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um amor atrevido

um amor atrevido

Abril 22, 2009

como agua para chocolate

Vieira do Mar

Não me apetece escrever, de tanto que o meu corpo te exige, com propósitos feudais. Que se lixe o romance e a poesia, só quero que me estafes e que rompas o teu silêncio estraçalhando-me os tabus, para depois poder adornar o meu cansaço nas tuas costas e que fiquemos assim, comprometidos com o momento e confinados a um espaço emprestado, os ruídos dos outros a circularem nas paredes como veneno. Não quero partilhar com ninguém os teus cabelos curtos por entre os meus dedos, a barba indolente que roças nos meus recantos cavos, nem o desenho da tua boca a sugar-me o antebraço. Não quero que saibam desta alquimia em que absorvo o teu cheiro através da minha pele, num processo simbiótico que podia fazer escola, nem destes desejos de cama e mesa, ilusões pequeno-burguesas de declarações conjuntas, passeios mão na mão e louças na máquina. Se pudesse, gastaria os meus dedos noutras práticas, como chegar ao teu epicentro atalhando-te pelo períneo, esfregando-me em ti como um bicho na casca de uma árvore e marcando-te meu território, enquanto o sol da tarde, insinuando que há vida lá fora, se atreveria a medo por entre as persianas estragadas.

Abril 20, 2009

crimes and misdemeanors

Vieira do Mar

Reduzo-me a pormenores que fixo na retina ou aguento nas entranhas, incapaz de abarcar o desígnio maior disto tudo. Vogam insensatas esperanças e fazem-se contas de cabeça, embora eu cale o que queria de facto dizer-te, de alguma forma ainda presa a ti: a tanto me leva o paradoxo da saudade. É o teu sabor na minha boca, mesmo quando não estás, e é o teu andar desengonçado a arrastar a minha sombra, até quando vou sozinha. Começo a não saber onde residem os intervalos, se nos momentos em que estou contigo, se quando o resto da minha existência segue para bingo. Mas se hoje é assim, amanhã fico indiferente, a achar a urgência que me consome um disparate sem cabimento na minha vida cronometrada por terceiros. Dizem que é isto a bipolaridade do amor: num dia, a razão desvaloriza-o em nome da sobrevivência da espécie, no outro, induz práticas irreflectidas que roçam o indecoro e o mau gosto, como linguados que excedem o prazo permitido e cópulas quase públicas. Queria entrelaçar as minhas pernas nas tuas em remates intrincados, num exagero de nós de escota e de lais de guia, e a seguir fechar os olhos. No fundo, queria apenas o que milhões de outros homens e mulheres sempre quiseram uns dos outros: acordarem de manhã lado a lado, brevemente completos, embalados por impressões difusas de felicidade.