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29
Set06

memento

por Vieira do Mar

É oficial: esqueceste-me. Saiu hoje publicado em diário da república, veio na primeira série, mesmo ao lado de uma revogação. Finalmente promulgada, a indiferença que me tens, em papel e suporte electrónico, para mais com força de lei, daquelas gerais e obrigatórias, em vigor no continente e ilhas. Está na boca dos pregoeiros, no alinhamento dos telejornais e nas listas dos homens da rádio. Reuniram-se comissões, pediram-se pareceres vários, aprovou-se na especialidade. Esqueceste-me, é oficial. Mas correm por aqui uns boatos, que quando te cansas do que tens a mais, ainda te queima os lábios a ponta escassa de um beijo, como uma beata esquecida. Pois a mim, não me convencem, as lembranças oficiosas, as memórias por ouvir dizer, o ruído da voz do povo. Exijo um desmentido formal, em conferência de imprensa, onde afirmes aos microfones o propósito de me relembrares nos meandros da tua boca, e de me quereres ao teu redor lá pelo final de uma destas tardes de Outono.

 

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27
Set06

mar adentro

por Vieira do Mar

Foste-te embora e não me ensinaste a viver sem ti. Não me deixaste manual de instruções, nem nenhum tutorial em português do brasil. Nada que me dissesse para onde me virar nem o que fazer a seguir, agora que apenas uns laivos fugazes da tua sombra fátua me enfeitam os pés de grifo da mobília de época. Um folheto explicativo, ao menos; uma tradução manhosa do original em chinês, com o género trocado e palavras inventadas, corruptelas ou derivadas. Nem um recado, sequer, na porta do frigorífico, faz assim ou faz assado, ou um post it na secretária, no ecrã do computador, que sumariamente me explicasse os modos de encher os espaços vazios com esta sumaúma triste. Não me deste perspectivas de regresso nem qualquer tipo de garantia, experimente e em quinze venha cá carimbar; não me mostraste as precauções a tomar ou a profilaxia a fazer nem, muito menos, os perigos que corro com a sobredosagem da tua ausência na minha corrente sanguínea. Foste-te embora e eu. Às voltas com as dificuldades de montagem da tua falta nos meus ocos recantos, sem saber como me encaixar no vácuo que provocaste. Eu, solta e desconjuntada, mil peças de pinho sueco espalhadas pelo chão da sala.

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19
Set06

21 grams

por Vieira do Mar

À casa que foi nossa, não mais voltei. Minto. Passei-lhe em frente um destes dias, apenas para a vislumbrar num rompante de desdém calcinado, a tabuleta de vende-se a trespassar-me o orgulho ferido de morte. Minto. Parei e entrei. Doeu-me a secura curvada da fiada de roseiras bacará que plantei em tempos, quando também o futuro me parecia a direito e alinhado a prumo. Entretanto, a grama envenenou o relvado, agora roto do afã das toupeiras e dos coelhos. Remendei-o com o olhar e hesitei-me no caminho de saibro que conduz à entrada. Minto. Quase corri. Empurrei a porta, estranhamente entreaberta, e ali estavas tu no topo das escadas, a iscares-me para a cama com o sorriso instigador; e a espreitares-me da cozinha, de avental à chef, com duas fatias de piza congelada nas mãos, os segredos da confecção do sushi por desvendar na barriga do gato rafeiro; e no sofá da sala, a embalares-te o cansaço num western manhoso e a repetires em surdina as falas amargas do herói solitário. Voltei as costas aos teus eus que me iam surgindo num bailado de memórias assombradas e saí. A última vez que te vi era domingo e cantavas e cortavas a relva num slalom tresloucado por entre os aspersores, como se dançasses à chuva e bradasses aos céus o estarmos felizes. Deixei-te para trás e nem chorei, sequer. Minto.

