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15
Mai06

saraband

por Vieira do Mar

De quando as nossas olheiras reflectiam o escuro das noites em que nos afogávamos no Amor, debatendo-nos como gatos escaldados à tona; de quando os cantos da minha boca, revirados para cima, refractavam a luz que então nos inundava os dias, como aqueles rectângulos de Sol que se esgueiram pelas portadas entreabertas e banham os soalhos das casas felizes. Esse quando, que há muito esgueirou os seus contornos ondulados para lá da linha do horizonte e me pôs a fitar o nada, de mãos em pala sobre os olhos, à espera de ver surgir lá longe um remoinho de poeira, levantado pelo tropel de uma paixão que quereríamos de novo embalada numa fúria trovadora. Inimigos de nós mesmos em tantas batalhas perdidas, confesso-me quase cega (pelas frestas das pálpebras cansadas, nada nos enxergo de jeito); amblíope estou de certeza, embora ainda te espreite as veias (salientes do esforço de viveres) pelo canto do meu olho esquerdo, que rebola desemparelhado numa urgência recognitiva. Nem que me ampares, nem que me ajudes a atravessar-nos nos locais assinalados: uma bengala e um cão, é só o que te peço.

 

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15
Mai06

De quando na paixão morre o desejo e se queda a amizade. Ou não? Será que só no Amor subsiste ao fim a amizade, o querer bem? Em acabando a paixão - esse entusiasmo que foi ao engano - o que resta? Apenas uma lembrança de vendavais passados, que nos chega quando vemos as telhas que se partiram e os ramos arrancados às árvores, espalhados pelo chão? Ficaremos num limbo, onde nos equilibramos precariamente até ela ressurgir ou vir outra? Ou a sensação do fim é um encosto suave onde respiramos fundo e nos limitamos a querer gentilmente o outro sem os escolhos do desejo a infernizarem-nos os centros nervosos? E a amizade por quem trepou por nós adentro, pode ser a mesma que votamos a um amigo de infância que trepou connosco às árvores e se casou com a nossa melhor amiga? E o desejo, que julgáramos ido de vez, pode voltar só com um sopro, uma palavra escrita à toa, um sentido que se adivinha promessa? E aquela indiferença matinal, que de tarde se mostra acordada (já atenta) e à noite nos percorre o corpo sob a forma de uma saudade gelada com aromas de cânfora? E o Amor, ampara tudo isto no seu regaço largo, como um bom pater familia, diligente da sua prole, ou é apenas uma ficção que nos mantém unidos estes sentimentos tão díspares, tão inesperados e tão fúteis, na verdade colados uns aos outros com cuspo, à mercê das condições meteorológicas, da mudança da lua e da ementa do dia?

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12
Mai06

secretary

por Vieira do Mar

Verdade ou consequência, o jogo para hoje. E eu quero saber tudo: quantas noites em claro, quantas outras esqueceste, que fantasias tiveste, apenas por pensares em mim, mesmo que tenhas pensado pouco. Não vale mentir, caso em que terás tarefas cronometradas e difíceis de cumprir, praticamente impossíveis, como ocupares-te de todos os recantos do meu corpo com a inevitabilidade apertada da hora de ponta e depois deixares-me ir. Dizes-me que a verdade é preferível, não é por mais nada, mas apenas porque, depois, não conseguirias deixar-me ir, e eu sorrio porque sei que mentes e apetece-me dar-te uma ordem ainda mais irrealista, sei lá, por exemplo, atira-te ao rio. Finjo que acredito e continuo a tentar saber-te: o que te apetece dizer nos instantes em que nos despedimos, se ainda me cobiças os lábios pelo canto do olho e se já esqueceste o meu cheiro. Quero saber do que não me chegaste a escrever e se alguma vez te vieste sozinho imaginando-me nua à tua frente a fazer-me o mesmo. Porque eu já (é a minha vez de responder, faz de conta que perguntaste): às vezes, quando o cio aperta como a fome ao fim do dia, vejo-te a olhares-me para as mãos, que se atarefam por mim adentro. Afinal, a nossa história de sempre, esta de nos sincronizarmos o gozo sem sequer nos tocarmos e de tu seres o amigo imaginário cuja constância ao meu lado (à minha frente) teimo em inventar.

