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16
Jun06

brockeback mountain

por Vieira do Mar

 Dos outros, nada me interessa. Dos que me rodeiam e se me insinuam, puxando daqui, empurrando de acolá, acotovelando-me gentilmente a atenção, nem dou conta. Não importa se me oferecem flores, jantares caros, palavras difíceis ou sorrisos únicos, nem se me cantam, ao ouvido esquerdo, a canção do bandido, ou me sussurram, ao direito, clichés repisados, descobertas científicas e verdades absolutas. Relevo-lhes a poesia medíocre e a prosa sentida, trespasso-lhes as transparências e vou à minha vida, que és tu. Não me tento por desvios ínvios ou atalhos fáceis, não cedo a distracções de feira nem a truques para inglês ver e ignoro olimpicamente o barulho das luzes, nesta concentração absoluta no propósito de te amar. Os demais não te obstaculizam, simplesmente, não existem, de facto: detenho-me na tua omnipresença e isso por agora me basta. O Amor não me cega, antes, priva-me de qualquer visão periférica.

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16
Jun06

the godfather III

por Vieira do Mar

Fico aqui à tua espera e temo que não venhas. Fico à tua espera, mesmo sabendo que não vens. Sei que não vens, mas mesmo assim fico. Ainda te lembrarás de mim? Fico. Não me perguntem nada, não me macem, deixem-me ficar apenas. Fico ao frio desta noite gélida das duas da tarde de um dia de Maio. Fico à mercê das vagas revoltas que me lambem o cabelo e me ensopam os ossos, pendurada numa luzinha tremeluzente numa esquina ensolarada desta cadeira. Fico à janela deste cigarro, único farol de mim. Desde que saíste eu nunca mais fui a mesma. Quando cheguei e não estavas não me encontrei. Procurei-me e procurei-me mas em vão. Não sei de mim, onde me terei guardado, onde me terei metido. Não sei de mim. Se calhar levaste-me. Procura recordar-te, vê se te lembras. É importante para mim. Faço-me falta. Pensa bem. Tenta recordar-te. Comigo terás levado também aquela minha saia curta berrante que agora não sei usar. E aquela gargalhada aberta, que tão bem me fazia. Procura bem nos bolsos do casaco. No bolso de trás das calças onde eu me metia quando passeávamos pela rua agarrados. Procura-me entre o teu cabelo, vê lá se não é a mim que ainda cheira o teu cabelo. Procura-me bem no teu peito, pelas vezes que nele adormeci em tantas noites de televisão. Procura-me no teu olhar. Não é outra senão eu quem ainda vês, sentada de costas para ti nessa esplanada, onde por acaso te apanhas se distraído do jornal. Procura-me nas tuas narinas. Diz-me lá se não é a mim que te cheira a camisa que vestes pela manhã. Não voltas eu sei, mas ao menos devolve-me, ainda me tens?

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14
Jun06

something wild

por Vieira do Mar

 Fazes-me bem, bute brincar (corto com os dentes a minha gorila, toma metade). Vamos em conluio cometer crimes, de sangue, de honra, e quem sabe atentar contra meia dúzia de liberdades individuais. Dás-me vontade de trepar às àrvores, jogar ao pião, decepar bonecas, bater nos mais fracos (carolos nos mais novos). Quero acotovelar-te propostas indecentes e desvendar-te segredos, daqueles relevantes para a segurança nacional. Vamos brincar, eu faço de índio de uma tribo canibal e tu de cowgirl, frágilindefesa num saiote florido. Quero-te perto o suficiente para que me vejas piscar-te o olho e eu te ouça gargalhar em resposta. Esfolemo-nos os joelhos antes que a noite caia, nos chamem para o jantar e nos mergulhem as mãos e os sorrisos de um no outro em barrelas de sabão.

 

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13
Jun06

the bridges of madison county

por Vieira do Mar

Nada disto é Amor, bem sei. Esse está aqui em casa, entre quatro paredes. Está na camisa dobrada com o cheiro fresco do sabão de massília, no brilho do prato de sopa acabado de sair da máquina, no sonasol lava-tudo escondido no escuro da despensa, na novela das nove partilhada a contra gosto, na mãos dadas que vão ao embalo da cusquice morna das montras de domingo, nos esgares de orgulho ao melhor flic flac da turma, no azeite quente na barriga a ver se alivia, é receita da avó, na migalha ao canto da boca afastada com o polegar do outro, no sereno deambular pelo vazio do corredor à noitinha, no riso e no sexo alimados entre os lençóis, no copo de leite a mielas às cinco da manhã e no cobertor que nos tapa com jeito as pernas frias, adormecidas no sofá da sala. Desaparecêramos do mapa um do outro, e em nada nos desviaríamos do nosso eixo existencial, da espiral de afectos que nos governa os passos. Por isso, descola a tua boca do meu ouvido, retira a tua língua da minha trompa de eustáquio, não me lambas assim o suor da pele nem me mordas ao de leve a cartilagem da orelha. Some-te, como um mau actor, na penumbra dos holofotes avariados, e não me erices o corpo com os sussurros atentos do teu desejo incumprido, que esse tocar à distância não passa de invólucro de nada, de embalagem de correio com porte pago, insuflada a bolhas de ar mas vazia por dentro, sem conteúdo nem indicação de remetente. Vazia, entendes? Quando ambos sabemos que o Amor é Cheio e se faz de muitas minúsculas presenças.

