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30
Abr06

punch drunk love

por Vieira do Mar

A primeira vez, que na verdade é a milésima, a cabeça feita em água, feita colchão de água, redondo de motel rasca, a estourar de tanta sinapse acrobática. Depois, um dia por fim, o corpo que treme e se dobra ao desejo acumulado: um caniçal, vergado à ventania oceânica que sopra de mil direcções, incapaz de se fixar num ponto cardeal que seja da nossa pele enxameada. A incontinência suada dos gestos, por momentos sustidos nas expectativas, presas por um fio e desfeitas agora na poeira do medo. Os dedos nervosos, que falham colchetes, mamilos, fechos, ganchos de cabelo, clítoris, nós de gravata, escroto, botões, pontos a a g, onde estão?, onde estás?, e a ideia insustentável de um segundo perdido, um segundo a menos em que não te amarfanho a pele súbita e nua. Arranca-me a blusa e rasga-me a merda do soutien que eu já me adiantei, ganho-te aos pontos, lambo-te sôfrega e sabes-me a sal. És profilático e propedêutico, que sou hipotensa e hoje falhou-me o rito da bica curta, a do meio da manhã, na pressa de aqui chegar, na urgência de te escalar. Quase desmaio, preciso de sal, preciso de ti. Amanhã, amanhã há mais.

 

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30
Abr06

rear window

por Vieira do Mar

Isto é um jogo, é é um bocadinho arrancado da vida, que é um jogo muito maior. A mim, que me fico pela bisca e pela batalha naval, falham-se-me por isso as analogias. A memória curta não me faz adversária decente e a distracção congénita que me governa os gestos dissolve-me a acutilância e o atino, necessários à função. Perco até a feijões, excepto quando a sorte me golpeia e eu nem sequer me mexi, e não me é difícil imaginar que, neste preciso momento em que me lês, eu descarte várias boas jogadas, daquelas de mão cheia. Mas a vontade de espalhar pelo tampo da mesa as cartas escondidas, à bruta e à estúpida, tenta-me quase tanto quanto a batota. Imagino-te um bluff excelente e eu, uma principiante dispersa, nestes esquemas do desprezo calculado. Se nada te digo, é porque nada tenho para te dizer: não pago para ver, não me lembro que cartas já saíram e não sei quanto valem as que tenho na mão (não me fui ensinada das regras). Por hábito, ignoro o número dos meus oponentes e subestimo-os na sua determinação mais que certa. Tanto rodeio, apenas, para te dizer que te sei aí desse lado, a rondares-me a inépcia perdedora.

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29
Abr06

always

por Vieira do Mar

Que tudo passa. Os desmandos arbitrários de quem nos paga, o tornozelo torcido na falha da calçada, as derrotas do Benfica, o ranho verde dos putos, o céu cerrado de tristezas e de outras tantas promessas, a subida inesperada das taxas de juro, a pontada súbita de dó pelo sem-abrigo que nos ressona o álcool aos pés, a saudade do que não nos falta, o saldo negativo no banco, o desconsolo molhado da chuva e dos projectos por cumprir. Tudo passa, menos tu: uma espécie de fantasma, uma amálgama de plasma trocista que, em vez de me destapar os lençóis e me puxar os pés ao fundo da cama, me destapa e repuxa os sentidos, picando-me o ponto com aquela assiduidade contrariada de um funcionário por conta de outrém.

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28
Abr06

lolita

por Vieira do Mar

Não sei como se mede a saudade. Ao quilo? à grosa? ao decalitro? Quantas jardas? milhas de distância? Quantos centímetros cúbicos de suspiros disparados no espaço sideral serão precisos, para que a chamemos pelo nome? Poderemos arredondar aqueles minutos de alheamento em que os olhos nem se nos pestanejam para - o quê?- uns dias bem medidos, no seu todo? alguns meses? Em alturas de tempestade, aponto-me para ti como uma bússola e, sem mesmo o saberes, conduzes-me o desnorte a bom porto, com a gentileza de quem pegasse um cego pelo cotovelo e o ajudasse a atravessar a rua. Como me tenho em conta baixa, não me suponho dotada de excessos magnéticos que te atraiam de forma igual, não obstante, algo me espicaça e confunde: o porquê de continuar a ser a primeira das tuas manhãs e a última das tuas noites. Será um meio de me manteres à distância, no espaço que medeia entre (e que é todo o resto do teu dia), como empurrões no peito? Ou apenas a forma de contabilizares uma saudade que afinal também é tua, prendendo-a a ferros entre esses dois momentos precisos, tão definidos no espaço e no tempo? Como se a conduzisses para um redil, fechado a rotinas em vez de cercas, na tentativa de a domares. Gosto de brincar com a ideia de que assim seja: visto-a, dispo-a, embelezo-a, pinto-a e torço-a, como uma miúda pequena, ao mesmo tempo zangada e divertida por coisas lá dela, com uma barbie à mercê dos dedos.

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28
Abr06

Ontem, devorei-me as unhas todas e lá se me foi o verniz novo: um vermelho-sangue que a sílvia manicure me impingiu na segunda, com aquele entusiasmo infantil com que se promovem as coisas pequenas. Recaídas várias, ambos os joelhos da alma esfolados e o corpo a persistir nos vícios automáticos de infância que o acodem quando vacila. As minhas mãos, de bonitas-cuidadas, passaram a destroços amputados de um dia difícil. Às pontas dos meus dedos, achatadas do massacre, escondo-as agora na rua, embolsando-as, como me escondo aqui, embolsando as palavras que vou misturando com os trocos das transacções passadas. Ontem, nem o sabor químico do polish red me demoveu de roer o teu sorriso até ao sabugo.