 

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12
Mai06

you´ve got mail

por Vieira do Mar

Chegas ao escritório com os bolsos vazios da insónia que acabou de te assaltar com todo o seu armamento pesado, tão pesado que nem sequer aproveitaste a vigília para escreveres, de moído que sentes o corpo, ainda a ressacar da outra insónia, a prima desta, a de há duas noites, quando te acompanhaste madrugada fora a whisky de doze anos, sem gelo. Entras no gabinete frio e hesitas entre o café, um cigarro e ligares o PC. Lembras-te, então, de que há muito deixaste de fumar e que o café pode esperar, starting windows, afinal, precisas de saber de uma outra insónia, que presumes igual à tua. Nem fechaste a porta e entra-te um colega, surgiu um problema, logo de manhã?, puta que o pariu. Fala alto, com uma estamina inusitada, debruçando-se por sobre a secretária e as tuas olheiras, que te fogem para o ecrã. Ruminas um assentimento distraído e rodas ligeiramente o tronco de modo a interpores-te entre aquela verborreia matinal e o teclado e poderes assim inserir a tua password sem que ele a veja. Demasiado concentrado na exposição do problema que acha teres a obrigação de solucionar, ele continua a esmiuçar-te ao ouvido a crise súbita e as recomendações da chefia, e confidencia-te quem lhe constou será promovido ainda esta semana. Agrafas um ar atento no rosto e entras sem ele dar conta no programa que te notifica dos emails e ainda naquele outro, que te diz dos posts novos nos teus blogues favoritos. Afocinhas disfarçadamente nos escolhos do correio recebido e não lido, à procura de um em particular que, como de costume, não está lá. Consegues ainda ver que também nada de novo foi escrito durante a noite que presumes ter sido em claro, como a tua. Rezas para que toque o telefone, o teu, o do colega, para que ocorra um cataclismo súbito, um pretexto qualquer para ficares só e digerires uma vez mais o vazio miudinho que a saudade deposita, a cada manhã, no teu corpo cansado.

 

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10
Mai06

dressed to kill

por Vieira do Mar

 Prenuncio-te nesta ventania instável que arrasta a Primavera pelos cabelos. No rebordo exterior da minha janela correm as nuvens que te desenham o perfil, por enquanto ainda volátil. Saio para a rua e adivinho-te na alegria manhosa com que me sorrio aos paralelos da calçada e no modo como me espreito no vidro da montra pelo canto do olho, fazendo-me passadas largas e lânguidas, como se fosse muito alta, linda e fatal, e desfilasse para o condutor pitosga que perscruta o cruzamento, o gordo fanhoso do quiosque, o drogado que monta guarda ao parque de estacionamento ou o puto acelera da pizza expresso. Na esquina seguinte, um pequeno tornado revolve o chão e desfaz-me a pose, mas nem isso me abespinha, que se me colem às narinas os talões do multibanco, os bilhetes de metro e os panfletos da publicidade, perca peso agora. Parece que se deu um tremor de terra por estes dias. Sentiste?

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06
Mai06

thelma & louise

por Vieira do Mar

Quero sempre tudo já, agora, para ontem; queria ter-te tido naquela noite invernosa, ter-te amado à pressa e que me tivesses feito um filho, logo nado e criado, e depois ter-te posto com dono e arrumado de vez o assunto, lavado dali as minhas mãos; ter-te esquecido, como de facto esqueci, à velocidade da luz, warp speed, meia bola e força, um divórcio de vontades ratificado em notário no dia seguinte à boda, boa noite e um queijo, vai e não voltes. Não sei ser o meio onde está a virtude, peco por excesso e ainda mais por defeito, empanturro-me tanto quanto jejuo e, se não acelero, embasbaco. Rebento-me diques e extravaso após meses de seca extrema e encontro na desmesura o meu habitat natural; enquanto não me resolvo, desconheço-me, salto em comprimento e aterro de chofre nos pontos finais, os mínimos olímpicos sempre garantidos. Por isso já cá não estavas, quando sobre ti comecei a escrever: és mero exercício de estilo, deixa-te de coisas (deixa-me ir).

