinha de música que só cospe uma nota. Eu sou essa tia da carta incompleta, que enlouqueceu porque sabia o que viria a seguir, apesar de não estar escrito.

Sim, a seguir venho eu e, por milagre ou obra do diabo;  encontro a porta verde cá de baixo aberta e subo as escadas estreitas e mal cheirosas até ao primeiro andar, sem tocar para que não me possas deixar na rua. Quando vês quem sou, hesitas, quase que te ouço gritar, mudo; pode ser que abras, pode ser que não. Se abrires, encontro-te invariavelmente nu, calado, despudorado, a cama desfeita, e assim continuas apesar da minha presença, a ver tudo em ti descaído, sem força, desossado. Um dias destes, encontrar-te-ei acompanhado na cama e nessa nudez inválida, quase de certeza, o que não seria de todo embaraçoso. Ou me fazia convidada para um café, apresentando-me gentilmente, ou me despedia sorridente, ou partia-te a casa toda, companhia incluída. Se calhar, fazia as três coisas, não necessariamente por esta ordem. E continuaria a não te querer para nada.

Na próxima sessão de terapia, falarei  sobre os bichos da madeira que corroem o soalho da tua casa velha, que subiam a parede e me percorriam durante a noite, mordendo-me, e fazendo-se notar mais na minha pele do que as tuas mãos geladas.  Que só aqueciam pela manhã quando acordavas teso e te friccionavas violenta e cadentemente, como se à beira de descobrires o fogo na idade da pedra. E eu, na outra ponta da cama, a apreciar-te a eficiência extrema, num rancor resignado, a fumar o décimo cigarro. Afaste-se de quem não presta, menina. Mais dois comprimidos e um uísque puro, e só daqui a três semanas me volto a lembrar dos café au lait com que me obsequiavas ao longo da noite por não me conseguires foder.

vw.jpg(Who´s afraid of Virginia Woolf?)

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escrito por sofia vieira às 20:59

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29.01.15

Apagar e escrever de novo. Mandar a presunção das palavras caras para o raio que as parta; porque não foram escritas com as vísceras de fora, nem com o coração a bombar enquanto sobe pelo esófago com a flexibilidade invetebrada de um polvo. O calculismo de um ataque cirúrgico de palavras cuspidas resulta na vida real, mas é um nado morto na escrita. Quando não existe uma raiva verdadeira, uma devoção honesta, ou a urgência de um desespero, mas apenas um esforço para ocultar a verdade figadal que nos dá vómitos, a que não se ousa sequer pensar. Agora, é olhar para a página em branco e tentar fazer sentido das emoções que, de tão agora sim agora não, impedem qualquer lógica semântica, rematada com a habitual petulância. Tu só me afectas quando me convocas emoções, de preferência negativas. Porque, com as boas, posso eu bem: incorporo-as e esqueço-as assim que se tornam passado, como um bitoque que me vai para as coxas.  As más, iluminam-me por dentro, como um fogo de santelmo, aceso com o lixo que deixaste fora dos contentores para que eu tropeçasse nele. Às vezes, sinto que comemoras os meus fracassos, o que me confunde. Nunca o ódio me foi próximo do amor, como apregoa o ditado,  mas a raiva consegue estar perto do desentendimento que existe no amor. Exaspera-me quando me tentas convencer da tua lógica sentimental, como uma equação  amorosa. Insistes em descrever o que sentes através de algoritmos e raízes quadradas. E eu, que não percebo nada disso, nem com um love for dummies,  ignoro-te a maior parte do tempo, como a previsão meteorológica, porque, tal como contigo, sabê-la não significa que a possamos alterar. Tens uma estranha característica: a de não deixares que a tua dor de mude, embora nem por isso te faça mais forte. Mas estás convencido de que é isso que te  mantém de pé. Talvez exista uma equação para tal paradoxo, um dia explicas-me, quando perceberes que a não és a tua própria solução. Já a minha dor, muda-me várias vezes ao dia, quando decide visitar-me (mesmo que lhe diga que não estou). Eu sou o desconforto do inesperado, o exaspero do aleatório, a maldade acriançada do saiu-me sem pensar. Nunca poderás contar comigo para te fazer feliz, mas, quando deixo as vísceras falar, elas gritam cá dentro que te amo. E agora descalça lá esta bota.

