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30
Mar06

la femme d´a cotê

por Vieira do Mar

Contente, quase feliz, porquê não sei. Hoje, tenho-te leve, apenas encostado ao coração, baldeado mais para lá do que para cá. Pergunto-me se será um já esteve mais longe que me segredo a medo, e devolvo-me a resposta pronta, que absurdo. É assim que te gostaria sempre: uma lembrança calma como as manhãs no campo, com os seus piares ao longe e o rumorear abafado das copas floridas. Não te ter e não te sentir a falta, fazer amor e não me impedir de fechar os olhos, não ter de me obrigar a um ponto fixo algures no corpo que ondula e vacila e descai sobre o meu esterno em arco, para não me distrair do prazer que ele me dá, esse outro corpo, caso contrário, sou eu que me ondulo e vacilo e me descaio em ti.  

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29
Mar06

scent of a woman

por Vieira do Mar

Confessa que já deste por ti a desenroscar frascos de shampô nas prateleiras do supermercado a ver se me encontravas lá dentro e que depois os fechaste apressadamente para que ninguém te visse e te sentiste um parvo, um tolo. E que mesmo depois de te teres sentido tolo continuaste inquieto porque não me descortinaste em nenhum daqueles cheiros e eu explico-te porquê: é que uso um amaciador diferente a cada vez que lavo os cabelos, jojoba, camomila, flor de hera, e às vezes ponho um creme nas pontas que tem coco ou gérmen de trigo, já nem sei, e espalho no fim um perfume fresco, limonado, especialmente quando faz sol, e que tudo isto se misturou com o suor que então se me derrapava pelo pescoço, eram os nervos, e que o cheiro, aquele em que te embebeste quando me agarraste na cabeça e a puxaste para ti, não o encontras dentro de frasco algum (só em mim).

 

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29
Mar06

sleepless in seattle

por Vieira do Mar

De quando me ligavas só para me ouvires e eu, convencida de que te lembraras de picar o ponto porque sim, porque era apenas mais um dia de trabalho encerrado em monotonias pasmadas. Eu, a pensar que tanto se nos dava como se nos daria, que era assim mas poderia ser assado, que nada restaria a final das nossas vozes, que se encontravam naquelas banalidades de meios de manhã e de fins de tarde. Eu, a achar que tudo em mim ficaria na mesma e que passaria ao lado da casualidade aparente do teu timbre gentil, que se me chegava entrecortado por uma emoção traiçoeira (ou apenas pela fraca cobertura de rede, quem sabe).

 

 

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28
Mar06

country music

por Vieira do Mar

Dar-te música, uma música diferente da que tenho vindo a largar-te à porta dos ouvidos e que enxotaste como o zumbido de uma varejeira teimosa. Oferecer-te de bandeja as claves de sol que não te dancei, os decibeis que, como nós, se mantiveram nos limites conformes às directivas europeias, nada de distorções poéticas nem de acústicas arranhadas. No fundo, são as canções que nunca ouvimos, emparelhadas com o amor que não vivemos. É a vontade de te furar os tímpanos, não sem antes te morder os lóbulos mesmo na pontinha, lamber-te por dentro e sussurar-te nha cretcheu. Assoberbo-me na lonjura e devolto-ta mesmo assim, à música, cantando-a nas tuas costas, ao de leve e ao de longe.

 

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27
Mar06

duel in the sun

por Vieira do Mar

Hoje, apetece-me reduzir-te a inconfidências. Escarrapachar aqui quem és, onde moras, o número que calças, a freguesia onde nasceste, o que gostas de comer, a luminura do teu sorriso solto. Apetece-me esmiuçar-te os medos para inglês ver, revelar as tuas meias palavras bastas para bom entendedor, distribuir-te às postas e à vontade do freguês e deixar cair nas bocas do mundo, as verdades que derramaste em mim e esse mareio dos teus olhos.

 

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26
Mar06

p.s., i love you

por Vieira do Mar

Ler-te é ao mesmo tempo um exercício de cobardia e de coragem. A cada palavra tua arrebanho-me aos bocadinhos, apanho-me do chão uma e outra vez, varro-me da tua vida. Golpeio-me os rins, mal me dou a vasculhar-te as memórias com a minúcia de um arqueólogo, como se com isso ficasse a saber mais alguma coisa de ti. Como se a tua permanência na minha retina não fosse já claustrofóbica que chegasse, impedindo-me de respirar os dias. Às vezes, parece-me que te enches de palavras só para te esvaziares de mim (eu sei que não).

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25
Mar06

the grissom gang

por Vieira do Mar

Estupidamente, tenho-me de atalaia à espera uma mensagem tua que sei que não chega: tu, a fingires que não o és e a fazeres o teu preço, a exigires por fim qualquer coisa de valor, uma troca por troca, as letras grosseiramente recortadas de notícias de jornal, a formarem palavras de ordem, o cheiro requentado da tinta, o T maiúsculo agarrado agora ao meu polegar húmido e nervoso, que comprime com força a folha amarrotada e suja de tanto corta-e-cola, e eu, a ler-te: "Tenho-o comigo, raptei-o. Para o reaveres, terás de pagar em milhões de papel-palavras-moeda. Uma mala cheia delas, agarrada ao teu pulso por uma corrente. Traz-ma amanhã à noite e não te esqueças da chave. Encontramo-nos na ponte, tu sabes onde: no alinhamento da lua cheia. Vem só e não me tentes enganar, se não, o teu coração morre."

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23
Mar06

casablanca

por Vieira do Mar

Uma tristeza certeira que carcome os ânimos, embacia os movimentos e se desalma em mim. Saboreio-a em colheradas pequenas e rápidas, passeio-me nela com a língua, ofereço-lhe o palato. Sinto-lhe o gosto açucarado e enjoativo, ao lamento da ausência, ao descerrar da saudade. Rapo-me os restos com as pontas dos dedos, lambuzo-me, peço mais e repito a dose. Depois digiro-te, giboiando-me tarde fora, num fartote de comiseração induzida.

 

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22
Mar06

la dolce vita

por Vieira do Mar

O brilho do verniz das minhas unhas, que se refracta na ponta cromada de um clipe (a unir, seguro, meia dúzia de folhas rabiscadas onde alinhavo o trabalho de amanhã) e é o bafo a lodo do rio que me entra escritório adentro, humedecendo-me a determinação e os postits amarelos e lembrando-me de uma tarde que fingi presumir esquecida.

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21
Mar06

à bout de souffle

por Vieira do Mar

Porque me atrevi aos beijos que te dei, nem eu o sei. Apenas guardo comigo a consciência quase dolorosa de que, por ti, ter-me-ia atrevido aos fiordes da Patagónia e até um bocadinho mais longe. Acaso o tivesses sabido, teria sido diferente? Ou teria apenas acabado ainda mais cedo, num degelo precoce das nossas vontades aduaneiras?

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