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25
Abr06

le notte di cabiria

por Vieira do Mar

E, por vezes, abandalhar-me: amarrar o cabelo sujo num rabo de cavalo oleoso e repuxar com violência as raízes escuras; desfazer a pele de brincos, anéis e relógio de pulso, e esgravatar-me as unhas até se lhes descarnar o verniz, às lascas; esborratar-me as pálpebras com desleixo, livrando-me mal e porcamente de riméles e ailaineres, deixar-me os lábios secos e gretados, a implorarem por um baton, um gloss que seja; vestir-me camisolas largas, de homem, cuecas brancas e altas sem pormenores de renda, meias de lycra com malhas fendidas de cima a baixo; enfardar-me num bolo de pastelaria, talvez dois, atrever-me a flatulências várias e desbragar-me num riso obsceno de dentes estragados e gengivites incuráveis; mandar o ginásio à fava, criar barrigas, duplos queixos e cansaços, não ter maneiras à mesa, comer com as mãos e de boca aberta, cotovelos ferrados no prato; evitar desodorizante e levantar-me os braços como quem bate asas, esquecer-me do creme no corpo a seguir ao banho e não imaginar por uma vez que as mãos com que me unto as pernas, são as tuas; sair porta fora a cantar como uma louca desafinada, descalça, com pastilhas e beatas coladas à sola dos pés, a aceitar tostões de transeuntes piedosos, comportando-me como quem tudo perdeu e nada teme. No entretanto, no entanto, deixa-me ir ao cabeleireiro, que hoje é dia de madeixas e há vaga na manicure.

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24
Abr06

atame

por Vieira do Mar

Que nada me digas. Aconchega-te. Lambe-me como um cão a pele esquecida. Vadio. Argola-me os tornozelos e os pulsos ao teu desejo-tractor. Arrasta-me. Abre-me as pernas sem qualquer espécie de dó, afasta-me os lamentos de par em par. Vai uivando baixinho. Que te orientes no meu corpo-norte, mesmo que de coração-bússula-partido. Que me releves esta distracção-infracção-leve. Enfia-te mais, compensa-te das noites que tive distraídas, por entre as minhas pernas, as minhas costelas. Chupa-me os polegares, pintados com desleixo, os cantos da boca, adornados com os restos do batôn rosa-vulgar. Vacila a tua maçã-de-adão sobre as minhas virilhas, tamborila-me, com os nós dos teus dedos, a cicatriz que me curva a barriga. E alisa-me, com pinta de lifting (de tanto os sorveres e chupares), os meus pés. De galinha. Neste crescer dos dias, adivinha-se o estio, adivinha-se-me o cio.

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23
Abr06

sunset boulevard

por Vieira do Mar

Começo a esquecer-me da cor dos teus olhos (vaga ideia de que contêm o mar). Preciso romancear-te, dar-te ares de coisa importante, promover-te a chefe de secção desta minha repartição cardiovascular, mais benesses e ajudas de custo. Manter-te nos píncaros da minha imaginação corredia, encarpar-me e mergulhar de costas nas nossas águas passadas, esticar o faz-de-conta aos limites da impaciência. O olvido maça-me, soa-me a tempo perdido. É um facto: o tédio sentimental começa com o fim da ansiedade do fim.

 

 

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21
Abr06

midsummernight´s dream

por Vieira do Mar

Há dias assim, em que careço de areias e de conchas, da irregularidade do horizonte quando o Sol se lhe desce, do desmaio roxo-anil do céu mal se lembra de aconchegar a lua. Há dias assim, quando o sonho de uma noite de Verão se sobrepõe à intermitência dos suspiros carbónicos e as gaivotas levam no bico o gargalhar dos miúdos, felizes. Porque, como disse algures alguém, as palavras vão com o vento, vão com a nortada de Agosto, que cobre de névoa o recorte da berlenga e este meu querer baixinho, à deriva, como boia de esferovite quase desfeita, metro mal medido de cordame descarnado ou garrafa vazia de óleo fula, forrada a crude seco. À mercê dos intervalos do dia e das pausas para café.

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20
Abr06

match point

por Vieira do Mar

Procurar-me-ás, ainda, no entulho do correio que recebes? Ou já te deixaste disso e agora limitas-te ao recolher obrigatório daquele ansiar pequenino (quase invisível) que, de quando em vez, faz um pop up indesejado por sobre os centros nervosos da tua epiderme resignada para, logo depois, se espraiar esquecimento fora? Para, no segundo a seguir (sim, logo a seguir), se distrair na nervura daquela pedra de calçada (daquela folha), no pigarreio entediado do funcionário que te carimba as precisões burocráticas, na chamada urgente a saber onde estás e a que horas chegas, naquela ideia para um texto que de repente te acorre quando atravessas a rua e não tens caneta nem onde a escrever, ai que já foi, era sobre o quê?, no planear metódico de um fim-de-semana ao sol, os dois sentados no sofá a lerem brochuras, no cruzar breve com uma antiga namorada, então, tudo bem?, tudo óptimo. Qualquer coisa serve, por estes dias, para que te espraias e distraias de mim? Não respondas, faz-me o favor.

 

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