(rites of love and math)

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escrito por sofia vieira às 20:53

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14.12.14

Está-se bem, sem ti. Morno, com a sopa dos velhos. Tanto se me dás como se me deste. Sei-te por perto, não me assome a vontade de cortar o tédio em dois. Trazes sorrisos atordoados e frases feitas, e revelas-te na directa proporção de um capricho súbito ou um pensamento ao calhas. Há então em mim um tremor ligeiro, um rumor volátil, quase só um boato nas bocas do mundo, inconsequente e tardio como um bilhete suicida: um breve espasmo em quem o lê, agora é tarde já não adianta. Sofres do mal de seres pouco, és pescador de corrico, de chumbo leve e de mar sem enchios; rasas-me a superfície a ver se mordo, mas desistes rapidamente, porque me sabes bicho de águas profundas. Às vezes, consegues-me. Quando a tua melancolia se sobrepõe à vontade de teres graça e se desprende na minha direcção, num vislumbre oblíquo. Tem dias em que me assentas razoavelmente bem, como um cachecol num dia frio e eu saio de casa de gola alta: um acessório que aconchega sem ser preciso. Está-se bem, sem ti. Mas, pelo sim pelo não, vai ficando. Deixa-me saber do tempo para amanhã e sondar os soluços da Terra, que eu nunca me fio na brandura dos elementos. 

(belle de jour)

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escrito por sofia vieira às 20:49

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28.02.14

Falas-me num linguajar distante e eu aceno, fingindo perceber o ininteligível. Argumentas seguro e a direito, como tu mesmo: uma linha reta, com um propósito teimoso e autista, que une um ponto a outro sem passar por lado nenhum, sem passar por mim. E eu, aos ziguezagues,  aos recuos e avanços, ao arrepio e em investidas, consoante o tempo ou o tom com que o rui da tabacaria me deu os bons dias, de acordo com o alinhamento dos astros, o dia do mês ou a folhagem das árvores. Eu, a apanhar bonés, à toa e à deriva, no inverso do teu verso, GPS avariado, aguardando instruções, de entrada ou de saída. Guardo as palavras com que não te respondo porque não as quero desbastar em vão, contra essa parede que és tu, atordoada de incompreensão. Não falas a minha língua, e eu que nunca aprendi outra e agora já sou burro velho. Suplicas-me com esse teu olhar aguado, como um paralítico amarrado a uma cama, se piscas um olho é sim, se o fechas é não, e nem mesmo assim te decifro, perdida com tanto bater de pestana. Ris-te de coisas que me são estranhas, algumas que até me repugnam, de tão pueris ou medíocres,  e não me achas piada, o que me enfurece mais do que se fosses com outra, ou  do que se me roubasses o anel barato de zircões baços que a minha avó me deixou. É uma raiva que cresce como um urso que se põe em pé,  que se levanta na tua direcção, desembainhada, feroz, apontada ao teu coração desprevenido. Não to admito. Não admito que me fales ardentemente, com a convicção desesperada de uma mulher neurótica, para que eu nada perceba, para que sejas ruído de fundo, música de elevador, a estática enervante de um rádio mal sintonizado. Não te admito que não gargalhes quando sou maravilhosamente  hilariante, que não me sejas cúmplice quando sou irónica ou maldosa, e que me obrigues às tuas patéticas investidas. Não me obrigas a nada, dirás. Mas basta quereres para eu me sentir obrigada, porque um amor puro como o teu tem muita força numa alma penada como a minha, que só desama e descarta, despeitada por não o sentir assim, na pele morta que já não se arrepia. Deve ser tão bom!, esse querer bem, esse propósito de fazer feliz, desinteressado e simples, deve ser tão bom o amar. Por inveja, obrigo-me a ouvir-te e a tentar fazer-me perceber, colada a ti a respirar o mesmo ar,  à espera que o teu amor se me pegue como um virus. Devo ser imune porque, quando falas e falas e falas,  e me apontas os olhos aguados de esforço, só o silêncio me invade, como o de uma igreja vazia onde dormem os ecos dos santos.

(Dodsworth)

 

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escrito por sofia vieira às 20:45