 

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05
Mai06

walk the line

por Vieira do Mar

A primeira vez só poderia ter sido onde foi, na areia fria da praia, à sombra de um barco de pescadores que dormia de borco sob o luar quente de Julho, um encosto velho e cansado com a tinta a descascar na quilha e um cheiro agudo a peixe seco que, no lirismo infantil do momento, confundimos com maresia. A humidade da sílica a abrasar-me as costas que, ora se arqueavam, ora se distendiam, como cordas de uma guitarra onde tocavas a tua música, feita de dós sustenidos por sobre o meu arfar sincopado. A mesma paixão histriónica vivida a ritmos diferentes, os nossos dois corpos a capella: tu, a começares e a acabares primeiro e eu, sozinha, empenhando-me nos vocalizos finais. Cedo nos afinaríamos as vozes da pele numa consonância perfeita, mas foi aí que comecei a perceber que o Amor é, por vezes, vivido em canon: ora um se adianta, ora o outro se atrasa, e que, como a música de câmara com os seus disparismos sonoros, também ele pode viver e alimentar-se daquela estranha sincronia que nasce dos desencontros que se sucedem.

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03
Mai06

for whom the bell tolls

por Vieira do Mar

As pessoas vão nos atravessando como balas: muitas, sentimo-las zunir junto aos ouvidos em prenúncios de queimadura e pouco mais; algumas, raras, penetram-nos nos ossos e abancam, quietas até ver, no reboliço das nossas entranhas. Somos todos feridos de guerra com estilhaços de outros alojados no corpo, a dispararmo-nos alarmes de aeroporto e de loja, a sentirmos por antecipação a invernia, quando a humidade pegajosa da ausência nos recorda as placas de titânio que nos seguram as articulações, para que o andar não se nos falte e não fraquejemos em demasia. Pós-traumáticos sem terapia, qualquer explosão abafada de um escape na avenida à tarde, é para nós um obus, atracado à morte certa. Nunca enterramos de vez os que nos estão mortos-para-o-coração, e muito menos fazemos deles um luto minimamente decente: carregamo-los às costas, como mochilas de campanha atulhadas de armas e enlatados, como kits de sobrevivência dotados do indispensável para emboscadas futuras. É claro que, uma vez à mercê da escuridão do mato, com o cheiro do Amor por perto (esse inimigo silencioso que se esgueira e nos tocaia) aligeira-se-nos a carga e tendemos a esquecer tudo o que até então nos havia ocupado por dentro. Com sorte, passa de raspão.  

 

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02
Mai06

wild at heart

por Vieira do Mar

Encontrei-te e num repente senti-me mudar. Segundos antes eu era outra e juraria que não seria isto. Fazia-te resolvido, devidamente encaixotado, um traste esquecido em desvão esconso na minha arrecadação. Mas não, afinal estás aqui e o teu sorriso alastra-se sem sinais de pó. O teu cabelo e o teu olhar impõem-se inteiros e sem traça, sem teia nem aranha. Eu que gastei quilos de borracha para te apagar e tu, feito Houdini a reapareceres-me triunfal num elevador improvável. Eu que te enterrei mais do que morto, com as fotografias e as cartas que começavam invariavelmente com um foi melhor assim e tu à traição, sem te anunciares, a ressuscitares-me incómodo no meu santo domingo de centro comercial. Para quê? Para que eu depois destes anos todos te volte a provar uma vez mais, balbuciando disparates e ameaçando tropeções, que sempre tinhas razão: Não eras para mim. Isso eu já sabia, agora volta para o teu caixote e dá-me o meu domingo de volta, por favor.

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01
Mai06

sabrina

por Vieira do Mar

Trago-te em bolandas, arrasto-te comigo para o trabalho, despejas-me o meio pacote de açúcar na bica, sopras-me a juliana a escaldar que sorvo em pé, ao almoço, na pastelaria da esquina, acendes-me os cigarros que me fatiam a rotina em doses finas, suportáveis; adivinhas-me o pendor fútil e arrebanhas da banca exposta uma leitura de cordel, e lá vamos os dois, por entre risadas gémeas, a ler das traições dos outros; atrelo-te ao meu passo de corrida, como um rafeiro que se amarra à carroça dos ciganos e se arrasta, esbaforido, pelo macadame fora. Entras comigo no banho e encaixas-te em silêncio no centro exacto das minhas virilhas mornas, enquanto a água me escalda as veias e eu adormeço de ignorância e cansaço, com a rosa dos mundos caída ao lado, um sonho com poesia dentro onde nem te vislumbro os contornos, pois já me invadiste que chegasse o dia, com o fac-símile da tua sombra prestável.

 

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