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30
Jun06

pride and prejudice

por Vieira do Mar

Percebo que, quando derrapes subitamente na curva do meu queixo, me dês as costas e te afastes (receoso, desconfiado ou, apenas, com vontade de o fazeres). Também percebo que precises de mo dizer por palavras portas travessas, como se tivesses vergonha desse encolher de ombros e preferisses soletrá-lo. Mas não me peças que te empurre enquanto me puxo, pois sabes que tendo para o vórtice, para me deixar encurralar nas tuas espirais descendentes e que nada percebo da força centrípeta do Amor. Continuo a não saber quem és, nem de que oportunidades perdidas são feitos os teus dias; apenas sei que a tua insónia me encurrala nalgumas noites mais despertas e que no fundo pouco nos sobra, para lá da conversa cigana e das vigílias sincopadas. Olho-nos as voltas trocadas e pressinto-nos a melancolia pré-histórica do celacanto: um esqueleto de beleza rendilhada, quase comovente em dependendo da luz, mas que nem a datação por carbono me pode dizer quando e porque apareceu ou acabou. Parece-me que não voltarás a rasgar o ar que respiro, acho. Agora, só me falta despir este xaile de palavras esburacadas com que me cobriste os ombros aflitos e sacudir de vez o teu cheiro da minha epiderme (que nos dias ímpares e nos meses com érre resolve sempre a parva eriçar-se de esperança).

 

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27
Jun06

havana

por Vieira do Mar

Ao quarto escuro, brinquemos ao quarto escuro. Eu escondo-me no armário, por entre as lingeries de renda e as camisolas de lã, e misturo-me o suor nervoso com os cheiros a lavandas e a chanéis. Tu, procuras-me. Controlas a tremura dos dedos, desligas firme o interruptor e fechas a porta devagar, até o último fio de luz vindo do corredor se esbater no meu sobressalto contido. Primeiro, finges que me suspeitas debaixo da cama ou por trás das cortinas e que não sabes que te espero, de pernas e tesão encolhidos, na expectativa do toque adulto, adúltero, egocêntrico. Depois, cheira a roupa em que me escondo, ordenada por cores que não vês, como se farejasses o trilho fermentado do desejo, e tacteia no ar o calor que de mim foge, como um cego hesitante, receoso de tropeçar no desnível súbito do passeio ou de chocar contra o semáforo calado. Eu rirei para dentro enquanto penso como seria, a tua mão para sempre no meu joelho. Deixa-me sentir-te a respiração a desbastar-me os cabelos, mas sussurra o meu nome para o canto contrário, como se me achasses lá e confundisses os contornos da pilha torta das toalhas de banho com a sombra volátil do meu corpo encolhido. Por fim, agarra-me com pressa os braços e abafa-me o grito com a boca, impondo-me a tua língua com a urgência de uma lei marcial. Fica dentro do armário e dentro de mim, naquele silêncio próprio do recolher obrigatório, até a agitação nas nossas veiasruas acalmar e os exércitos, que nos marcharam a pele no escuro, regressarem aos respectivos quartéis (até nova ordem).

 

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26
Jun06

nine to five

por Vieira do Mar

 Apesar de tudo, longe, e nunca estiveste tão perto. Madressilvas soalheiras e dias que se socorrem de outros dias, sonhos molhados pelas franjas da madrugada fora, o cão que me lambuza o nariz e eu espirro, as unhas roídas de espanto e um refrão pimba que me borbulha na língua e me ajuda a transpor as estafetas da tarde. Longe, e nunca estiveste tão perto, apesar de tudo. Sonhos na verdade encharcados e um riso alargado no escuro, daqueles que rasgam a fímbria da manhã, dedos que brincam nos recantos do corpo e que acostam, distraídos, nas margens da pele, o relato da bola, a consulta no médico, a mercearia da esquina que abre aos domingos e aquela canção que me apazigua os sentidos, seguida de uma outra, que os alvoroça. Longe e, apesar de tudo, nunca estiveste tão perto. O que me escreves e dizes, trago à boca do estômago, o que me não fazes, trago à boca da noite, de uma noite qualquer (talvez já amanhã). Prazos a cumprir, atrasos com multa, unidades de conta e conversas meigas guardadas com cuidado como relíquias de santo, um dente, um verbo. Há ainda resquícios de um suspiro de tédio e de um bocejo de fome que se me atravessam as malhas do cansaço. Longe, e nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.

