Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


12
Dez06

sex and the city

por Vieira do Mar

Uma tarde abafada no centro comercial e ali estavas tu, com um bebé ao colo, um pai a exercer os seus dons mágicos de mãe. Assestaste e apontaste o teu sorriso franco-atirador na direcção do meu espanto, enquanto eu, numa desumanidade gritante, o espreitava, esperando-o feio, mirrado, birrento, por favor que não tenha os teus olhos lacunares nem o mesmo riso pingão entre as bochechas. O ar saturado de domingueiros sem gosto nem qualquer noção de espaço contentor atirou-me ainda mais contra o beirado da irrealidade e, enquanto nos debitávamos banalidades, deu-me a vontade de que fosse meu. Meu e teu. Nada de extraordinário: sabes bem que no dia em que o concebeste estavas a amar a pessoa errada. Enquanto, à nossa volta, as crianças cobiçavam nenucos, barbies e floribellas, eu cobiçava a tua vida e imaginava-me infiltrada nela. Tu, num crescendo ansisoso, embaláva-lo desnecessariamente (porque dormia) e furavas o lá ao longe à procura da tua mulher, para que o espírito da quadra se recompusesse sem mácula e eu não passasse de uma nota dissonante na canção natalícia de fundo, como uma viagem de elevador demasiado longa. No meio de tanta frivolidade, para exortar a emoção de ver o teu futuro nas tuas mãos e eu bem atrás das tuas costas, uma coisa me chamou a atenção e me fez disparar-te um sorriso de volta, dos verdadeiros, como se fosses carne para canhão do meu ego ressabiado: tu, o rei dos conhecimentos fáceis e do à vontade com todos, não me apresentaste à tua mulher, e o embaraço pesava-te tanto como o filho que lhe passaste para os braços quando ela chegou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

08
Dez06

titanic

por Vieira do Mar

Tira-me estas noites longas da frente da vista fraca, empurrada a lentes grossas; afasta para o lado o armário dona maria onde guardo tantas memórias desfeitas nas pontas, como os macramés, as rendas desbotadas de noiva, as pretas de viúva, os naperons esburacados, as fotos desbotadas de falecidos despontando bigodes e cinturas austeras. Contrata-me uma empresa de mudanças, daquelas para transportes perigosos, que tenha grua para levar pelos ares este amor velho e desmazelado; estou tão leve, sabes, leve como uma fada, o tempo levou quase tudo o que me era físico: um rim, uma vesícula, os músculos com que te apertava contra mim; e levou-me a consistência feroz da pele, hoje quase transparente e com vontade de cair por terra, de se juntar a ela e de se unir a ti. Distribui esta impressão, que ainda tenho entre as pernas, de quando me trepavas o vão da janela do quarto de solteira com os olhos cheios de auspícios de cama, pelas mulheres da rua, para que lhes alivie a função. Sopra-me esta saudade selvagem para longe, contrata especialistas em desratização e que me fumiguem esta vontade estéril de ser tua uma e outra vez, enquanto a escalfeta me aquece os joanetes doridos por debaixo do xaile preto e a novela da noite faz por me domesticar a desatenção. Dizima-me esta praga de querer que entres em mim e me faças o primeiro filho e de querer esquecer que já tenho netos que me olham com dó, de esquecer que todos se esqueceram de que ainda sou mulher, por debaixo das artroses e do xaile preto. Porque há uma vontade de mulher que anda à solta por aqui, que se reproduz em qualquer clima, que se adapta a quaisquer circunstâncias, que faz ninho nos armários bichados da cozinha antiga e que se passeia pelo serviço esbeiçado da fábrica real, por onde bebo o teu chá favorito e te beijo os lábios.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.



Favoritos



"Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento" Adélia Prado