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um amor atrevido

um amor atrevido

Setembro 13, 2007

finding neverland

Vieira do Mar

Amei-te, mas nunca te amei, e este desconhecimento bíblico enredou-me numa linha invisível que me emaranha o futuro, penhorado nesta vontade incumprida que, volta e meia, me atiça os sentidos. Precisava que a realidade do teu corpo nu, em toda a sua incompetente fragilidade, me tivesse esmorecido estes desasados quebrantos românticos e a ideia peregrina de que dois podem ser um só, enquanto pássaros de cetins no bico atravessam corações rosa suspensos no ar. Precisava de ter constatado que o que te excita, me enoja e entedia. Que te tivesses atrapalhado no acto, mostrado incapaz de malabarismos e desajeitado nas cambalhotas; que tivesses confundido as coordenadas, traçado mal o azimute e acertado ao lado. Precisava de ter reparado, desagradada, nos pêlos do teu nariz, na barriga saída, nos cotovelos gretados, no dente cariado. Era fundamental, que te tivesses satisfeito sozinho e à missionário e eu, a imaginar como sair rapidamente de debaixo de ti. E que a culpa se tivesse sobreposto a qualquer lamiré de gozo, de modo a que eu tivesse tido vontade de recuperar o juízo e as cuecas do meio da nossa roupa, seguramente lançada para o chão com a urgência dos deuses. Precisava de não ter gostado de ti e de ter constatado, sem sombra para dúvidas, que não prestas por aí além, para poder largar de vez a ideia de que um dia terei de o confirmar, empiricamente e por escrito. Quando as coisas não acontecem, o vazio torna-se o espaço mais ocupado da sala onde estamos, trazendo consigo os prenúncios de uma implosão anunciada.

 

Setembro 13, 2007

the best years of our lives

Vieira do Mar

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de te o perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo. Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.

Setembro 07, 2007

cat people

Vieira do Mar

A noite é uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas doces e telúricas, trazendo-me o recorte da tua sombra chinesa a dançar pelas esquinas e cantos esboucelados das paredes do quarto, num bailado que se acoita nas horas mortas. A noite ronrona baixinho e compõe uma geometria perfeita de enganos, oferecendo-me mãos cheias de possibilidades enquanto eu faço que acredito e me rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, entornada de escuridão, arquejando pelo início do dia em explosões verosímeis de luz. À noite, arrepio caminho, papo léguas e devoro a distância entre nós até parecer que me tocam, os pelos que se te eriçam. É lá que às vezes morro e me transformo num fantasma de gesto lépido, seguindo-te os passos por corredores inventados. Há alturas em que me surges dos contornos da cordilheira de roupa atirada para o chão e do abandono de um sapato desemparelhado, volteado e caído qual naufrágio de um barco. Ris-te da minha volúpia de ombros tensos e virilhas molhadas e eu deixo. Porque a noite é uma mãe negligente, que tudo permite. É nela que me abro para ti como se me abandonasse ao chão sujo e desenhasse anjos na neve. E é nela que tu, com o peso de constelações inteiras, me entras certeiro, mesmo antes de a madrugada espreitar a gelosia entreaberta e começar a impor, às minhas pálpebras cerradas como uma casa devoluta, a realidade de todas as coisas.

Setembro 05, 2007

a place in the sun

Vieira do Mar

Louvámos a praia até ao poente, nesse dia. O sol, passageiro clandestino, encarniçava-nos a gazeta, usurpada ao trabalho. Arranhavas-me por razões várias as pernas molhadas, fazendo com que os dedos dos meus pés se esticassem de prazer como os de uma bailarina em pontas e fossem deixando sulcos de limpa-areias ao fim do dia, na areia molhada, consoante te ias submergindo mais e mais em mim, um mapa batrimétrico entre as tuas pernas, e eu, cá dentro, uma rede de recifes de coral e grutas de uma anatomia simples, a encherem-se das tuas marés, a corroerem-se um século a cada nova enxurrada, eu, na vertical, a envelhecer debaixo de ti, um ser em camadas geológicas, corroídas pela paixão. As nossas sombras, mais estreitas a cada guinada do sol na direcção do nada, repetiam cada beijo enrolado em areia, cuspido no meu umbigo, a barriga, os braços, as virilhas, a tremerem de inveja das tuas explorações subterrâneas, tão meticulosas quanto trapalhonas. Foste tão pouco meu como o sol, na sua última curvatura roxa antes de desaparecer na linha do horizonte, uma linha que parecia desenhada por um miúdo a régua e esquadro lá longe, só para que soubéssemos que há coisas inultrapassáveis, como a pressão do oceano, as paredes de corais e os dias seguintes.