 

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25
Jun06

barefoot in the park

por Vieira do Mar

 Olha, queres um bocadinho do meu tempo? Toma, empresto-to a fundo perdido, como se dá uma moeda de cêntimos a alguém que precise telefonar ou uma boleia, a quem tenha de chegar cedo ao destino. Aceita o tempo que te dou e preza-o, porque é com ele que vais poder um dia olhar-me com a calma do luar a pique na preia-mar de Agosto, como se a noite nunca tivesse acabado e o táxi não me tivesse deixado em casa cedo demais. Não me faz falta, acredita, conheces-me perdulária e relapsa nos deveres em geral: se não to desse, provavelmente, desperdiçá-lo-ia, deitá-lo-ia fora (sabes que perco tempo, sabes bem o tempo que perco, designadamente nisto, especialmente contigo). Ignora as respostas para ontem, olha-me por um bocadinho a mão e aceita-o sem hesitares, que isto é promoção do dia e se encontrares melhor devolvo-te a diferença. Gasta-o com parcimónia, mas gasta-o bem, sei lá, usa-o comigo para me amorteceres a queda, a inevitável queda. Sabes que de bom grado te emprestaria os últimos trocos para que me comprasses um anel fingido, uma rosa dos monhés e me pedisses em casamento. Só pelo pretexto de te cobrar juros usurários em forma de beijos de língua ensaiados na escadaria de mármore sob chuviscos de arroz e espreitar as nossas salivas reflectidas no cromado piroso da limusina alugada.

 

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24
Jun06

nuovo cinema paradiso

por Vieira do Mar

Sabes, ainda aqui estou, nesta esquina onde um dia prometeste que me surpreenderias. Mantenho-me de pé, indiferente aos gracejos de pedra das soleiras das portas, aos perigos acrescidos do buraco do ozono e ao adornar dos algerozes, que vão deixando cair os restos da invernia. Para passar o tempo, vou espreitando quem passa. Reparo, por exemplo, nestes cães, que levantam a perna e aliviam a solidão dos donos no tronco carcomido da única árvore que resta, uma amoreira de copa mirrada que se esgalga por entre as paredes inclinadas daqueles dois prédios ali, os mais antigos da rua. Cá continuo, nesta esquina de arestas limadas de tanto que nelas me rocei de desejo, à espera que me chegues inopinado e te fixes nas veias salientes do meu pulso como se nelas decifrasses um código de barras, que entrelaces os teus dedos nos meus a brincar, fazendo com eles uma jangada de pauzinhos, daquelas difíceis como um rendilhado de bilros, e que distraias esta minha verticalidade teimosa com os teus ares de nobreza fingida, lambuzando-te nos meus joelhos como se presidisses a um banquete medieval e te preparasses para o jejum de uma guerra prolongada. Ainda aqui estou, nesta esquina onde sabes que te espero (onde sabes que te estou a mentir).

 

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23
Jun06

in the mood for love

por Vieira do Mar

 Quando penso que te resolvi de vez, que és caso arrumado, trigo limpo farinha amparo, quando tenho quase a certeza de que me desamparaste a loja (agora fechada para balanço, à espera de trespasse, encerrada para obras), surges-me do escuro com aquela violência própria que carregam em si as coisas impossíveis. Chegaste-me à beirinha da madrugada, armado em holograma, embora com peso e consistência suficientes para que te sonhasse com cheiro, te sentisse os pelos da barba por fazer a pastarem-me a curva do queixo e te saboreasse o hálito, que me entrou pelas frinchas dos lábios renitentes e aterrou na minha língua inquieta. Acompanhava-te o sorriso miúdo um desejo hidráulico, perfurador e persistente, que usámos em proveito próprio, amando-nos de todas as maneiras e feitios, ao longo de horas que couberam em minutos, como se as tivéssemos embalado a vácuo. O timming foi perfeito (como sempre acontece em todos os sonhos que são bons), pois tudo começou e acabou no exacto segundo em que era suposto. Lá fora, entretanto, o dia rompeu a placenta da noite e seguiu igual, e ninguém mais deu por este meu baldear inesperado pelas franjas desprevenidas do Amor, por esta ligeira alteração de rota, só eu (e agora tu).

 

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21
Jun06

Nove vezes nove oitenta e um e sonho contigo desculpa. Não é nada de mais oitenta e um mas estou a sonhar contigo desculpa. Olha é um desses sonhos quentinhos e se calhar estou a sujar-te desculpa mas deixa-te estar, isso. Estou a dormir juro. Não adormeci logo, nove vezes nove oitenta e um sete macacos e tu és um. Provavelmente foi assim perdia-me entre as contas do dia, que são cada vez mais contas e cada vez menos certas e deixei-me ficar contigo quando fugia, não quando fugia, mas agora quando tu numa parcela de uma conta de somar, de sumir, me apareces a diminuir e eu com pena agarro-te a mim. Foste tu que aqui entraste sim sim, numa parcela de uma conta juro. Não? Não mesmo? Então desculpa, baralhei a conta mas deixa-te estar, isso. Estou a dormir juro. Três vezes noves vinte e sete e eu agora divido-me contigo, eu contigo a multiplicar os dias em que não faço contas, a subtrair este cansaço que me põe à prova, dos nove, vezes nove, num oito. Não adormeci logo três vezes nove vinte e sete e olha olha tirei a folha ao teu canivete. Estou a dormir juro. De quatro, estou de quatro a sonhar contigo desculpa. A dormir juro. Um sonho quente em que tu és nove vezes nove oitenta e um ou és antes pareces-me ser até vinte e sete e agora sessenta e nove desculpa a dormir juro mas deixa-te estar. Nove vezes nove oitenta e um sonho contigo desculpa estou a dormir juro.