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13
Jun06

et dieu crea la femme

por Vieira do Mar

Acordo afoita, a apetecer atrever-me ao de que fujo a sete pés; quero apanhar-me à tua porta, a pedinchar ao acaso um relance teu que seja e talvez encontrar-te, num repente distraído, pelas esquinas de Lisboa; vou, ainda hoje, descortinar a aparência do teu rosto na estática ruidosa do televisor e, quem sabe, aperceber-te subitamente na geometria descuidada da dobra do guardanapo. Por enquanto, espreguiço-me e esbanjo indolência, e imagino que se te me declaras e me exaures, aqui na cama e contra a parede, e que eu não quero nem saber que a oeste nada de novo, que seja sempre só mais do mesmo e que de pouco ou nada serve, apontar-me parabólica para o satélite que és tu, numa captação pirata de fios e de cabos colados a cuspo, que redunda sempre em emissões clandestinas (de fraco sinal, por sinal). Sais por que lado, para que te espere? Estás nas chegadas? Trazes o Amor na bagagem de mão ou voltaste a esquecê-lo, num balcão qualquer do free shop, nas costas da cadeira do passageiro da frente? Vou esperar-te e, desta vez, levo-me comigo, para que me tomes logo ali, sob os bigodes atarracados de espanto dos agentes da guarda fiscal, no balcão frio da alfândega, por entre o confisco das sony japonesas e dos charutos cubanos. Tens-me na exacta medida das tuas mãos, madura para que me colhas, em ponto de rebuçado e mesmo, mesmo à tua beirinha (repara: até os cantos das minhas manhãs te pertencem). Colou-se-me à cara um sorriso tolo, orvalhado, que me alivia. Telefonas-me?

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12
Jun06

ópera do malandro

por Vieira do Mar

Todos os dias te ponho com dono, as malas à porta, te vejo pelas costas. Todos os dias me voltas, trocando-me as voltas, a pedires batatinhas, jeitinhos e abébias, a fazeres beicinho, de monco caído, a chorares-me os pedaços que ainda achas que te cabem (do jantar, do colchão, do meu corpo gelado). Por entre os vapores de álcool que emanam dos teus olhos de cão vadio, aproveitas-te da minha fragilidade estremunhada e prometes-me outra vida, recomeçar do zero, desta vez é que é, nunca mais, nunca mais. Vais falando e pedindo, implorando e jurando, mas os primeiros acordes da cidade distraem-me dessa sempiterna ladaínha. Enquanto os gatos se equilibram nos beirais e regressam a casa e os cactos cuscos espreitam pelos vidros baços das águas furtadas, vais falando e eu perdoando-te, num desfile de bocejos resignados. A madrugada que se escancara sobre os telhados tortos e tu a adormeceres-me nos braços, dormentes do teu peso na minha vida. Mentalmente, pego-te na roupa vomitada, na lábia aprendiza de caixeiro-viajante, no sorriso infantil com que sonhas com outras e nos roncos em que destilas a aguardente barata, e atiro tudo janela fora, num enrodilhado desprezível que se desfaz na calçada, com um estrondo implosivo. Parece que acertei num gato, azar. O dele.

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12
Jun06

bugsy

por Vieira do Mar

Se te não entregares, se me não abrires as tuas golden shares, se me não deres o teu domínio completo, garanto que te tomo todo o papel que conseguir arrebanhar. Bem te vejo volátil sempre a subir, a empurrares os índices. Bem sei o valor dos teus activos, há muito que acompanho a tua cotação e te adivinho o PER. Day trader inconsciente compro-te em alta para te vender em baixa. Encaixo as perdas colossais e na abertura do mercado lá estou eu a comprar-te mais uma vez, a abrir-te todas as posições, a torrar uma fortuna num espalhafato de ordens e comissões. Mas também espero os teus sinais de bullish para me manter deliciosamente long contigo. Também te sustento a força, enquanto te finco as unhas de olhos postos nas cotações quando te dá para o bear. Só depois me fecho, quase sempre sem estrondo nem alarde, a deitar contas à vida, a lamber as perdas, a renunciar aos teus dividendos. Mas agora sei que vai ser diferente. Fria e calma esmiúço e analiso-te tecnicamente. Verifico num rigor estocástico as médias móveis divergente e convergente. Releio o Principles of Security Analysis e convoco traders afamados, submeto-te aos mais elaborados sistemas e mergulho a fundo nos teus fundamentais. És a minha Monte Carlo blue chip e já te conheço de cor os suportes, os arrufos e os pontos de inversão, os amuos e as trends, as euforias, todas as brisas e mesmo as insignificantes oscilações. Sei que vai ser agora! As candlesticks, as bandas de Bollinger, o oscilador RSI e o meu insight dizem-me que é agora, que é chegado o momento. Levanto estão os stops, assanho-te todos os meus brockers e dou-lhes ordem para te caçar, não me importa a que preço. Eu própria vou à praça cobrir todas as ofertas! É bom que saibas que te lancei uma OPA e não há CMVM que te valha. Serás todo meu. Restar-te-á apenas decidir se me queres dócil ou se antes me vais querer hostil.