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05.11.13

Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares. Nunca passaste do meio termo, da fugacidade matinal, da visita tardia de médico. Vinhas anunciado, com urgência de entrar e pressa de sair, tic tac tic tac. O fato ainda vincado ou já amarrotado, o alívio momentâneo do dia de trabalho, poucas palavras, umas queixas, beijos, o resto, e já estava. É tão bom não foi. Bonito, sempre, mesmo com a barriga a fugir ao cinto de marca, a camisa branca de funcionário a horas, os óculos a postos, a preocupação adulta na cara de miúdo, a bochecha a pedir beijos de consolo. E eu, despreocupada e alheia, cerveja fresca, descontrai, o alívio da tarde antes do porvir da noite, nunca te pedi que ficasses, nem mais um bocadinho, uns segundos apenas. Era assim, e chegava-nos. A palavra amor repetida no orgasmo, o léxico enganado pelo gozo rápido, nada de mais. Depois, semanas sem uma palavra, eu a meter-me contigo, tu a perceberes tudo mal, ela quer mais de mim, mas não era nada disso. Era eu a dizer-te que sabia, sabia da tua aridez e indiferença, do teu amor de segundos, e a mostrar-te que não servias para lágrimas, apenas para a redonda ironia de quem realmente não se importa. Era eu a imprimir-te a distância, a sufragá-la, menos é mais, a rir-me da tua ilusão de achares que eras preciso. Tudo em ti é inofensivo, és o contrário do abismo, do perigo, da adrenalina da traição; és a hora certa e eu, mais uns minutos que roubas generosamente à tua vida, tic tac tic tac,  como uma reunião ou um jogo de futebol. Nunca foste histeria nem o reboliço da espera, borboletas na barriga ou antecipação húmida do toque. Nem eu. Fomos pausas e intervalos, suspensão e brevidade. A ausência de tudo o que mata e faz mal fez com que durássemos tanto. Isso, e as inúmeras vezes que te disse não. Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares, como a cerveja que bebias antes de me enfiares a língua, tic tac tic tac, e o relógio começar a contar.

 

(one hour with you)

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escrito por sofia vieira às 14:08

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02.09.13

to keep the fire burning

 

https://www.facebook.com/sofiavieiraworkinprogress?ref=hl

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escrito por sofia vieira às 22:37

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09.07.13

Tantos anos, e o que nos resta?, senão esta intimidade de mucos e fluidos, de cócegas no lugar da tesão, e este riso dissonante em vez da adrenalina bruta da paixão?  Que nos resta?, senão as noites no computador, as costas dadas ao outro, colmatadas com pequenos cuidados, o que queres comer, o que eu quero beber, que fazer amanhã? Que nos resta?, senão o silêncio no carro, os carinhos esquivos que entremeiam o sexo, repetido e inócuo, as escolhas do dia, a rotina que nos sustenta, hoje passeio o cão e tu, despejas o lixo,  eu ao supermercado e tu, compras cigarros? Senão um aperto cá dentro que nos abafa a pele, esta falta de ar indizível, o conforto morno das coisas conhecidas, a mansidão da carne apaziguada no previsível, porque nada vai mudar nunca, tu e eu seguros, seguro de vida, seguros para a vida? Que nos resta?, senão  ceias de tabuleiro em frente à tevê, palavras sem surpresa na linha derradeira do tempo, a conta que temos em comum, a loiça por lavar, a roupa por pendurar, as despesas por pagar, um copo a mais a horas mortas, quando já estás a dormir? Para onde foi?, aquela monção dilúvio, o frémito, a tontura, o sobressalto antes da queda, a voragem indecente dos corpos a pique, o cheiro a verão que antecipávamos no outro? Para onde fomos quando nos fugimos?

 

 (the last time I saw paris)

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escrito por sofia vieira às 22:31

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28.05.13

Vejo-te de outra maneira, mudaste de cor e de aura. Não sei em que momento os meus olhos sorriram gulosos para o teu rabo e para o teu peito ravina ou quando, simplesmente, convergiram para os teus, indiferentes à diferença que vi em ti. Nem imagino, de onde surgiu a tua pele de repente tocável, como um instrumento de veludo ou um  animal macio e irresistível, que apetece cobrir de abraços e estrafegos, dos quais se debate porque estranho ao excesso do afago humano. Nem calculo, quando dei por mim a cheirar dissimulada o teu cabelo solto e escuro de breu, a passar por mim num esvoaço, desatento e desprevenido, como se eu inofensiva. Não faço ideia, sequer, de quando deixei de ver a tua boca, que fala  e bebe  sem cerimónia,  como o sítio de onde quero beber, enquanto tu calada, solenemente sôfrega, ligeiramente espantada. De quando a conversa passou a escuta e o riso passou a canção; as gargalhadas, a sinfonia; os passos, a compassos; e os teus dedos compridos,  a solilóquios de inteligência, que escondes, enrolados em si mesmos, quando não estás a fumar. Nem de onde vem esta saudade que o tempo não justifica, mais de corpo que de companhia;  e, muito menos, este ciúme simplório das tuas outras mulheres, que nem ganância é de te de ter só para mim, pois tal coisa não a sei.  Sou novata,  uma caloira na tua escola, com medo da praxe que me espera. Intuo em ti o conhecimento antigo das amazonas, uma linhagem real de mulheres que borbulham de sangue azul, que é a mais quente das cores. Vejo-te resultado de gerações cumpridas e batalhas ganhas. Vejo-te dor e esforço,  segredos e paradoxos, aventura e abandono.  Ou  então, apenas te imagino,  e tudo isto não passa de curiosidade pelo que de ti ignoro, ou por cheiros que não conheço  e geometrias que não explorei (pretendo poupar-te ao embaraço de saberes que te quero, por isso recorro ao lugar mais comum). A verdade é que não sei, de todo, em que exacto momento cada parte maiúscula de ti se transformou num pormenor esmiuçado por mim.

