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27
Jul06

sea of love

por Vieira do Mar

Discutir os prós e os contras num frente-a-frente de argumentos colados. Pôr a escrita em dia, fazer o balanço da situação, eu em cima e tu por baixo. Retomares o fio à meada que tenho cá dentro e minotaurizares-te pelos meus trilhos, guiado apenas pelo cheiro. Esclarecermos dúvidas, analisando-as e despindo-as, se possível nus em pêlo. Acertar os ponteiros, dar-te corda e fazer as minhas horas coincidir com os teus minutos. Sobrepostos. Tocarmo-nos em capicua, nos dois sentidos, para o que der e vier. Rever a matéria dada, insistindo nos pontos fracos, que são os mal sabidos, os ainda não estudados e aqueles cujo gosto entretanto esquecemos. Escrutinar o prazer, não vá o diabo tecê-las. Definir estratégias e reoganizar a defesa, escudares-te dentro de mim em formação tartaruga. Pedir-te tréguas e ajoelhar-me à tua frente em súplicas fingidas, lambendo-te com ironia sobranceira. Medir forças e esticar a corda. Pores-me os pontos nos iiis em sessões conjuntas de esclarecimento e eu, a exclamar-te primeiro e a interrogar-te depois, a abrir-te as pernas em posições gramaticalmente erradas. Pedir-te meças, prestares-me contas. E limar as arestas. Dos lábios.

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25
Jul06

tess

por Vieira do Mar

A pensão à beira-mar, um pequeno palacete de sonho de pescador, com direito a pináculo e tudo, forrada a madeira de um quase branco carcomido por anos de maresia, erguia-se com uma inocência desabrida, como se nela não andássemos a esconder o cheiro acre da sofreguidão e da culpa. O mar arrulhava-nos por entre os lençóis e as pernas batiam-se num duelo de cãibras e de sono, enquanto as minhas mãos gemiam de vontade pelos teus cabelos ainda mornos. Cotovelos que resfolegavam, amorosamente. O Inverno trazia o iodo pela manhã (algas pretas como línguas), que entrava pelas nossas narinas, abertas pelos cheiros adocicados do sexo e do sabão azul no linho gasto das almofadas. Eu acordava antes de ti, pousava os pés engelhados de prazer no soalho morto e, com um par de olheiras espraiado pela cara que denunciava a urgência a prazo da paixão clandestina, corria porta fora ao encontro da verdade do oceano, que todos os dias me esperava com a honestidade das marés. Antes de sair, engolia um copo de água e arrebanhava uma maçã, sobrada da noite anterior. Comíamo-las às dúzias, os dois virados ao contrário na enorme cama vitoriana, enquanto os dedos dos nossos pés seguiam o trilho delicado dos embutidos de cerejeira no rebordo da cabeceira, empurravam infantilmente as esferas de nogueira em cada um dos topos a ver se caíam, e se amavam como cães na estrada. Detinha-me por fim na areia molhada, a maçã meio comida (o coração aquecido de medo). E era então que o quebrar quezilento das ondas contra a persistência do molhe me admoestava os sentidos (domesticados pela vadiagem da tua boca) e me devolvia a pergunta de sempre, o que é que estás aqui a fazer?

 

 

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20
Jul06

the fabulous baker boys

por Vieira do Mar

Brinco contigo e com o desejo que nos temos, porque somos, fundamentalmente, amigos e é assim que os amigos fazem: contam-se segredos, partilham impossíveis e tocam-se pela rama. Brinco connosco e com esta pesca ao arrasto, em que nos atiramos redes esburacadas e nos escapamos como golfinhos com sorte, semana após semana, porque te acho graça a essa fuga em frente, desmazelada e perigosa. Brinco comigo, porque me vejo excessiva e ridícula, a querer-te de modo tão perdulário quanto inútil, refém de um desejo-tractor inutilizado e avariado num palheiro de quinta. Brinco, porque sei que me desperdiço as horas e me vou gastando com nada, mas, que queres, acho-me graça, à perseverança amorosa e à disponibilidade sorridente, que me acrescentam sempre algo de bom. Gozo com o sexo bestial que nos invento em coreografias madrugadoras, porque jurei que pela minha pele nunca mais perpassaria a angústia de não te poder ter e eu cumpro sempre as minhas juras (menos a que às vezes te faço, que é a de deixar de te querer). Brinco, porque às vezes me sinto outra vez miúda de sardas e de dentes de coelho, à beirinha do último degrau do prédio e do primeiro amor, a provocar-me vertigens, curiosa dos mistérios da queda brusca. Brinco contigo e com o desejo que nos temos porque somos, fundamentalmente, amigos (e é assim que os amigos fazem).

