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um amor atrevido

um amor atrevido

Fevereiro 21, 2009

carne tremula

Vieira do Mar

Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela. Devolve-me a clarividência do riso das crianças, a doçura dos domingos embalados na modorra familiar, as receitas experimentais no caos da minha cozinha minúscula e o gozo de afagar os cães com as suas línguas caídas e alegres. Devolve-me a futilidade das tardes roubadas ao trabalho e passadas entre amigas, o entrar e sair dos provadores, um número abaixo, um número acima, esta saia fica-me mal, essas calças ficam-te bem, o cobiçar das botas na montra e o aconchego da noite, que sempre tratei por tu e que agora é uma estrada escura que atravesso a pé e a medo até ao limiar do dia. Devolve-me as músicas que me faziam feliz, a voz redonda e cheia com que as cantava pela janela do carro, o prazer das manhãs debaixo de um céu sem nuvens, a vontade de ler um livro, um livro a sério. Devolve-me a capacidade de atentar nos detalhes, no traço incerto de uns dedos pequenos e gorduchos numa folha branca, na pontaria instintiva de uma piada privada atirada ao ar; devolve-me a sede de saber do mundo no escrutínio de um jornal diário, devolve-me o sócrates e o obama, as respostas que te não dei, mais a luta que te não ofereci e os argumentos a que me escusei quando me lancei à tua boca e as palavras foram só empecilhos. Devolve-me as noites pacificadas no enrosco de um abraço, a ignorância que tinha de ti, a incisão na pele de um raio de sol de inverno e o gozo de ver um bom filme. Devolve-me o prazer do silêncio e do telemóvel desligado. Devolve-me, que as pessoas já falam e comentam e reparam no invólucro de mim que sobrevive rasteiro, e toma (leva contigo), esta abrasão no peito, a dispersão e o medo, a indiferença e o tédio, o insosso das refeições, a vontade de crer nas tuas rimas e a cefaleia constante que me provocam os ladrares, as canções, as conversas, os risos dos meus amores e todos os sons, do campo e da cidade, nos quais não te materializas de imediato. Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela.

Fevereiro 17, 2009

il diavolo in corpo

Vieira do Mar

Procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda. Guardo segredos só por ti desvendados e sorrio aos passantes, atirando-lhes à cara a arrogância de quem possui algo de único e de reservado, de exclusivo e de impraticável, como uma estância de luxo ubicada nas águas turquesa de outro continente qualquer. Trago-te em estado líquido, tanto de ti que te queixas entre as minhas pernas quando ando, com medo de caíres estatelando-te no passeio, e eu às vezes a alargar o passo só para provocar o teu medo e sentir que te agarras com força às minhas virilhas molhadas. Algures, um oráculo ecoa na decrepitude dos prédios e ordena-me que corra para longe, sob pena de as vísceras dos animais anunciarem derrotas e outras desgraças. Vejo o teu sexo nos pilares e nas cornijas, em evocações fálicas que me divertem e acendem, alheia que estou à mediocridade das analogias, embora o enunciado de tragédia que leio nas nuvens que dealbam o céu me devesse acautelar o riso e a desvergonha. A tua língua, o voo nervoso daquele pássaro, uma arvéola que hesita entre um beirado derruído e a estátua suja de um pedagogo. Quando finalmente me escorreres pelas pernas e, caído no passeio, eu seguir sem olhar-te, voltarei a sentir pequenos espasmos de alegria com a nova temporada da minha série favorita e retornarei ao cronometrar seguro de todos os momentos do meu dia, sentindo-me velha esmarrida mas em casa, de novo em casa. Apressar-me-ei a limpar as janelas por dentro e por fora com o detergente adequado e aposto que consigo até lavar a roupa na máquina sem a deixar toda da mesma cor. Em breve, quando me cansar das traições, das indecências e do teu pulsar dentro de mim, deixarei de ser a puta vernacular em que me transformaste para regressar ao mundo das horas contadas, das cortesias sem sentido, dos contarelos familiares e dos frescos no hipermercado.

Fevereiro 04, 2009

un homme amoreux

Vieira do Mar

Repara, eu não sou neófita, nisto do amor. Posso vaga-lume pela noite fora à espera de um sinal teu, que no dia seguinte aplano, escolho o meu melhor vestido, calço os sapatos mais altos e bato com a porta à saída. Não é que me estejas a dar alguma espécie de novidade: são imensas e variadas as hipóteses de me dar mal, de sofrer que nem um cão, de acabar mendiga na sopa dos pobres, a roer uma côdea rala e a sorrir os dentes podres enquanto repito o teu nome aos transeuntes que nem olham. Pode ser. Sou tu cá tu lá com o desejo que me consome, entre nós não existem segredos, ele sabe que já o topei e se não me atiro agora mesmo para debaixo de um comboio, de preferência de mercadorias porque são os mais pesados, é porque tenho hora no cabeleireiro e ainda se aproveita qualquer coisa no refugo dos saldos de inverno. Não há nada no teu silêncio, súbito como uma cãibra, que remotamente me surpreenda: os silêncios vêm em bandos e é época das migrações. Posso até mortificar-me em frente à televisão, a roer uma série macabra onde o herói patologista disseca com poesia uma artéria femural, mas os silêncios (em especial os súbitos) como-os eu ao pequeno-almoço. Tudo o que possas não fazer agora, já eu o não fiz antes; conheço bem os meandros de se estar quieto à espera que passe e a necessidade de marcarmos uma posição quando não podemos marcar um território (ou a carne com um ferro). Nada leio de especial naquilo que não me dizes, nem descortino entrelinhas no acto de te manteres à margem; o espaço que existe entre nós não é mais do que matéria e por muito que o alargues, tu nos antípodas e eu insone à espreita, será sempre a mesma matéria, vou lá contradizer a ciência. Repara, eu tenho vindo a acumular pontos, guardo cupões de desconto e aproveito as promoções. E sei que não é por assobiares as palavras para o lado e por me negares as noites, que despes a minha pele e a deixas pelo caminho.