 

 

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20
Jun06

blood simple

por Vieira do Mar

 Tens outra (claro que tens outra). Será mais bonita do que eu? Mais alta, mais magra, mais triste (mais tu)? Também te impacientas e te exasperas, enquanto lhe forças o fecho emperrado da saia travada? Igualmente se te atrapalham os dedos, ao desapertares-lhe o soutien? E ela, morde os lábios como eu quando, torturada, a olhas com demora e de longe, sem sequer lhe tocares? E retrai-se as pernas arrepiadas de surpresa, contorcendo-se de cócegas e de falsos pudores, a cada mão tua que a entra? Tapas-lhe a boca quando, dependurados ambos nos benditos altares do prazer, ela grita, impedindo-a de acordar os vizinhos? Ao descaíres por fim sobre as suas ancas suadas, regurgitas-lhe o meu nome, como um pedaço de vida por cumprir que tivesses encravado na garganta, ou susténs dentro de ti o engasgo de cada sílaba enviesada e esperas simplesmente que eu te passe?

 

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18
Jun06

doktor zhivago

por Vieira do Mar

Às vezes, desbarato-me na lembrança que guardo de nós e faço de conta de que ainda nos queremos e de como era insuportavelmente bom quando não nos podíamos ter, porque me sentia viva. Imagino que o tom coloquial que hoje em dia nos serve, mais não é do que um escudo magnético poderoso com que nos defendemos da vontade de nos dizermos a partir de agora não me apetece mais viver sem ti. Por momentos semibreves, faz-me todo o sentido que ainda e que talvez para sempre. Então, presumo que as saudades que gostaria de sentir são verdadeiras e que me arrepanham de facto o peito em repouso, desprevenido. Aproveito e invento a falta que gostaria que me fizesses, e para isso invoco aquela que um dia senti, quando à mercê de providências nada divinas, como a teimosia descarada do desejo animal. Lembro-me de pensar que urgia libertar os meus poros abertos da tua presença húmida, mas o que consegui foi, apenas, afastar o ressaibo de não puderes ombrear comigo: nem nas banalidades dos dias nem nos excessos das noites. Agora já não me custas, sais-me barato, praticamente pechincha e estás sempre aqui (pesarás a outra qualquer). E eu, com o riso a pender-me ao canto da boca, porque, afinal, o Amor pode ser assim: uma omnipresença saborosa que me permite lamber-te a nuca abandonada, enquanto espero para pagar na fila do supermercado e tu te encontras a milhas.

 

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17
Jun06

paris, texas

por Vieira do Mar

Vou-me embora,disseste. Pegaste na mala atulhada de roupa engelhada, agarraste nas chaves e fingiste-te por momentos desorientado com o paradeiro do telemóvel, a dares-me tempo para que te pedisse que ficasses. Abriste devagar a porta da rua e fechaste-a atrás de ti meigamente e a custo, como que para não acordares a tentação de me abraçares e te deixares ficar. Só então me abalancei ao corredor, onde quedei de pé num silêncio lívido, como um espectro desnorteado que já não tivesse mais por onde assombrar. Quando o estalido da fechadura antecipou a reticência dos teus passos na escada, deixei-me cair de joelhos sobre o queixume do soalho velho, que rangeu e chorou comigo como uma carpideira paga. Foi aí que desataste a correr como se te perseguisse um exército de malditos: de conservadores do registo civil acenando-te com estranhas cláusulas antenupciais, de sogras de papada empoada a quererem-te para choffeur e assistente, de filharada ranhosa enclavinhada pelas tuas pernas acima, de administradores de condomínio e terapeutas conjugais, de porteiras intrometidas, bom dia senhor doutor, de gerentes de conta, a prestaçãozinha está atrasada, de patrões rancorosos a susterem-te promoções há muito devidas. Livrar-te-ias de todos, bastava-te chegares à garagem, ao carro e pores-te a milhas, mato adentro. Por momentos, fugiste de tudo e de todos e, no remanso daquela noite de oráculo que nos anunciava o Verão mais triste, foste alma primordial em voo pelos recantos da floresta que então te acolheu o alívio. Não conseguiste, no entanto, enxotar-me da tua lembrança, ali parada no corredor, finalmente vencida, finalmente fantasma.  

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