 

(blue is the warmest colour)

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escrito por sofia vieira às 03:57

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12.02.13

Há momentos assim, de guarda baixa, nos quais a imprudência explode em duas línguas que se enrolam em público, quando todos à volta se desvanecem em pó, como múmias remexidas sem cuidado. Há momentos assim, em que se fazem promessas falsas mas que de tão pungentes são por um segundo verdadeiras, em que morrem os sorrisos de circunstância e as palavras banais ficam presas na garganta, porque as cobras enrodilhadas nas bocas não as deixam sair, ameaçadoras como víboras. Há beijos de cinema mas de verdade, iguais ao daquele grande plano no final, que nos ilude com a expectativa de felicidade eterna, antes de nos levantarmos da cadeira e seguirmos as luzes no chão que nos indicam a saída para a vida, ignorando os créditos finais. Um beijo perfeito, às vezes seguido de outro, mas, antes, inspirar e olhos nos olhos, tentar parar, racionalizar o prazer, subestimar o momento, tentá-lo risível, fortuito, embaraçoso. E num ápice, porque nada resulta, as mãos atrevem-se mais que o beijo, o corpo acorda num esplendor acelerado e a alma adormece, inerte e sem sonhos, isenta de culpa. Não há antes nem depois numa fusão de tal calibre. A técnica exige-se perfeita, um beijo assim é uma forma subtil de sexo, de tão obsceno na sua ostentação pública, e não é para todos. São precisos dois dotados para a perfeição do amor instantâneo, para criar aquele instante que suga a realidade no seu vortex para no dia seguinte ser só mais uma letra na caligrafia dos dias. Sussurram-se palavras cortadas, quando se vem à tona inspirar e as bocas se separam, para sustentar a magia, presa por um fio de saliva, porque vai não vai e somos de novo abóboras com alma, gordas e inchadas com a súbita consciência dos outros, os níveis de oxigénio repostos, noções espacio-temporais, relógios no pulso e chaves no bolso, a caminho de casa, no embalo morno da domesticidade confortável.

 

(Human Desire)

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escrito por sofia vieira às 03:19

(post reeencontrado)

07.12.12

 

Olá tenho saudades. Hoje lembrei-me de ti, não tenho feito outra coisa não imagino porquê. Que tal almoçarmos agora um dia destes? Apetece-me corromper-te com beijos conversar contigo. Lanchar, se te der mais jeito e desvirginar o teu silêncio com a minha língua ouvir-te falar. Preciso de saber que ainda me queres o que tens andado a ler. Já nem sei o que te costumava dizer, mas ainda soletro de cor as palavras com que me vestiste que não seja por isso: o exercício do amor da amizade é como andar de bicicleta, nunca nos esquecemos. Sei que tens muito trabalho quero lá saber e que mal te lembras de mim atreve-te a esquecer-me. Mas, para um amor amigo, arranjamos sempre um bocadinho. Uma vida hora, é só o que te peço. Naquele hotel da baixa, o que tem o quarto a esplanada de frente para o rio, lembras-te? Em não podendo ser, morro deixa estar. Talvez para a próxima reencarnação. Fica mal e apodrece sem mim bem. Um beijinho à estúpida da tua mulher e outro aos teus fedelhos ranhosos miúdos. O meu paciente marido manda-te à merda cumprimentos e pergunta quando sais de vez da nossa cama aparecem. A ver se combinamos um churrasco de domingo com todos eles de preferência noutra mesa. Até jà Adeus.