 

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12
Set06

malena

por Vieira do Mar

Chegam-me na volta do correio, as cartas que te escrevo, devolvido ao remetente, destinatário desconhecido. Às vezes, passo em baixo da tua janela e invento que aquela sombra a cobrir o nicho de estuque branco (que vislumbro quando abandonas as gelosias desengonçadas ao meu olhar magro, de tanta fome que te tenho) é a de um suspiro teu por mim que se tivesse perdido pelo corredor, por entre os biscuits, os bricabraques e os souvenirs almofadados. Geralmente, escondo-me na ombreira de pedra tosca da tua entrada, a roer as unhas, o coração naquele desalento descompassado de soldado bêbado. Espero durante horas, enquanto me imagino num deslizar sulfuroso pelas tubagens de gás propano, a entrar-te nas narinas como um veneno e a adormecer-te num sono fundo em que só entrasse eu. Já cheguei a tocar-te à campainha, mas desatei a fugir rua acima como um miúdo a caminho de casa que driblasse o tédio depois das aulas. Enquanto tropeçava nas poças, ia imaginando ao correr das pedras o que aconteceria se tivesse ficado e tu me tivesses aberto a porta, e como eu fingiria um desfalecimento súbito nos teus braços desprevenidos, uma baixa de tensão, um copo de água por favor.

 

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06
Set06

o beijo da mulher-aranha

por Vieira do Mar

Vens um homem novo. Despoluído, liofilizado, desintoxicado de nós, diferente. Mas nota: eu, que ainda por aqui ando, tudo farei para te baralhar as prioridades, para te roer até aos ossos os ânimos renovados e te reavivar as minhas impressões digitais (que um dia, inadvertidamente, deixaste que tatuasse na tua pele). Um homem novo: limpaste-te a chache, correste-te os melhores anti-vírus, activaste-te a firewall. Vens devidamente formatado e em branco, pronto para hercúleos trabalhos e para as batalhas habituais nos open spaces, por entre as redes redis, o escaldado das bicas cheias e o frio das legionelas: a cidade à tua espera. Sacodes os restos de terra e de areia que se entranharam nos poros, respiras fundo e fazes-te à vida, meio calado e dormente, talvez para que não te ouça, não saiba que chegaste. Eu? Já to disse: por aqui ando, em modo trapézio, pendurada no cimo dos prédios, feita mulher-aranha a abalançar-se no fio de prumo e da navalha, a um passo de aterrar no teu colo sem que me tenhas dado licença e danada para te surpreender nessa retoma dos dias úteis com um solene beijo de língua no teu âmago desinfectado (enquanto finjo um abraço apenas ternurento no teu redor).

 

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02
Set06

dangerous liaisons

por Vieira do Mar

És-me necessário, saliente, impávido, arrematado, incerto, inútil, possante. Não existe em nós uma coincidência feliz que seja, apenas esta precisão gemelar de costas cosidas com costas, dois caminhos que não se diferenciam nem bifurcam, mas que não conseguem ser um só. Que nem sequer são paralelos, porque se tropeçam, se impedem e se guerreiam nas mais pequenas minudências. Que alívio quando te vais, que tormento quando nunca mais chegas; que silêncio quando passas por mim, como se os teus gestos me enxotassem o sorriso varejeiro; que torrente de palavras sentidas jorra quando não estás, numa verborreia tão desesperada que até as paredes, condoídas, me respondem de volta. Naquelas noites enormes que transbordam de minutos a mais, quero muito ouvir-te a chave à porta, mas depressa me esgueiro, fazendo-me casta e adormecida, para que nem te lembres de me tocar a pele em fogo. Não há gramática que explique a contradição nos termos de supostamente te amar, tenho quase a certeza, mas de me apetecer ter-te quieto, no fundilho dos meus bolsos misturado com o comando da garagem, no compartimento interior da mala de mão encostado ao baton, a tua vontade empalhada como um troféu de sala, para meu eterno descanso. Não sei se é doença, mal-estar, aflição, virus, ou apenas condição; sei que é um jogo que tenho de ganhar sempre, embora perdendo-te uma e outra vez pelo meio.

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