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07
Abr06

great expectations

por Vieira do Mar

De quando pulávamos no campo da bola a acertar as poças de chuva, a imaginarmo-nos filhos sardentos à beirinha de uma casa de praia bordada a cães rafeiros e sardinheiras, quando nem sabíamos como se faziam filhos. Tu juravas-me uma qualquer coisa eterna, que não era amor mas também não era eterna e se durasse até ao toque para a aula de matemática já seria muito, seria demais. Davamo-nos as mãos às escondidas e os dedos picavam-se-nos, dormentes, quando os separávamos à pressa ao vislumbre do vigilante, um bruto persistente com bico de águia no lugar do nariz. Valiam-nos os recantos em obras (o liceu estava sempre em obras), a casa de banho das meninas, as traseiras do ginásio e a antecâmara da sala de música, onde o mofo nos enluvava as línguas, o escuro soltava-nos a vergonha e nós nos tacteávamos de bocas lambuzadas como chupas e engolíamos o travo acre dos primeiros cigarros do outro.

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07
Abr06

lady and the tramp

por Vieira do Mar

Sem nada mais querer do que escrever, fujo a sete pés do que de desagradável suspeito em ti. Este Amor é meu e de mais ninguém: rebolo-me nele, comprazo-me, divirto-me a esticar as lembranças, distorço-as e reconstruo-as à medida dos meus contornos exteriores; na verdade, és bem mais baço, mortiço e anódino do que as cores garridas com que te pinto. Aos personagens que criamos, exacerbamo-lhes carrancas pavorosas, fervores diabólicos, dislates esquizofrénicos, tremuras transpiradas, delírios de grandeza, cheliques catalépticos e ademanes de indiferença: tudo para criar o efeito. O arrepanhar da minha saudade é apenas cenário, adereço de cartão projectado num jogo de luzes e sombras, é a estrela da companhia que arrasta uma agonia fingida pelo palco empoeirado enquanto pensa no que vai fazer para o jantar. Já aquilo a que chamo de o meu Amor, é outra loiça: uma mímica de risos abertos que paira lá no bem no alto e acima de ti; uma aragem feliz, como todos os outros amores na minha vida e como todos os amores devem ser. A tristeza doente que eventualmente sobre e soçobre por debaixo dele e ao teu nível raso de rés do chão, não é problema meu.

 

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06
Abr06

the hours

por Vieira do Mar

Até que ponto poderemos estraçalhar um texto, esfrangalhá-lo, reduzi-lo a escombros? Quantas vezes teremos de o reler até lhe arrasarmos os significados como se fossemos necrófagos minuciosos e esse mesmo texto não passasse de um corpo desmembrado que enterramos aos bocados pelos quatro cantos do mundo para mais tarde nos banquetearmos? Que raio nos passa pela cabeça para sorvemos uma banalidade literária até à última gota e a ficarmos a saber de cor, quando já a olhámos a todas as luzes possíveis e o neon da nossa imaginação lhe realça todos os sentidos onde se inscreva por hipótese a nossa cara? Porque é nos custa sabermo-nos nas entrelinhas do que o outro escreve, mas teimamos em fazer questão de nos lermos lá uma e outra vez, até darmos por nós no lugar do gato, da mobília, das vírgulas? Quantas maneiras existirão de eu me sentir mais perto de ti e de poder encostar o meu ombro ao teu queixo?

 

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04
Abr06

monster´s ball

por Vieira do Mar

 Motivos. Razões. Esmiuço as lembranças, tento encontrar-te coisas más, que me ajudem a não te gostar tanto. Imagino-te o corpo riscado a cicatrizes grotescas, de quando terás sido um assassino a soldo, um mercenário cruel numa qualquer guerra colonial, e nada: apetece-me lambê-las, fazê-las minhas.

 

Faço por te supor grosseiro, a rires-te de mim com sarcasmo, a enxotares-me, a comportares-te como um asno, um porco, e nada: beijo-te as pálpebras, peço-te calma e adormeces-me nos braços, está tudo bem, foi só uma birra, uma comoção infantil, está tudo bem. Percorro-te a cara, o cabelo, olhos e sobrancelhas (não: escapo os olhos, contorno-os e vou à volta, os olhos não). Vejo-te de costas a afastares-te e constato que tudo em ti é esguio, assimétrico, imperfeito (menos os olhos, perfeitos).

 

Depois, soçobro: lembro-me do chegares-me, no teu modo gingão e desconjuntado, a cortares o ar para todos os lados, o sorriso que dependuravas no rosto quando me vias e aquela pequena frase que não te cansavas de me dizer e eu, a acreditar, nas nuvens e nos píncaros, a achar-me boa, muito boa.

 

Faço mais um esforço, presumo-te os podres por detrás do que não me quiseste mostrar, mas não há maneira de lhes dar forma: o Amor amputa-me, decepa-me a natureza inventiva e a capacidade de improviso; tenho cotos, no lugar da esperteza saloia que antes me levava a todo a lado.

 

 

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02
Abr06

all about eve

por Vieira do Mar

 Subitamente, um som antigo, lindo e mal sintonizado, a meio de uma viagem longa, chega-me distorcido às amígdalas, numa náusea de prazer dorido que é quase auto-comprazimento. E eu, até então dentro da mais estrita legalidade, a conduzir no absoluto cumprimento do código da minha estrada, do lado de cá do traço contínuo que me separa de ti, resvalo em contramão e derrapo no asfalto oleoso da tua presença. De água na boca, ouvidos em stand-by e surda para os barulhos do mundo, apresso-me ao destino e, sem mesmo desfazer as malas, vasculho emules em busca do ficheiro original, não corrompido pelo suborno dos anos ou pelos caprichos das ondas hertzianas. Saco-o rapidamente, de vários anfitriões em simultâneo, afinal, muitos mais há por aí que, como eu, se confessam através do copy-paste descarado dos amores dos outros. No fundo, no fundo, o Amor é igual para todos, só que alguns limitam-se a saber contá-lo melhor (If only I could find out the way to sail you).

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01
Abr06

meu querido mês de agosto

por Vieira do Mar

Descubro-me um lado romântico que não sabia que tinha, povoado de ensejos baratuchos e vulgaridades de lineu. O Amor democratiza-me: não são os nocturnos de Chopin nem as cantatas de Bach ou o número cinco para piano de Beethoven, nem sequer os poemas de Vinícius ou de Yeats, que me denunciam os suspiros. São as andorinhas que se começam a ver nos beirais, com o seu prrrriu afadigado num acasalamento frenético, é um êxito de sempre do Tony Carreira que passa numa rádio local (e cujo refrão me sai num berreiro sentido pela janela entreaberta do carro), as rosinhas de Santo António que enfeitam as peças de chita empoleiradas nas prateleiras das retrosarias de bairro, o beijo roubado em segredo no duocentésimo episódio da novela das sete e o anel de plástico muito seventies que vi na feira da ladra e que (no meu dedo) nos selaria na perfeição; são os cartões que sobraram do dia dos namorados, com os seus corações animados que apitam e cheiram a morango e trazem recadinhos acoplados, és o amor da minha vida, quero-te muito, e os anúncios às escapadelas de fim-de-semana para dois, as suites nupciais com colchões de água, os passeios nas termas e os beijos no alto da serra (que poderiam ter a tua música favorita como fundo e a toalha do picnic, aos quadrados adamascados, como lençol de baixo).

 

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