 

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19
Jul06

sommersby

por Vieira do Mar

Que se pode amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo e que o coração (esse caixote onde depositamos o lixo não reciclado do Amor à falta de sítio melhor) é uma mansão cheia de quartos embolorados, à espera de limpezas renovadas de Primavera e de gelosias abertas. Mas não. O coração é um espaço pequenino e claustrofóbico, um metro quadrado de elevador, se tanto. Quando cheio, os que lá estão empurram-se, enquanto se cheiram com desagrado e se olham desconfiados. Dois no coração e já há excesso de carga, a porta não fecha e não se vai a lado nenhum, nem para baixo nem para cima. Amo-te. Mas também a ele. E não: não existe isso de um coração dividido, como um quarto camarata, com beliches de ambos os lados, ou uma suite real onde todos caibam. Não existe um que fique com o lado que leva o oxigénio, nem outro com o lado que o traz. De nada nos vale, apelarmos às fronteiras certas da anatomia: amar a dobrar é apenas um desencontro triste com o que na altura se ama menos e uma alegria fortuita e pouco serena com o que então se ama mais. Não há como vos amar aos dois: não quero os teus braços, nele, nem o sorriso dele em ti. Quando te toco, fico aquém porque não me entrego inteira; quando vacilo sobre ele, preciso-te com o desespero dos náufragos exauridos. E, no meio, o meu corpo indeciso que pende à vez, (in)fiel de balança, a braços com uma vontade por cumprir, como a que nasce das carícias incompletas. Este corpo que parece não se decide, tempestuoso, enjaulado, como um suicida que não consiga escolher em que poço mergulhar, de que ponte se atirar. Amar os dois mas, no fundo, não amar nenhum, ninguém, nem sequer a mim própria (muito menos a mim própria).

 

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15
Jul06

delta of venus

por Vieira do Mar

Dizer-te que seria contigo, que recomeçava tudo outra vez, alfa, beta, gamma, delta. Mesmo sem te saber o gosto, que te amaria de forma errante. Só assim podia, épsilon se me escondesse sempre onde me deixo, se me tapasse onde me apetece, mesmo por detrás de um alfabeto, digamma. Dseta dizer-te que me és indiferente é dizer-te que me és para lá das letras, eta inexistente. Mas por trás, por detrás desse alfabeto theta congeminar-te, erigir-te. Dizia-te que seria contigo mas na verdade não o sei. Iota eras tu ou em qualquer outro sítio mas minha kappa, em todo o lugar lambda para me ensaiar, mi, ni, ser eu à distância dos olhares, às escondidas de nós, xi. Omicrón e mandar às urtigas as convenções. Pi e abandonar as nossas peles. San e sairmos por aí ooppa. Renovados de nós rho. Sigma, tau, ipsilon, fi, estranha liberdade esta a de não sermos nós, khi, psi, ómega e sampi, mas única forma de um não se fazer sim.

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11
Jul06

amores perros

por Vieira do Mar

Querias que escrevesse o que senti ao rever-te, que deixasse cair como ainda te quero e me arrepanho e derramo no teu olhar lacustre, mas não, desculpa. Esperas que eu te vá escoando através de palavras mansas,porque nelas te bastas e nos desbastas, mas não, lamento. Nem penses que te contarei como me contorci os tornozelos sóbrios na vontade ébria de me roçar ao de leve no canto direito da tua boca e desengana-te, se vens à procura do que não te pude dizer, porque tu não deixas (nunca deixas) e eu não quero (às vezes, quero). Também não te direi que só quando te vi percebi como tinha de facto saudades, e que as saudades que andei a dizer-te que tinha eram mentira, pois delas não fazia a mínima ideia, nem sequer sabia que as evocava como mero remate de breves despedidas por escrito. Gostarias que te descrevesse como esta noite me agarrei à almofada, náufraga por fim em terra firme, que a pus entrepernas como fazem as crianças com medo do escuro e que, depois, a atirei para os pés, espreguiçando-te para fora da cama, escoiceando para o chão os lençóis suados que quereria encharcados do teu esforço anaeróbico sobre o riso do meu umbigo. Querias que te abrisse os meus desejos cerrados como às vezes te abro com raiva as minhas pernas (reumáticas, atrofiadas, gangrenadas e cobertas de varizes em forma de afluentes parados, como as que surgem na velhice da espera).

