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29
Out06

bonnie & clide

por Vieira do Mar

A essência do Amor está na simultaneidade: não na dos orgasmos ou na da hora das refeições, mas na simultaneidade do riso indecente. Por um destes dias, numa tentativa de diálogo com um ser patético, fui acometida de um riso maldoso e incorrecto, quase cruel. Na verdade, não foi um riso: foi mais a involução dele, uma coisa que morreu para dentro, porque faltavas lá tu. Lembras-te?, quando gozávamos as fraquezas súbitas dos outros sentíamo-nos mais fortes, melhores, a pairarmos sobre os não abençoados com a telepatia eugénica do Amor, que despreza e reduz a pó tudo o que lhe ameace a perfeição. Faltavas lá tu, e eu, a olhar aquele desfiar de um rosário triste, os lábios cerrados à força e o riso a querer soltar-se dos fundilhos da garganta. Mas cedo a performance absurda daquele estranho me caiu em saco roto, o riso engolido como um remédio amargo, uma colherada de rícino a escorrer-me pelas veias num silêncio mortificado. Que falta me faz, a partilha fortuita da maldade, que nos punha nos píncaros de nós e nos fazia ser, por momentos, tão mais do que os outros.

 

 

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27
Out06

the seven year itch

por Vieira do Mar

Estou mesmo ao teu lado e bem sabes que só. Salta a tua agenda e três ruas, contorna-te a cintura renitente e as rotundas de palmeiras, atravessa-te a indecisão e o viaduto, esquiva-te à culpa e aos cruzamentos, corta a direito e à tua direita e estás à minha porta, à minha ávida porta, um raminho de salsa. Sabes que estou só, vizinha hibernada neste Inverno precoce, abandonada ao meu queixo, às persianas corridas, ao cheiro a fritos do andar de baixo e ao restolho ternurento dos outros. Queria beber-te em goladas de sílabas graves e tónicas, em vez do gin desacompanhado e morno que passeio entre mãos; queria matar esta saudade mafiosa que tenho de ti, em vez de matar o tempo que sobra com séries televisivas de quando se usava colete, carapinha e botas de tacão, e concursos antigos com prémios em escudos entregues a desoras. Sei que estás perto e que em dois minutos, talvez três, quiçá cinco, temo-nos os olhos a ferver e ambos os sorrisos rendidos, a desfazerem-se-nos nas bocas como massapão. Quem sabe se encontrem, no ar saturado da espera, as pontas dos dedos ou as palmas das mãos. Eu, sozinha e perdida em mim e tu, rondando-me o bairro, ensombrando-me a varanda e os vasos baratos de roseiras despidas, o teu cheiro a pairar no focinho do cão. Vem até cá: conversamos um bocadinho o amor que deixámos por fazer, relembramos os parágrafos que nos deslassaram os abraços ferozes e soletramos os beijos que não demos. Partilhemos a vontade ociosa de sermos melhores do que aquilo em que nos tornámos.

 

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19
Out06

bitter moon

por Vieira do Mar

Não escrevo para não me ler. Temo que as palavras se me escapem por entre os dedos, fujam a sete pés ou afluam à superfície; que se esgueirem por entre as brechas da minha desatenção e resolvam dizer-me. Por isso, por estes dias, tranco-as a sete chaves e alimento-as a pão e água nas minhas masmorras escuras. Quero-as fracas, quebradiças e resignadas à sua sorte, para que não se amotinem nos ressaltos das minhas entranhas nem deslassem as amarras que tanto trabalho me deram a compor e onde me contenho a esforço. Não escrevo para não me ler. Calo-me as letras: evito as perífrases nas quais tendo a estender-me, contorno os oximoros em cujos contrários habitualmente me revejo e faço de conta que não estou em casa. Enxoto adjectivos, sujeitos e complementos, como pedintes que espreitasse à socapa pelo óculo da porta. Desactivei-me temporariamente. Receio que as palavras, matreiras, me fintem, me levem ao engano e me encantem, sereias, estendendo-me a mão, o ramo de oliveira, o cachimbo da paz, a sua outra face. Não quero que se me insinuem, nem que se dispam e rodopiem no varão da minha imaginação doente. Tenho medo do que possa encontrar de mim, nelas. Tenho medo de te encontrar em mim, nelas. Não escrevo para não me ler.

 

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17
Out06

spanglish

por Vieira do Mar

Lembras-me de pouco. Não que isso me importe ou faça grande diferença, nada vivemos de tão extraordinário assim; pelo menos, nada que me tenha ficado gravado na pele como as chagas de cristo ou coisa que o valha. Não me fazes falta nem te tenho precisão, como se uma despensa vazia. A vida continua-me, periódica e regular, sem assistolias de maior nem registo de paragens cardíacas. Se me morresses amanhã, nem por isso afocinharia o desgosto em máscaras de oxigénio ou recorreria a suportes de vida artificial. Também não se trata de tropeçar na tua sombra encolhida quando a noite se desvela pelos saguões e as paredes das casas se espreguiçam de cansaço. Repara: não é como se alguma vez te tivesse tragado inteiro. Por isso não sei (não entendo) porque persisto em coleccionar-te como cromos da heidi e em colar-te, palavra por palavra, nesta estranha caderneta, gasta do afã do uso.

 

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11
Out06

serendipity

por Vieira do Mar

Se o sinal passar agora a verde ou o carro em sentido contrário for branco; se não chover até amanhã, o telemóvel tocar no próximo minuto, eu chegar a casa antes de ser noite ou se depois da esquina estiver alguém em pé à espera; se este cão atravessar a estrada ou o homem gordo me sorrir de volta, se o miúdo der a mão à mãe ao cruzar a passadeira, a farmácia estiver aberta e eu for atendida logo; se a nuvem em forma de oito não se desfizer em zeros ou se ainda houver o jornal de ontem na papelaria da esquina; se atrás do pombo ali pousado vier um outro, a seguir-lhe o amoroso trilho, ou se o locutor repetir a palavra hoje entre os dois noticiários; se aquela mota me ultrapassar antes de eu curvar para a esquerda ou se a matrícula da frente for ímpar, é porque voltas para mim.

 

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01
Out06

the constant gardener

por Vieira do Mar

Desculpa-me, vá lá, releva. Desculpa os detectives à porta, os agentes da judiciária, as chamadas a meio da noite, os murros na janela do quarto, a choradeira na escada, os prantos convulsivos, os esgares e o arrancar de cabelos, as idas à bruxa com a tua roupa interior, as mezinhas e o chá amargo. Esquece o professor mambo, astrólogo de renome, o absurdo da tua sina na palma da minha mão, os búzios deitados na mesa pé-de-galo, as folhas coladas no fundo da chávena, as cartas viradas, a imagem da morte a olhar para ti. Faz de conta que não, o escândalo no teu local de trabalho, a censura do chefe e o risinho dos colegas, as ameaças vãs, as esperas que te fiz pelas esquinas da cidade, o encontrão, os arranhões, o desvairo insano dos meus ataques felinos. Perdoa-me, vá lá, desculpa, o vasculho nas algibeiras, o escrutínio nervoso dos teus talões de compra, extractos bancários, recibos das portagens, contas de restaurante, dois pratos de carne duas sobremesas; e o farejo animal dos punhos das camisas, dos colarinhos manchados, do nó das gravatas e das dobras do fato. Releva-me, vá lá, perdoa, estes excessos tão espúrios e de consequências tão mínimas. Sim, porque eu sei (desculpa, mas sei) que passas por mim e me olhas através, como se a minha loucura contivesse em si o paradoxo da medusa e fosse, como ela, por demais venenosa, embora transparente.

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