Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

um amor atrevido

um amor atrevido

Julho 31, 2007

the muse

Vieira do Mar

Quando saíste, deixei de escrever. Quer dizer, escrever, escrevia, mas nada que me saísse das entranhas, então quietas como um bicho à escuta. Sabia que não lhes poderia mexer, às entranhas: sair-me-iam remoinhos de dor pela boca, às golfadas. Temi que a dor se infiltrasse ainda mais nas reentrâncias da própria dor, como se se comesse por dentro. Ter o que escrever, contradiria a minha vida de então, alimentada a restos de silêncios, a detritos de lembranças mudas. Costumavas chegar-me e, com um beijo distraído, soltavas as palavras que, aprisionadas nas minudências do dia, ansiavam por tal gesto: um gesto que lhes assegurasse a pertinência do amor. Depositado o beijo, e as palavras espreguiçavam-se, cinderelas despertas; respiravam, como um vinho velho depois de aberto. Não obstante a tendência que sempre tive para as calar fundo, por defeito e por feitio, trepavam-me, contrariavam-me, salmões subindo o rio na desova, e eu escrevia. Primorosa e conscienciosamente. Feliz, inventava histórias de amor com finais tristes e condoía-me. No fim, voltava para a cama e envolvia-te o ressonar com os braços mornos, confortada com a alteridade da ficção. Mas, aos poucos, a escrita deixou de me fluir fácil, predominante, eloquente, e passou a forçada, com hora certa, demarcada da escassez notória do beijo, cada vez menos distraído e mais compenetrado da sua condição de beijo. Por essa altura, já eu não dormia e caminhava por negras veredas, meio cega, perdida: um espectro dentro de um corpo, um sopro de vida, o reconhecimento apenas da fome. As palavras, deixei de as experimentar antes de as usar; de as provar, de lhes testar a síncope, pois tanto fazia, e, por fim, arrumei-as a um canto, como limpezas de Primavera. Saíste de casa e levaste-me o léxico, o talento, a vontade de lavar o cabelo e de conversar com deus. Um dia, muito mais tarde, ao correr da pena e ao virar da esquina, choquei com elas, velhas amigas que, inesperadas, se riam para mim (ou rir-se-iam de mim?), irrompendo-me no peito como o perfume de antigas namoradas.

Julho 26, 2007

crazy, stupid, love

Vieira do Mar

Tenho, dentro de mim, muita gente que se atropela. Uns, irritam-se quando mastigas, estranham-te o ressonar, deitam fora a aliança; outros, mordiscam-te os dedos, bebem-te os fluidos e acompanham-te o ritmo das flatulências. Há-os cerimoniosos, dados às vénias, aos salamaleques e às hipocrisias da corte; e há os que te invadem sem aviso prévio, te roubam a escova de dentes, dormem com a tua almofada e ocupam-te o lado do sofá. De quando em vez, irrompe em mim a brigada do ódio, com as suas fauces lisas, sedentas de guerra, que acarretam silêncios e, a espaços, um ou dois canibais, que te provam os braços e te cozinham a língua. Quase em permanência, um desfile de tristes, eufóricos, felizes e de suicidas, com as suas expressões de redil vazio. Há, ainda, o psicopata assassino, que te amarra os pulsos, te corta às postas e te assa no espeto; e amantíssimas noivas de branco despidas e teor virginal, que alternam com varas de putas gastas, que te exigem uns trocos, te fazem um broche e cospem para o lado. Mais do que o amor, a raiva, o nojo, o tédio, a sobranceria e o riso, sinto por ti pena, uma enorme pena: por nos rodeares e jamais acertares; por atirares às cegas, fazeres contas de cabeça, tacteares no escuro. Por não nos saberes nem nos adivinhares.

Julho 17, 2007

shirley valentine

Vieira do Mar

Quem dera, fosse tão fácil, despir-me de ti como deste vestido, quando a areia da praia me namorisca os pés; substituir o teu dedilhar virtuoso pelo escorrer do bálsamo protector e pelas estradas de sal seco que se me desenham nas omoplatas, depois de sair da água. Quem dera, desligar-te, como ao telemóvel; retirar-te a bateria para que te não estragues, te gastes em vão, atirar-te para os fundos de uma gaveta qualquer, inábil, inútil, silente. Quem dera, fosse tão fácil, trancar-te as portas como as da casa, três voltas à chave, deixar-te às escuras, de gelosias corridas e vidros abertos; quem dera, seres tu, a imperceptível aragem à qual viro costas quando saio e não volto; seres as contas acertadas, a luz desligada, o carro na garagem, a mercearia fechada e a rua vazia. Quem dera, poder descartar-te, entregar-te à vizinha para que de ti tome conta, te dê de comer; deixar-te em dia, como ao trabalho atrasado, arrumar-te numa resma ao canto da mesa com a caneta por cima, perfeitamente alinhada com os lados das folhas, à espera do pó dos dias dos outros. Fechar-te para obras, guardar-te na parte de cima e esquecer-te, como camisolas de Inverno, e não te usar porque me arranhas a pele, me apertas o pescoço, me fazes suar. Quem dera. Mas não. Carrego-te comigo, como bagagem em excesso na volta de uma viagem, três ou quatro souvenirs imprestáveis, very tipical made in china, uma dúzia de postais ilustrados sem selo, uma máquina fotográfica avariada à chegada.

Julho 12, 2007

my best friend´s wedding

Vieira do Mar

Tenho um fraquinho por ti. Convidas-me para um café, pedes-me um conselho, que tal esta gravata, que chatice, o selo do carro, que giro o novo modelo e eu, um fraquinho por ti. Telefonas-me que não dormes, preocupado, amolgado, que porcaria de dia, o IRS, a multa, o escalão, o modelo, o formulário. Queres a bica bem cheia, o bife mal-passado e dispensas, displicente, a sobremesa cubista, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhada, atenta, vidrada. Falas-me da família, da mulher que te controla, a chata, a querida, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, pressurosa. Que te apareceu uma alergia e uma antiga namorada, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, conheces alguma oficina. E eu que sim e um fraquinho, um fraquinho por ti. Que brilhantes banalidades, que importantes frivolidades. Uma áurea que te envolve como uma mortalha inspirada, o que dizes a parecer brilhante, dramático e engraçado, tens carradas de razão. Os olhos e os pulsos, tão estreitos e tão peludos, a pose arrufiada e a madeixa desarrumada. Um lanche, uma tarde, uma conversa banal, e eu esbugalhada, à beira de te levar a sério, e sai um baile de finalistas, um tiro no porta-aviões, os cinco do euromilhões, um solstício de Verão. Largas pérolas de sabedoria que sopras na minha boca, que abre e se arrasta, do centro até às bochechas, num riso quase devoto, fugaz e brincalhão, como um daqueles duendes que desarrumam as casas. Que gostas muito, muito dela, que és doido pelas crianças, as caraíbas e a eurodisney, que este ano é que vai ser, que maravilha, que homem amável, daqueles que não há mais, que grandezas vislumbro, nesta apologia sentida do entorno familiar, nesta pública devoção. E eu, fraquinha, fraquinha (fraquinha por ti).