 

(September)

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escrito por sofia vieira às 00:34

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29.11.12

O que me afasta de ti não é o medo de querer que fiques. Sou futilmente sensível à beleza e tu és belo como um deus ocidental, o que te valeu as minhas pernas abertas, alguns suspiros infantis e uma angústia breve que achei saudade mas que não passava da pedinchice de um corpo em falta, de mera leviandade hormonal. Digo-te não porque és apenas refrão, monólogo, um livro de mil páginas que apetece abandonar a meio do primeiro capítulo. Não me leves a mal: és uma boa alma, correcta e meiga. Apetece ter-te para o puro prazer da vista e do toque, como uma escultura ou um quadro, que admiramos e revemos do ângulo que nos apetece. Só que nunca descubro coisas novas a cada vez que te vejo, mesmo mudando de perspectiva. És uma recta sem desvios, do ponto A ao ponto B, tão determinado quanto previsível. A tua conversa é monótona como uma tarefa administrativa e o sexo é bom, às vezes mediano: o que é bem pior do que ser mau, porque neste caso poderíamos transformá-lo noutra coisa qualquer, como fazermo-nos cócegas vingativas, brincar às lutas ou alarvarmo-nos em comida, sublimando assim a mediania. Tento algum cuidado semântico para não te ofender, porque não gostar de ti é impossível. Acho que não estou a conseguir, desculpa. No entanto, é meu dever dizer-te que tudo isto seria despiciendo não fora uma lacuna imperdoável. Se eu quisesse mesmo, mesmo muito, dar-te-ia a conhecer um mundo novo: a minha cabeça superhipersónica. Confundir-te-ia, banzado, com as minhas piruetas mentais, as exasperantes contradições e o excesso emocional; perder-te-ias no meu labirinto interior, de tantas voltas que te deixaria tonto e incongruente, incapaz de rotinas e obrigado a reacções inesperadas, livre da dormência do tédio. Mas não quero. Sabes Porquê? Pelo que mais releva no universo amoroso: não entendes as minhas piadas.

 

(L'eclisse)

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escrito por sofia vieira às 21:15

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20.11.12

Sabes que finjo, mas na realidade entendo. Que o Amor é destrutivo, que o sexo pode ser agressão, parte incerta, alienação, bem perecível que se esgota no corpo do outro, mesmo que com  prazo alargado de validade. Que as palavras são uma arma que por vezes atinge mais fundo quando arremessadas à distância, do que quando ditas nos olhos e chocam na máscara que cada um coloca para sua protecção no combate corpo a corpo. Com a pele à solta, o instinto clama protecção: então somos cavaleiros medievais, esgueiramo-nos das investidas alheias, usamos armaduras polidas sobre a carne amedrontada enquanto o cérebro selado a aço flui por dentro, a explodir de adrenalina, desejo e morte. Nunca nos poderemos ver. Quarto escuro, venda nos olhos, cegueira de luz, fotobia, visão insuportável, excisão. Somos um abismo comum; o espelho onde vemos o que já sabíamos do outro e o que suspeitávamos de nós. Ficaríamos nus, indefesos. Afastemo-nos, então, ímanes de pólos opostos, bastardos do mesmo pai, incesto, pecado, devassidão. Nunca nos poderemos ter. Lobo de noite, falcão de dia. Seríamos reactor avariado, fusão dos mesmos males, piratas sanguinários, vilões deformados, vampiros translúcidos, assassinos em série com traumas de infância. À solta um no outro, enquanto o resto do mundo um imenso festim para mútuo comprazimento. Um desastre natural de proporções épicas, um filme catástrofe de efeitos aprimorados, explosões múltiplas em surround, Bum! Splash!, Bang!, o medo do fim a arrepanhar entranhas, a realidade a entrar sem licença.  Ondas gigantes devorar-nos-iam, terramotos empurrar-nos-iam para os centros de todas as terras, avalanches enterrar-nos-iam no nosso próprio estupor. Aviões contra torres, a voragem dos tornados, o retorno aos dinossauros, à era pré glaciar. Ambos perderíamos. A arte da manipulação pede que um se deixe manipular; a do amor, que um se deixe amar. Nenhum de nós permitiria nem daria nada ao outro: não gostamos de nós, não nos achamos credores do Bem. Mas o pior seria os outros, alheios a esta guerra sibilina, fratricida, borgiana: transformá-los-íamos  em cinzas, numa forma de nada, abaixo de pó. Tu serias Eu, portanto, repara, não se trataria de ciúmes: comigo só fazem o que eu deixo. Ponto. (assim, ponto: porque não existe onomatopeia que exprima adequadamente o silêncio mortal de uma explosão atómica).

 

(ladyhawke)

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escrito por sofia vieira às 16:56


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