 

 

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09
Jul06

bus stop

por Vieira do Mar

Ontem passaste por mim e eu na paragem do autocarro, à espera de quê, naquela mansidão costumeira, inútil. Abraçava-la com um fervor meigo, como quem se congratula, e teimavas em cobrir-lhe a bochecha direita sempre com o mesmo beijo, gasto do despudor de tanto uso. Foi pior do que não me teres visto, porque me topaste o embaraço pelo canto de um olho distraído, mas o meu interesse na geometria da calçada não te mereceu qualquer dobra de atenção. Limitaste-te a rodear-lhe o pescoço com a força do teu antebraço e, com o ouvido dela à entrada da tua boca, ter-lhe-ás segredado o desprezo que me tens. Ela riu-se, sem sequer se dar ao trabalho de me medir a presença vacilante, para quê. Naqueles segundos, em que memórias e aragens velhas se embrulharam nas esquinas de betão, nos letreiros, o céu plúmbeo pesou-me tanto como a alegria cúmplice da vossa passada síncrona. Mas um pequeno tornado pareceu formar-se do interior da sarjeta que nos vigiava de baixo para cima, e a ventania súbita que vos arrepiou os nós dos dedos devolveu-te o meu cheiro a medo e a perfume antigo. Morreu-te o sorriso nos lábios, como uma porta que se fechasse, e a lassidão tomou-te conta dos braços, que te caíram ao longo do corpo como quem se rende ou deslaça por fim a mortalha. E a nuca dela ficou exposta (via-se o arrepio da sua pele sem ti), a rua toda a cochichar-lhe a nudez e foi bem-feita. E agora não sei que faça, com os murmúrios de súplica que te adivinho no sorriso de porta fechada e no antebraço caído, e nas mensagens de voz que me entopem o gravador e o decurso corriqueiro dos dias.

 

 

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06
Jul06

l´amant

por Vieira do Mar

Preciso de me desenvencilhar do cinismo da escrita, que enfeita a verdade e a dissimula, impondo-nos sentidos contrários. Tantas palavras polvilhadas sem parcimónia como especiarias em excesso, têm vindo a disfarçar o sabor do que quero de facto dizer-te. Desde que nós, homens, nos largámos as caudas de girino pelos chãos sulfurosos e nos abalançámos a braços e pernas e alma, que tendemos a confundir as urgências da carne com a paixão e esta, com a vontade de envelhecer junto. Andamos ao engano desde o início dos tempos, a tentar fintar a Natureza e a querer convencê-la de que o prazer com que em boa hora resolveu dotar-nos os pontos cardeais, não é mero engodo para que embarquemos mecanicamente na perpetuação da espécie, mas algo de mais profundo e inexorável que nos enobrece a condição. Estou certa de que alguma confusão destas terei feito para me convencer de que te amava enquanto ardia por dentro à sexta-feira à noite. Talvez porque me coubeste, porque me preencheste o milímetro quadrado no canto ao fundo do ventrículo esquerdo que doía como um sopro e isso foi o bastante, porque é de um buraco negro, que me sugava a matéria de que sou feita, de que te falo. Hoje, quando tenho a certeza do que apenas quereria de ti (uma hora, uma tarde, e só porque não suporto não saber como poderia ter sido), quero dizer-te que te amei, sim, mas que acabou. Não te amo mais porque não te posso ter e porque que foram demais, as palavras gastas na camuflagem de guerra. Teriam bastado cerca de três: Amor. Sexo. Fim. Não necessariamente ao mesmo tempo nem, obrigatoriamente, por esta ordem. Ficamos, então, assim e eu prometo não mais confundir o meu desejo animal com a tua solidão. E que me releves o atrevimento, afinal, todos sabemos: o Amor é a brincadeira preferida dos adultos.

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