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25
Jul09

damage

por Vieira do Mar

Eu chegava primeiro como de costume e achava graça, ao modo apressado como entravas sem me olhares a direito, pousavas a mochila no chão e remexias no seu interior, como um vendedor porta-a-porta com urgência em me impingir um aspirador mágico ou um evangelizador imberbe prestes a sacar da bíblia para me tentar convertar. Era neste momento que eu gozava o meu poder, o poder de te atrair para ali e de te fazer esquecer o resto; o poder que sabia que perderia assim que me pusesses as mãos em cima. Olhava-te de pé encostada à parede, a esconder o nervoso na bainha do vestido que ia alisando com os dedos, de casaco posto, se preciso fosse de cachecol ainda ferozmente enrolado ao pescoço. Queria que passasses por todas as etapas do acto de me despires e que cada peça de roupa fosse um degrau a mais na escalada ignominiosa da traição que estavas prestes a cometer. Mas tu nunca fazias nada como eu queria: levantavas-me o vestido, enfiavas-me a mão sem cerimónia, avaliavas-me a humidade, viravas-me de costas, punhas-me de quatro e depois de um rápido vai-vem só para aquecer, deitavas-te de costas na cama à espera que eu fizesse o resto, designadamente, que me livrasse da roupa sozinha e te desse toda a atenção do mundo. E eu despia-me (desastrada, os pés pelas mãos) e dava-ta, enquanto tu olhavas o tecto como se este fosse mais importante do que as minhas curvas nuas e os meus espaços abertos ansiosos pela tua prospecção. O mais estranho é que gostava assim; criara a ilusão de que ambos ganhávamos e perdíamos à vez naquele cenário depurado de coreografias românticas e assente apenas na crueza materialista da posse. Mas na verdade eu quase só perdia; muito mais do que as duas ou três horas de deveres incumpridos, eram résteas de amor-próprio que aos poucos iam ficando misturadas nas fibras dos lençóis, como vestígios seminais. Um dia, hás-de querer-me nua e eu de mãos atadas, tapada com um rigor de freira, a boca cerrada num fio, absurdamente fixa em qualquer coisa que não tu, a alma feita num nó, mas os lençóis (garanto-te) um brinco.

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