 

 

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10
Jun06

intolerable cruelty

por Vieira do Mar

Sonhei contigo no banco dos réus: estás de pé, mentes-me quanto aos antecedentes criminais e indicas-me falsa morada. Despes-me a toga (a beca?) com os olhos e soltas-ma dos ombros com a dentada do teu riso escarninho. Sustenho-me os sentidos, enquanto te interrogo sobre os factos que te trouxeram aqui e que nos perderam. Devia pedir escusa por conflito de interesses, pois dano-me por te condenar, sem apelo nem agravo, no limite máximo da pena, pelos rebordos da injustiça. Não a substituirei por multa nem deixarei que a pagues com trabalho comunitário, nem sarjetas nem jardins, a não ser que me entendas junta de freguesia. Sou juiz em causa própria, advogada, acusadora, cúmplice e testemunha; sou a funcionária que gritou o teu nome à chamada. Pedes clemência, que te redimes, mas eu, com a devida vénia a todos os presentes, acabo contigo. Agiste livre, voluntária e conscientemente, com dolo mais que directo e apontado aos meus reconfins. No olhar de viés para a porta aberta, é pública a audiência, adivinho-te a intenção de fuga e sinalizo a autoridade, barriguda e abigodada, distraída com os resultados da jornada anterior, mas é que nem penses. Quero-te a pão e água, papillon de estimação na limpeza das latrinas, a estirares a tua insónia pelo chão da solitária (onde relembrarás em excesso as nossas noites criminosas). E cumprirás pena até ao fim dos teus dias, partindo pedra, bordando arraiolos e montando carris, pois vais igualmente condenado nas custas do processo, acrescidas do muito que me tens custado a mim.

 

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10
Jun06

pillow talk

por Vieira do Mar

Não me telefonas e eu não há meio. A tristeza é um corpo estranho que trago em mim porque tu não, como uma bala perdida que se me alojasse na omoplata e me incomodasse nas noites húmidas ou cientistas extra-terrestres que me tivessem implantado um chip à sorrelfa no cérebro, a comandar-me à distância a existência vegetativa. Não me telefonas e o dia sempre cinzento, de uma névoa elástica que não se rompe e vai resistindo à insistência perfurante do sol de Junho. E eu, como um domingo sem companhia ou um parque de diversões fechado para obras, porque nada me dizes. Ao telemóvel, tiro-lhe o som, perfil silêncio, se não me ligares não o saberei, presumo que hesitaste e deixaste mensagem, tão certo como o uivar dos cães ao sino da igreja para a missa da manhã. Nada me dizes e eu. Que pespeguei com a maior bandeira de portugal do mundo na varanda das sardinheiras, que vesti a mini-saia curta e me abalancei a um penteado menos rente à cara, que afinei a voz para que te soem alto os meus queixumes trinados e estes pregões indecentes de varina no cio. Eu, de letreiro na testa e de alvo encarnado desenhado no umbigo, a ver se me acertas em cheio, mas tu não ligas, é tarde e o cheiro do Tejo vazio invade-me a casa e circunda o colarinho da camisa que esqueceste enrodilhada, aos pés da minha cama, por uma destas noites. O teu silêncio de apneia é como mergulhar no escuro fundo de um oceano onde dormissem cabozes cegos, baloiçassem lulas transparentes e vegetassem corais desmaiados.

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07
Jun06

underground

por Vieira do Mar

Engraçado como à minha casa não vou, antes a tua. É de noite como aliás comigo é quase sempre de noite. Passo rente pela minha porta sem sequer lhe deitar olhar. Sei que ali está, sigo em frente. Bem sei, não avisei, mas que queres, eu própria ainda há pouco, agora mesmo... Vou para tua casa onde não existe mesa posta, cama feita. Vou para tua casa onde ninguém me espera. Dessa tua casa poderei sair para comprar cigarros apesar de não fumar. Pois é, que maçada, eu não fumo. Decidi: Quando chegar a tua casa volto a fumar. Pedes-me em casamento e eu não me lembro mas acho que te disse que aceitava. Dançamos. A boda são três dias. Vinhos, acordeões, clarins, pandeiretas, cavalos, latas, ciganos descalços. O fotógrafo, os padrinhos. - Juntem-se todos para cabermos! O padre sorridente a gamar-nos as alianças enquanto nós nos beijamos. A chave do quarto a baloiçar-me na mão e o padre outra vez, agora a morder a aliança, a afiançar o ouro a meio da pergunta - É por meia hora ou é para a noite toda?

 

 

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