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31
Jan07

the remains of the day

por Vieira do Mar

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo.Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.

 

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23
Jan07

the war of the roses

por Vieira do Mar

Nesta fotografia estamos os dois, sim, mas, se é certo que foste tu que a tiraste e que a mandaste revelar, eu escolhi a moldura, por isso não a levas. Porque é moldura da grossa, pesada, com umas rosinhas trabalhadas no pinho, muito digna de, então, nos emoldurar; uma moldura daquelas maciças que afirmam coisas, que marcam posições, não das fininhas sem espaço para as margens, que acabam logo ali, deixando os sujeitos à beira de um precipício; gosto das que deixam adivinhar mais e mais bocados de movimento, de gestos, de paisagem. Como esta. Olha-a bem. Foi tirada quando a nossa vida ainda transbordava de hipóteses e se nos abria pela frente como um quantos-queres. Está bem, já dissemos, foste tu que a tiraste, que ajustaste o zoom e o temporizador para captar a nota certa e o momento exacto algures na partitura daquele beijo agora irrepetível. Mas não (lamento) não a levas nem emprestada, não podes escaneá-la, copiá-la, nem sequer guardá-la na memória para reprodução futura. Não tens direito algum ao vórtice perfeito daquele beijo enregelado, plasmado na lombada montanhosa da rectaguarda, nem ao calor da minha mão direita, que tacteava com murmúrios de cego o interior do teu bolso traseiro. Porque são meus, e não teus, os olhos fechados de futuros entreabertos e esta boca em espera, reflectida no teu olhar atento ao momento do disparo, cuidando da posição da luz. Por acaso a máquina era tua, bem como o foi a ideia do romântico enquadramento. Mas tal só te dá o direito à penúria do sol de Inverno que na altura tentava romper os recortes pontiagudos da cordilheira de fundo, numa brincadeira de crianças, infrutífera. Nada que se compare com a seriedade que me invadiu (repara) enquanto me preparava para te abocanhar a desatenção, nem com a importância de estado da minha mão a rebuscar-te os fundilhos das calças. Podes também ficar com as figuras de fundo, as sombras de dois ou três passeantes indiferentes, a meia dúzia de abetos à esquerda da imagem e da cabana ao longe que, afinal, nunca nos abrigou de nós mesmos. Mas nunca o meu infinito abandono, na direcção da tua boca distraída por um click, adornará uma outra parede que não esta.

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06
Jan07

sommersby

por Vieira do Mar

Voltaste e és o mesmo, mas também outro. Reconheço-te o valsar do sorriso rasteiro, quase as mesmas brancas, os mesmos vales obscuros onde mergulham umas olheiras azuis, e talvez uma ou outra ruga a mais. Mas és outro.Como se num filme de extra-terrestres, forças alienígenas atravessassem o teu olhar meio vazio, que pressinto dominado por outros mundos. Ou se calhar sou só eu, mais distorcida, magoada, engelhada, chocalhada, que quero cantar-te o regresso mas não consigo. Que quero anunciar-me na tua pele com pompa e circunstância mas falha-se-me o entusiasmo. Amamo-nos com os mesmos gestos gentis que nos arrebatam, é certo, e tu continuas a pôr-me o cabelo para trás da orelha quando me sento em ti, de frente, as pernas abertas, o meu rosto inseguro abandonado ao teu hálito. Mas quem és, afinal? Um estranho de três olhos, braços no lugar de pernas, cabeça nos pés, como um quadro abstracto. Uma vogal arrependida dos sons abertos que me rasgavam a carne e a apatia, em tempos. Na pior das hipóteses mudámos os dois, e hoje somos apenas estranhos que se espreguiçam no conforto de fingirem que ainda se querem. Não devemos insistir nos rituais que nos eram familiares, sabes?, nem nos gestos habituais que não reconhecemos sinceros e que acabarão por se virar contra nós. Não me importo que venhas diferente, em calhando, hoje até me amas mais e sempre me podes mostrar o que entretanto aprendeste; mas não suporto que repitas a coreografia do amor de antes, convencido de que o mimetismo do que fomos nos poderá salvar de não sermos felizes.

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